Entendimento e prática de ações educativas de profissionais do Programa Saúde
da Família de São Sebastião-AL: detectando dificuldades
PESQUISA
Entendimento e prática de ações educativas de profissionais do Programa Saúde
da Família de São Sebastião-AL: detectando dificuldades
Understanding and practice of educational actions of Health Family Program
professionals in São Sebastião-AL: detecting difficulties
Entendimiento y práctica de acciones educativas de profesionales del Programa
Salud de la Familia de São Sebastião/AL: detectando dificultades
Gilberto MeloI*; Regina Maria dos SantosII; Maria Cristina Soares Figueiredo
TrezzaIII
IEnfermeiro; Especialista em Saúde da Família; Membro da equipe do PSF de São
Sebastião/AL
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto IV do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas. Membro do NUPHEBRAS/EEAN/UFRJ.
Membro do .PROCUIDADO
IIIEnfermeria. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto IV do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas. Pesquisador líder do PROCUIDADO/
ENF/UFAL
1. INTRODUÇÃO
Este é um trabalho baseado na monografia de Melo(1), um dos autores deste
estudo, sobre o entendimento e a prática de ações educativas de profissionais
de equipes do programa saúde da Família do Município de São Sebastião,
dirigidas àquela população, na perspectiva das dificuldades em executá-las. O
interesse e curiosidade em realizá-lo surgiram no desenvolvimento das
atividades no Programa Saúde da Família naquele município, onde se percebeu que
o atendimento a clientela ocupava todo o tempo dos profissionais e que as metas
a serem alcançadas obedecendo a critérios da Secretaria Municipal de Saúde do
Município levavam a um trabalho exaustivo, não personalizado, o qual vinha
dificultando a execução de outras atividades de interação com a comunidade.
Percebeu-se ainda a escassez das ações educativas voltadas para a promoção e
proteção de saúde, assim como a produção de materiais educativos voltados para
a informação da população em geral, priorizando os aspectos preventivos da
saúde bem como a adoção de hábitos de vida saudáveis. Entre estas, as palestras
educativas parecem ser as mais prejudicadas, assim como a sala de espera que é
vista pelos profissionais em serviço como o local onde os clientes ficam
aguardando a consulta, transformando-se no espaço estratégico de veiculação de
informação sobre como cuidar da saúde de si e do ambiente. É neste espaço
físico de espera dos pacientes que deveria ser realizada a palestra educativa,
a partir de uma programação pré-elaborada, de acordo com a realidade da área
adscrita.
No entanto, percebemos que estas ações educativas são dificultadas quando o
espaço da sala de espera se transforma em local de amplo movimento e barulho,
onde os auxiliares fazem as suas chamadas para a realização da pré-consulta
para os enfermeiros e os médicos em alto e "bom" som, formando tumulto entre as
vozes dos usuários, os chamados e os demais sons ambientais. Esse ambiente não
parece estar sendo visto como adequado para a realização de palestras
educativas, nem o sentido de urgência por parte dos profissionais e atenção aos
chamados por parte dos usuários permitem que as pessoas se prontifiquem a
trocar experiências e informações em tal ambiente desfavorável.
Suspeita-se que a não priorização das atividades educativas possa ser explicada
pelo conceito ou pela compreensão que os profissionais da equipe possam ter do
que seja educação para a saúde, ou porque, no momento, estão dando importância
apenas ao número de atendimentos priorizados pela secretária do município
deixando a desejar nas atividades com a comunidade. Levando-se em conta que, se
cabe entender a educação em saúde como uma educação baseada no dialogo, ou
seja, na troca de saberes (...) um intercambio entre o saber cientifico e o
popular em que cada um deles tem muito a ensinar e aprender (...)(2), o
profissional pode acabar por sentir-se desmotivado para a realização desta
atividade e dedicar-se quase que exclusivamente a atender, consultar, realizar
procedimentos e ou envolver-se com tarefas burocrático administrativas, ou
seja, aquelas que vão compor o corpo da produtividade desejada pelos sistemas
de informação em saúde.
