Vivência de violência familiar: homens que violentam suas companheiras
PESQUISA
Vivência de violência familiar: homens que violentam suas companheiras
Experiencing familiar violence: men who commit violence against their mates
Vivencia de violência familiar: hombres que son violentos con sus compañeras
Nadirlene Pereira GomesI; Normélia Maria FreireII
IProfessora da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Mestre em
Enfermagem na área de Concentração Enfermagem na Atenção à Saúde da Mulher.
Endereço: Jardim Vera Cruz, quadra 05, lote 08, IAPI, Salvador, BA. CEP: 40
360-590. Fone: (71) 388-6456 / (74) 8101-6878. lene.gomes@uol.com.br
IIProfessora Adjunto da Universidade Federal da Bahia. Doutora em Enfermagem
pela UNIFESP. Orientadora da dissertação. Pesquisa do Grupo de Estudo Saúde da
Mulher - GEM. Coordenadora da linha de pesquisa "Mulher, Saúde e Violência".
normelia@lognet.com.br
1. INTRODUÇÃO
A violência conjugal é um fenômeno cada dia mais presente no cotidiano de
homens e mulheres, por isso tem se tornado uma preocupação de grupos de
mulheres (feministas) e, mais recentemente, de grupos masculinos, que tentam
compreender de que forma se constrói o fenômeno da violência entre homens e
mulheres.
Conforme Bustos(1), a mulher foi criada para fazer companhia ao homem, num
papel auxiliar e secundário. Assim, ao buscar a origem do homem e da mulher
segundo a bíblia, o autor se reporta ao mito de Lilith, primeira mulher a ser
criada por Deus, logo após o nascimento de Adão. Sicuteri apud Bustos(1) afirma
que "quando Adão queria ter relações sexuais na posição mais natural, quer
dizer, o homem por cima e a mulher por baixo, Lilith se queixava com
inquietude: Por que devo estar sempre por baixo de ti? Por que devo abrir-me
debaixo de teu corpo? Por que devo ser dominada por ti? Se eu fui criada do
mesmo pó, então só tua igual. Se sou tua igual, não te devo obediência(1).
Neste contexto, a mulher quebra a ordem sagrada, cometendo o pior dos pecados,
haja vista ela questiona a ordem natural. Assim, a história traz Adão como
vítima de Lilith, demônio, expulso do paraíso e condenada a torturas. Contudo,
a segunda mulher constituída, por sua vez, pela costela de Adão, também encarna
a revolução. Isto ocorre quando Eva desobedece, já não a seu marido, mas ao
próprio Criador. No entanto, assim como Lilith, Eva também vai ser castigada:
perde o paraíso; conhece a dor e é condenada a morte.
A partir destas desobediências, se estabelece o domínio da mulher pelo homem.
Estes mitos, entretanto, são cristalizados e interferem na construção das
identidades feminina e masculina.
Durante todas as fases de nosso desenvolvimento, sofremos influências de
instituições como a família, a escola e a igreja. Elas transmitem normas e
valores culturais, ensinando meninos e meninas a diferenciarem o que é próprio
do sexo feminino daquilo que é específico do masculino, e assim reconhecer os
papéis de cada sexo(2,3).
Desta forma, desde cedo aprendemos a realizar atos, assumir condutas, exercer
ações, a nos comportarmos de forma apropriada, enfim, a representar os papéis
atribuídos aos gêneros, o que influenciará na construção da identidade de
gênero.
Para Gebara(4), essa construção cultural de gênero determina as diferenças
entre os sexos, e a partir destas legitima tanto a inferioridade feminina
quanto à dominação e hierarquia sexual e social do homem. Neste sentido, a
desigualdade permite que relações violentas entre homens e mulheres sejam
consideradas naturais.
Neste sentido, as mulheres se ajustam aos papéis que a feminilidade determina,
e tais papéis têm a ver com passividade, subordinação, sensibilidade,
obediência, comportamentos que a sociedade espera que as mulheres tenham. Nada
mais natural, portanto, para a sociedade, que a mulher lave, passe, cozinhe,
cuide do marido e dos filhos, ocupações que se limitam ao âmbito doméstico. Por
outro lado, espera-se que o homem, como chefe de família, seja o provedor do
lar, o viril, o corajoso, o trabalhador, o competente, mas também aquele que
não pode demonstrar suas fraquezas, dúvidas e emoção(2-5), características que
se aprendeu a reconhecer como pertencendo a identidade masculina.
Durante a socialização, antes de aprender o que devem ser, os meninos aprendem
o que não podem ser, ou seja, não podem ser feminino. Assim, ele só pode
existir opondo-se a sua mãe, à sua feminilidade, à sua condição de bebê
passivo... para afirmar uma identidade masculina, deve convencer-se e convencer
os outros de que não é uma mulher, não é um bebê e não é homossexual(6).
Para Badinter(6), a masculinidade, por ser socialmente ensinada, poderá ser
desconstruída em benefício das mulheres e dos homens, e reconstruída, ancorada
em modelos de papéis sociais voltados para igualdade de gênero, sem que haja
uma relação de dominação entre masculino e feminino.