Contudo, esta situação não foi alvo, pelo menos no material consultado, de
estudos que verificam se a situação relatada é vivenciada em todos os locais de
trabalho. Por outro lado, não foi encontrado nenhum estudo que tenha se
preocupado em indagar até que ponto a comunidade está interessada em ouvir
palestras e, se tem interesse, sobre quais temas gostariam que fossem
abordados, considerando-se as ações educativas como um intercâmbio entre
profissionais e usuários.
Não obstante, para desenvolver essas ações faz-se necessário que a equipe tenha
o perfil e conhecimento do que é este programa e de suas atribuições
distribuídas por profissionais, considerando que conhecer a filosofia do
programa é fundamental para que se possa perceber a importância da realização
de atividades educativas com a população, sem as quais o Programa não consegue
cumprir a sua finalidade, qual seja:uma estratégia que prioriza ações de
promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do
recém-nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral e contínua(3,4).
Assim como as demais equipes do Programa de Saúde da Família, aquelas que
trabalham no município de São Sebastião, entre outras obrigações, devem estar
preparadas para: identificar os problemas de saúde prevalentes e situações de
risco aos quais a população está exposta; Elaborar, com a participação da
comunidade, um plano local para o enfrentamento dos determinantes do processo
saúde/doença; oportunizar os contatos com indivíduos sadios ou doentes, visando
abordar os aspectos preventivos e de educação sanitária; promover a qualidade
de vida e contribuir para que o meio ambiente seja mais saudável. Com isto,
verifica-se que as ações educativas têm importância central e o trabalho de
sensibilização e divulgação envolve desde a clareza na definição do público a
ser atingido até a mensagem a ser veiculada.
Neste sentido, deve ser salientada a necessidade da realização de palestras e
da utilização de material áudio visual como os álbuns seriados, cartazes
ilustrativos e a utilização de vídeos, levando em consideração que a comunidade
em sua maioria é analfabeta e tem situação econômica precária nos revelando a
necessidade de divulgar que, na realização das palestras, ofereceremos lanches
durante os intervalos. Vale ainda utilizar os meios de comunicação em massa
como espaços privilegiados, tanto para palestras, como para a disseminação da
proposta de divulgação de experiências bem sucedidas na comunidade, podendo ser
esta experiência relatada pelo próprio cliente funcionando como estímulo para
adesão de novos clientes à proposta.
Percebendo que em um município como São Sebastião onde a maior parte dos
recursos de saúde são gastos com atividades curativas, mais do que nunca se
torna evidente que há urgência em mudar a estratégia, investindo mais na
execução de atividades educativas direcionadas a mudar hábitos de vida; tendo a
construção desse trabalho uma direcionalidade adequada às ações necessárias ao
eixo epidemiológico, privilegiando a prevenção de doenças e a promoção da
saúde. No entanto, não se tem presenciado a realização das ações educativas da
forma como deveria ser feito, o que vai dificultar a resposta da comunidade ao
trabalho preconizado pelo Programa. Esta situação levou a perguntar: O que os
profissionais de saúde de São Sebastião, pertencentes ás equipes de PSF,
entendem sobre Educação em Saúde e como vêem sua participação nesta atividade?
Mais ainda, que dificuldades os profissionais encontram para realizar as ações
educativas e de que necessitam para que possam realizar ações educativas
eficientes e estimulativas?
A busca de explicações para as questões formuladas levou a estabelecer como
objetivos deste estudo: Verificar o entendimento que os profissionais de saúde
do município de São Sebastião, vinculados ao PSF tem sobre Educação em Saúde e
o seu envolvimento na realização de ações educativas e analisar as dificuldades
dos profissionais para realizar ações educativas e suas necessidades para
desenvolvê-las.
Quando um profissional é contratado para atuar numa equipe de Saúde da Família,
ele assume o trabalho com uma visão que foi construída em seus processos de
formação, em trabalhos desenvolvidos em Instituições de Saúde tradicionais,
cujos métodos e processos de trabalho guardam diferenças em relação ao modelo
implantado pelo PSF, chegando mesmo a causar alguns descompassos, os quais vêm
sendo superados pela realização de treinamentos, cursos de especialização e
outros treinamentos. Uma das áreas onde o PSF trouxe modificações foi
justamente na execução de um programa de educação em saúde planejado para a
comunidade adscrita, a partir do diagnóstico de suas necessidades e do
conhecimento do seu perfil epidemiológico.
Considerando esta particularidade, ao detectar que esta atividade vem sendo
prejudicada na sua execução, é importante produzir um estudo que traga
esclarecimentos sobre a questão, revelando as concepções dos profissionais
sobre o assunto e as dificuldades que enfrentam para realizar esse tipo
específico de atividades, as quais fizeram (e fazem) parte do trabalho do
enfermeiro e dos auxiliares de enfermagem, mas que, corriqueiramente, não são
executadas por outros profissionais. Por outro lado, este estudo também adquire
relevância quando gera a possibilidade de se rever o patamar em que o próprio
PSF coloca a questão da educação em saúde, em termos de prioridade,
providenciando material e suporte pedagógico para a realização dessas
atividades. Esse estudo possibilitará uma reflexão sobre como as ações de
educação em saúde estão sendo desenvolvidas e no que elas podem ser otimizadas
no âmbito da Estratégia de Saúde da Família. Poderá também, contribuir para um
atendimento mais centrado no indivíduo e na coletividade valorizando o saber
das comunidades locais, e permitindo o redesenho dos profissionais da ESF, com
o perfil mais adequado para executar ações educativas junto com a população.
2. ABORDAGEM METODOLÓGICA
Trata-se de uma pesquisa descritiva exploratória de abordagem qualitativa, pois
pretendeu verificar profundamente nos profissionais envolvidos as questões que
se propôs levantar, sem envolvimento amplo da totalidade dos profissionais. Foi
realizado no município de São Sebastião, nas Unidades que compõem a Estratégia
de Saúde da Família. Este programa de assistência à saúde começou a ser
implantado neste município em 1998, sobretudo nas áreas onde havia carência de
unidades de saúde. Atualmente a cidade conta com a assistência de 11 equipes
compostas por médicos, enfermeiros e dentistas, somando 33 profissionais de
nível universitário, prestando cobertura ao município, havendo uma variação do
numero de famílias para cada equipe, de acordo com a necessidade de cada área,
oscilando entre 417 a 978 famílias, dependendo do risco ou da extensão, com
cobertura real de 100%.
Foram 10 profissionais de saúde que atuam nas equipes de saúde da família do
Município de São Sebastião, a saber: 03 médicos, 04 enfermeiros e 03
odontólogos. Tais profissionais foram escolhidos por executarem as ações de
maior complexidade, em termos de Educação em Saúde, nas Unidades Básicas, pelo
fato de estarem presentes nas unidades do PSF no período da coleta de dados e
por terem concordado em participar do estudo. Por outro lado, houve saturação
das respostas, o que veio indicar que era o momento de interromper o processo
de entrevistas.
As informações foram produzidas a partir do contato entre os pesquisadores e os
sujeitos escolhidos. Este contato foi feito através de uma entrevista
direcionada apenas aos membros das equipes do PSF do município de São
Sebastião, excetuando-se os de nível médio por dificuldades de
operacionalização. Foi conduzida mediante um roteiro semi-estruturado, para que
houvesse liberdade de expressão, ampliação das respostas e acréscimo a outras
perguntas que se mostrassem necessárias.
Os sujeitos foram informados, antes de iniciar-se a entrevista, sobre de que
tratava o trabalho, como seria sua participação e a que risco estaria sendo
exposto. Em seguida foi solicitado que preenchessem e assinassem o termo de
consentimento livre e esclarecido. Foi acordado com eles que a entrevista não
seria gravada, por escolha deles mesmo. Foi julgado que o gravador os inibia,
que falar diretamente não os deixavam à vontade e que preferiam escrever suas
respostas.
3. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Buscando os elementos necessários para alcançar os objetivos deste trabalho,
procedeu-se a leitura exaustiva das contribuições dos sujeitos. Acredita-se que
a recusa em usar um gravador provocou a perda de informações importantes, mas a
Resolução 196 do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa impõe o respeito aos
desejos dos pesquisados. De qualquer forma, seus desejos seriam respeitados e
houve muito esforço para escrever o mais possível as suas palavras.
A partir da leitura das respostas, os textos foram reunidos conforme os núcleos
de sentidos que apresentavam, os quais foram aproximados conforme o tema que
continham, chegando aos seguintes resultados que estão apresentados em blocos,
comentando os sentidos encontrados com o apoio de autores que desenvolveram
seus estudos nas temáticas extraídas dos sujeitos.
O entendimento ou a concepção dos sujeitos sobre Educação em Saúde
A primeira temática extraída das entrevistas foi a concepção dos sujeitos sobre
o que seria educação em saúde, sendo a pergunta formulada da seguinte maneira:
"No contexto do seu trabalho, para você o que é educação em Saúde?". O conjunto
das respostas revelou diversas concepções, refletindo a visão de mundo de cada
um dos sujeitos, ora aproximando-se do enfoque educativo e ora refletindo
concepções preventivas, capaz de provocar transformações sociais:
"é passar informações técnicas necessárias à comunidade, para que
tenham um retorno positivo das ações básicas de saúde" (D4)
"é trabalhar com as técnicas educativas simultâneas com a saúde" (D7)
"Será o elo que o profissional de saúde dispõe para relacionar-se bem
com a comunidade e através da conversação dá início à prevenção das
doenças. Pois a educação, para mim, é sinônimo de prevenir"(D1)
A nossa forma de categorizar as falas sobre a questão "o que é educação em
saúde?" fundamentou-se na proposta de abordagens sobre educação em saúde de
Stotz(5) que apresenta quatro vertentes : Enfoque preventivo, enfoque
educativo, enfoque radical e enfoque do desenvolvimento social.
O enfoque preventivo baseia-se da etiologia das doenças, no combate aos fatores
de riscos e sua eficácia è centrada na mudança do comportamento da sociedade
para um padrão mais saudável. A educação é fundamentada no modelo místico, o
sujeito da ação, o educador é o profissional da saúde. Para o enfoque educativo
o educador, o sujeito da ação, utiliza-se de crenças e valores da comunidade
com relação à certa informação sobre saúde, bem como discutir suas implicações
práticas; a eficácia desse enfoque é que o usuário tenha uma compreensão
verdadeira de sua situação. O enfoque radical considera que as condições e a
estrutura social são causas básicas dos problemas de saúde. Sua concepção de
educação em saúde é direcionada para a luta política pela saúde, e tem uma
perspectiva transformadora da sociedade. O enfoque do desenvolvimento pessoal
possui as mesmas proposições do enfoque educativo, só que se baseia em
trabalhos em grupos orientados para a busca das potencialidades do individuo e
para a elevação de sua auto-estima e de sua responsabilidade pessoal com sua
saúde.
Dentre os 10 (dez) profissionais do PSF entrevistados, 08 (oito) se aproximaram
do enfoque preventivo,o que vem reiterar Stotz(5) quando diz que o enfoque da
educação sanitária dominante nos serviços da saúde é o preventivo. A idéia de
que o profissional de saúde é o sujeito principal da ação, ou seja, é o
epicentro da educação em saúde está presente, de modo explicito ou implícito,
em todas as falas, na postura do enfoque preventivo, apontado por Syotz(5).
Sobre esta questão, o referido autor tem suas idéias referendadas quando existe
referência à uma "medicina desencadeadora" em que os profissionais de saúde
repassam informações, tomam decisões e chegam a conclusão sobre o tratamento a
ser seguido pelo cliente, e culpam a população pelas falhas no decorrer do
tratamento(2).
Destaque deve ser dado ao depoente que apontou para a educação em saúde como
promotora do bem estar social, mesmo estando alicerçado no enfoque preventivo,
sendo o único profissional que faz referencia a uma ação educativa voltada para
a transformação social(6) encontradanos manuaisde Programa de Saúde da Família.
É também no Manual de Operacionalização de Ações Educativas no SUS do estado de
São Paulo(4) que encontramos referência à visão de educação em saúde como motor
de transformação social, como é a proposta contida na filosofia do PSF.
Contudo, a maioria dos profissionais enfatiza a idéia da prevenção como fator
independente na educação em saúde o que nos leva a crer que as discussões
teóricometodológicas sobre uma educação em saúde transformadora e até
hegemônica(2), nos sistemas de saúde e sociedade, estão longe do cotidiano
desses profissionais.
Entendimento dos profissionais sobre seu envolvimento com as ações de educação
em saúde
Todos os sujeitos entrevistados afirmaram que possuem o "compromisso" ou o
"dever" de executarem ações e educação em saúde, seja pelo compromisso
profissional inerente a sua formação acadêmica, seja com base nos princípios do
Sistema Único de Saúde (SUS) ou ainda, por respeito aos princípios do Programa
Saúde da Família, enquanto estratégia transformadora, principalmente o
principio da integralidade(7). Daí foi extraída a categoria educação em saúde
como compromisso de consciência, pelas seguintes falas:
"o profissional que tem consciência do seu nome, sabe do compromisso
em educar a comunidade. Não necessariamente precisa ser uma obrigação
contratual"(D2)
"a educação é obrigação moral. Se a educação não for feita por nós,
profissionais de saúde, quem é que vai fazer?"(D5)
"apesar da falta de instrução da população em geral, as ações
educativas é pelo menos uma tentativa de conscientizar a população da
importância da saúde bucal e assim diminuir o número de extrações"
(D10)
Entender a educação em saúde como um compromisso de consciência traduz o
compromisso dos profissionais com o SUS, com o PSF, com a profissão e consigo
próprio como cidadão que atingiu um ponto destacável no processo educativo e
sente o dever de aplicar seus conhecimentos em benefício de uma população que
carece de informações para poder viver melhor. Por outro lado, reflete a
absorção dos princípios mencionados, entre os quais destaco o princípio da
integralidade.
Este princípio orienta os serviços de atenção primária para ações promocionais,
preventivas e curativas, reabilitadoras, providas de forma integrada percebendo
as famílias e o sistema, integrados com o ambiente natural e social(7). É com
base na premissa da integralidade como um dos princípios norteadores do SUS e
do PSF, que boa parte dos profissionais das Equipes de Saúde da Família
fomentaram suas argumentações. Ao pensar em educação em saúde com enfoques
preventivo e educativo, associando-a ao cotidiano do trabalho, como parte e
compromisso do seu fazer, os profissionais se remeteram ao princípio da
integralidade por compreenderem e acreditarem que têm essa obrigação:
"tenho esta obrigação porque o PSF é um trabalho preventivo, por mais
que hoje façamos o curativo"(D6)
"é meu dever associar as ações educativas no dia-a-dia através de
palestras, reuniões, orientações, etc"(D7)
"é prioridade, pois é por meio delas que as ações de saúde se tornam
possíveis"(D8)
"isto é uma obrigação. Eu realizo desde os atos simples, como no
primeiro momento da consulta, até grandes eventos como as palestras"
(D2)
A leitura das entrevistas na íntegra, levou a detectar ainda dois aspectos que
vale a pena destacar, pois envolve uma visão da comunidade atendida pelos
profissionais, talvez sendo a razão para se considerarem tão comprometidos com
as ações educativas:
"infelizmente a ação preventiva está ainda ganhando espaço,
principalmente para a população mais carente. É difícil falar sobre
higiene, o uso do sanitário enquanto a maior parte da população não
tem saneamento básico e muitos deles nem mesmo tem o sanitário" (D3)
"é muito difícil pois a população carente não aceita certos métodos
educativos e na maioria das vezes não tem condições de realizar uma
boa higienização oral"(D10)
Esses dois sujeitos referendaram a idéia de que a educação em saúde é parte do
princípio da integralidade das ações em saúde, apontando agora para o princípio
da intersetorialidade, pois, a comunidade deve ser orientada para reivindicar
seus direitos, sendo parte do processo educativo o debate em torno da
organização comunitária. Por outro lado, o profissional que conserva o
pensamento de que não é possível mudar a mentalidade das pessoas reforça a
questão de que a educação permanente dos profissionais faz parte da renovação
do espírito de educador e atualiza a pessoa técnica e intelectualmente, podendo
ser a chance de abrir-se para novos pensamentos.
Análise das condições existentes para realizar ações educativas, pessoais e
materiais
As respostas às perguntas sobre as condições materiais e pessoais para a
realização das ações educativas permitiram construir a seguinte categoria:
Educar exige material, espaço, preparo e platéia. O conjunto das falas permitiu
perceber que poucos possuem condições razoáveis e boas:
"temos material áudio visual bom. A dificuldade maior é o espaço, que
muitas vezes dependemos de escolas na comunidade"(D1)
"No município que eu trabalho (São Sebastião) dá condições: cartaz,
tv, vídeo"(D6)
A maioria revela que não consideram boas as condições oferecidas pelo
município:
"as condições são precárias, porque não dispomos de materiais
didáticos nem apoio técnico por parte da Secretaria Municipal de
Saúde"(D4)
"As condições são muito precárias. Cheguei a comprar cartolinas e
lápis de várias cores para a palestra não ficar monótona, sem
ilustração. Não há material ilustrativo algum para realizar
palestras"(D10)
2Nós temos poucos recursos, mas dá para desenvolver as atividades
educativas, mas precisa melhorar muito, desde material até espaço
físico"(D2)
Por outro lado, duas questões fundamentais foram referidas quais sejam:
"As condições são boas, desde que eu consiga convencer as pessoas"
(D9)
"Tenho condições técnicas, mas não tenho condições pedagógicas" (D5)
Que quer dizer "desde que eu consiga convencer as pessoas"? o convencimento se
destina a fazê-las participar ou fazer com que mudem seus comportamentos? A que
concepção estará ligada esse desejo de convencer as pessoas? Da mesma forma em
que as respostas levantam dúvidas, deixam perceber também que os profissionais
precisam estar preparados pedagogicamente para exercer atividades educativas e
isso nem sempre acontece. Daí porque é válido sugerir maior investimento dos
gestores, maior envolvimento das secretarias municipais com esta questão, até
porque os profissionais se mostram motivados mas a falta de condições pode ser
frustrante.
Neste aspecto, o estudo conseguiu apontar quais as principais reivindicações
dos profissionais para a realização de ações educativas estimulantes: a) Local
apropriado para realização das palestras; b) Horário adequado para as
palestras, em que boa parte da comunidade possa comparecer; c) Estímulo a
comunidade com material mais atraente, lanches, uso de recursos audiovisuais
para além de cartazes; d) Uma maior carga horária para desenvolver as ações
preventivas nas Equipes de Saúde da Família; e) Conscientização da população da
importância de sua participação nas ações educativas; f) Necessidade de
transporte das equipes para o local das atividades educativas.
De acordo com o Manual para Operacionalização das Ações Educativas no SUS(4), o
plano de ação educativa deve incorporar todos os fatores citados pelos
depoentes. Identificados previamente em um diagnóstico anterior, que inclui não
apenas os recursos materiais, audiovisuais, lanche, transporte, local adequado,
mas o fator mais importante, a metodologia que será utilizada nas ações
educativas, em resumo, a execução da educação em saúde pode ser elaborada e
implementada por um planejamento de cunho intersetorial que envolva a maior
colaboração de atores sociais disponíveis.
Nesta mesma categoria podem ser analisadas as aptidões manifestadas pelos
sujeitos, indicativas de pontos positivos que devem ser reforçados e pontos que
merecem treinamentos, a fim de que a motivação declarada seja estimulada. Em
termos gerais, as ações educativas principais que os depoentes explanaram que
se sentiam aptos a realizar foram Palestras e Orientações durante as consultas
e visitas domiciliares:
"palestras, principalmente" (D1)
"palestras, gincanas, caminhadas" (D2)
"Orientações sobre a importância do pré-natal e aleitamento materno;
sobre higiene corporal e bucal; tratamento da água e manuseio de
alimentos; controle de hipertensão e diabetes, entre outros; DST,
sexualidade na adolescência, etc" (D3)
"ações de higiene dos programas ministeriais de governo" (D5)
O conjunto das entrevistas permitiu ainda encontrar quem tivesse aptidões para
abordar aspectos da vida cotidiana que são razão de preocupação para os
profissionais como a importância de se ter bons hábitos de vida, a importância
da higiene oral; a importância da amamentação no primeiro ano de vida e o
abandono de práticas nocivas de saúde. Esses temas são preconizados na
descrição das atividades dos profissionais e na própria descrição do PSF, como
já foi visto, o que ficou explícito no depoimento do sujeito 10, de onde foi
extraída a categoria e a sua descrição.
Nas suas falas os profissionais depoentes deixam mais clara a perspectiva do
enfoque preventivo. Porém, causou espanto o fato de que em suas declarações não
são sequer mencionadas as oficinas educativas propostas, inclusive nos manuais
do PSF, por Chiesa(15). Contudo, as observações feitas pelos profissionais são
pertinentes e servem para denotar a aptidão prática, dos mesmos, para executar
ações educativas, visto que as práticas de saúde não estão desvinculadas do
pensar e do fazer(8).
Não obstante, dentro ainda desta categoria surgiu a manifestação das
dificuldades dos profissionais, as quais abrangem desde a conquista de um lugar
próprio, passando pela carência de material ilustrativo, até abranger o
despreparo do profissional até a desinteresse da comunidade, dificuldades essas
que podem ser agrupadas em: a) local inadequado para a realização das
palestras; b) Resistência e baixo nível de escolaridade; c)Falta de materiais
educativos e didáticos.
Necessidades dos profissionais para realizar ações educativas
Da mesma forma como o estudo permitiu identificar tantas situações difíceis
para o exercício das ações educativas, a leitura exaustiva das entrevistas
permitiu visualizar de imediato quais as necessidades sentidas pelos
profissionais de saúde, aqui descritas com o sentido de que Educar para a saúde
exige organização, material, boas mensagens e debatedores na platéia.
Por fim, com base nas informações obtidas, foi possível elencar as seguintes
reivindicações, apresentadas pelo conjunto dos sujeitos, conforme as
especificidades das Unidades de Saúde da Família, as quais devem ser
encaminhadas aos gestores e ao secretário de saúde e a outras autoridades que
possuam o poder de discuti-las, com vistas a atendê-las, dentro do possível
permitindo aos profissionais colocar em prática todo quilo que levaram anos
para apreender e aprender:
"preciso de um local adequado; material suficiente e interesse da
comunidade, pois , sem vontade de aprender o meu trabalho se torna
inútil" (D5)
"necessitaria além de um local agradável, um pequeno lanche e
estímulos visuais como tv e vídeo que já temos no município (D6)
Maior carga horária para as ações preventivas" (D8)
"primeira modificação é conscientizar a comunidade da importância
deste trabalho; depois local específico para realizar as palestras;
material educativo; dinâmica que prenda a atenção da comunidade;
horário acessível para a população" (D2)
Como foi possível observar, existem solicitações que são básicas para que se
possa desempenhar ações educativas. Os gestores e os órgãos de apoio ao
trabalho do PSF precisam olhar para este problema com mais atenção, até porque,
como disseram vários depoentes, "educação é tudo"e, mais que isso,"é o trabalho
educativo que vai fazer as ações preventivas acontecerem". A experiência mostra
que falta tempo para essas atividades e espaço no volume de trabalho para
inserir ações educativas para além das palestras de sala de espera, capazes de
motivar a população e tornar o processo educativo num meio de promover
transformação social. Talvez seja o que reflete o Depoente 04:
"o que necessito é de uma política de saúde e educação séria".
4. CONCLUSÕES
Esta pesquisa revelou que a assistência à saúde prestada no município de São
Sebastião está mais fortemente centrada na atenção curativa e no atendimento às
queixas do paciente e que embora os profissionais de saúde (médicos,
enfermeiros e dentistas), tendo o conhecimento da importância das ações
educativas para a comunidade onde trabalham, encontram dificuldades para
desenvolver um processo educativo que possa lhes revelar a necessidade do saber
viver uma vida saudável, do conhecer a doença e sua prevenção. O conjunto dos
profissionais entrevistados assegura que entendem e aceitam que possuem este
compromisso, porém acreditam que os gestores não estão dando a devida
importância a esta parte do trabalho do PSF.
Neste sentindo percebemos como um compromisso de consciência do grupo
entrevistado o desenvolvimento de ações educativas, o que é referendado pelo
próprio Manual do PSF, quando diz que é dever social das equipes do PSF
promover palestras educativas que levem informações a comunidade no sentido de
ampliar informações da população em geral sobre as principais doenças,(9)
enfatizando inúmeras recomendações sobre comportamentos "certos" ou "errados"
relacionados à vivência das doenças e à sua prevenção
No tocante às realizações das palestras, os profissionais queixaram-se da falta
de espaço, material e incentivos para os participantes, mas, não verbalizaram
suas investidas em cobrar da SMS os materiais necessários, levando em
consideração que no município já existem alguns dos mais solicitados, como tv e
vídeo. Parece, pelas falas dos depoentes, que a distribuição dos recursos
didáticos pedagógicos não é igual para todas as unidades do PSF, uma vez que
alguns reconheceram a existência e adequação do material didático pedagógico
existente enquanto outros denunciaram a falta de tudo:
"falta tudo: cartazes, modelos dos dentes e de escovas; carros disponíveis;
horário existe, mas não existe transporte" (D10)
Esta questão é da maior relevância porque o índice de analfabetismo é altíssimo
no município e se faz preciso a apresentação de materiais ilustrativos que os
ajudem a atender as informações transmitidas pelo profissional durante a ação
educativa. Por outro lado, a forma de desenvolver essas atividades apareceram
com bastante variação, o que foi visto até com um pouco de surpresa, uma vez
que não se esperava encontrar profissionais tão motivados, considerando que o
volume de produção a alcançar nem sempre permite a realização de um
planejamento das ações educativas, do jeito que a comunidade merece e precisa.
Constatamos ainda, segundo o referencial teórico pesquisado, que suas falas se
remetem ao enfoque preventivo. Com relação as suas dificuldades para realização
das ações educativas, eram direcionadas à falta de material didático, espaço
físico inadequado e baixo nível educacional da população. Em resumo, isso
reflete o que foi detectado e que se constituiu numa categoria afirmativa de
que educar exige material, espaço, preparo e platéia.
Acredita-se que o PSF oferece uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento de
atividades dessa natureza. Almeida(9) recomenda a sistematização do componente
educação em saúde, pelas equipes de PSF, sugerindo a aplicação de uma
metodologia de educação popular, formando grupos de interesses comuns,
oportunizando discussões com a comunidade e promovendo a aproximação dos
profissionais com os movimentos sociais(10).
É possível, com segurança, transformar o pensamento de Almeida(9) e as
reivindicações apresentadas pelos sujeitos deste estudo nas sugestões mais
adequadas a este trabalho, uma vez que emanaram das dificuldades reais que
enfrentam e que podem ser atendidas se o conjunto dos responsáveis pela
implementação do PSF e do SUS como está descrito na Constituição Brasileira de
1988, atuarem como está escrito nas Leis e nas Normas Operacionais. Ou, melhor
dizendo, repetindo o depoente 04:
"preciso de uma política de saúde e educação séria".
Acredita-se que esse é o desejo de todos nós, profissionais, comunidade e
gestores. Precisamos disso em todos os sentidos, todos os dias, desde as
esferas mais simples até as mais complexas para que a população possa
experimentar um processo de transformação social.