No entanto, para se desconstruir o modelo de masculinidade, necessário se faz
compreender os elementos presentes na construção da identidade dos homens que
violentam suas companheiras.
2. REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO
Em virtude da necessidade de compreender os elementos presentes na construção
da identidade do homem que violenta sua companheira, adotamos como referencial
teórico a Teoria das Representações Sociais e como referencial metodológico a
Análise de Conteúdo.
A Teoria das Representações Sociais amplia o modo com que o senso comum conhece
uma determinada realidade, permitindo que esta possa ter uma nova
representação, uma vez que "o conhecimento estudado via representações sociais
é sempre um conhecimento prático; é sempre uma forma comprometida e/ou
negociada de interpretar a realidade"(7).
Para aprofundar na complexidade do objetivo, utilizou-se o método de estudo
qualitativo, haja vista que esta metodologia permite uma abordagem dos
problemas humanos e sociais e a compreensão da ação humana, e não apenas a
descrição dos comportamentos(8).
O estudo foi realizado na comunidade do Calafate, localizada no bairro de San
Martin, na cidade de Salvador-BA, com o apoio do Coletivo de Mulheres do
Calafate (CMC), entidade sem fins lucrativos, criada em 1992, que surgiu devido
à alta incidência de violência doméstica na comunidade.
Os sujeitos foram constituídos por 07 homens com história de violência
conjugal. A este respeito, Minayo(9) refere que "uma amostra ideal é aquela
capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões". Assim, a amostra
ideal neste estudo foi identificada no momento em que as informações fornecidas
pelos entrevistados se repetiam, resultando num esgotamento do conteúdo.
Como técnica de coleta de dados, utilizou-se a entrevista, por ser a técnica de
interrogação que apresenta maior flexibilidade(10). Esta era acompanhada por um
roteiro semi-estruturado contendo a seguinte questão norteadora: Conte-me sobre
sua relação familiar.
Os sujeitos se caracterizam por homens católicos, na faixa etária entre 20 e 46
anos. Quanto à escolaridade, 03 possuíam o 1º grau incompleto e 04, o 2º grau
incompleto. O tempo de convivência conjugal foi entre 03 e 10 anos, resultando
no máximo em 03 filhos.
Para o desenvolvimento destas pesquisas foi levada em consideração a Resolução
n.º196/96 do Conselho Nacional de Saúde, a qual norteia a ética na pesquisa com
seres humanos(11).
Primeiramente, foi explicado aos sujeitos o significado da pesquisa, dando-lhes
em seguida a opção de participar ou não da entrevista. Também foram garantidos
o sigilo e o anonimato, sendo os mesmos identificados com nomes fictícios
referentes aos sete primeiros planetas (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter,
Saturno e Urano). Aqueles que se predispuseram a participar da pesquisa, foram
interrogados quanto ao uso do gravador nas entrevistas, sendo que nenhum se
opôs à gravação. A partir da exposição de todos estes princípios éticos, os
sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
Como técnica de análise, utilizamos a análise de conteúdo, dentre elas,
elegemos a análise temática, uma vez que esta forma de investigação permite
explicitar elementos, não visíveis, constituídos por símbolos, representações e
comportamentos, somente alcançados pela subjetividade, expressa na ordem verbal
(12).
Conforme as autoras acima referidas, a análise temática permite, através de
frases ou etapas, organizar os dados do conteúdo, buscando o conhecimento do
que está por trás das palavras. Para Bardin(13), estes dados devem ser
claramente definidos para que não se dê a uma mesma categoria, significados
diferentes. Assim, identificamos para este estudo o tema Relação Familiar e
como categorias: Relação com os pais e Relação entre os pais.
A interpretação dos dados foi baseada nas leituras referentes às temáticas
gênero, identidade masculina, violência conjugal e Teoria das Representações
Sociais, a qual, por sua vez, permitiu, a partir do senso comum dos
entrevistados, compreender elementos que influenciam a construção da identidade
masculina.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A relação familiar está permeada por mitos, que foram introjetados na infância
através do aprendizado dos papéis sociais. Segundo Reis(14), a criança aprende
desde cedo que o papel de filho é o de obediência aos pais, tida como sinônimo
de amor aos pais, reproduzindo, assim, a representação de que amar é obedecer;
é se submeter. Para o autor, a família, na função ideológica de fixar os papéis
e as funções de cada um, ao ser apresentada como natural e necessária, reproduz
regras e mitos familiares, muitas vezes explicados por si mesmos, não
contestados e sem jamais mencionar suas verdadeiras determinações.
Durante as entrevistas, os homens representam o papel de filhos na relação com
os pais, bem como os sentimentos que a sociedade determina como próprios de um
filho com relação aos pais. Assim, mesmo tendo vivenciado a violência familiar,
os entrevistados relatam:
... meu pai já chegou a dar uma facada na minha mãe no braço... Eu e
minhas irmãs assistimos a tudo isto... Minha relação com meu pai não
era boa porque eu sofri muito, apanhava muito. Todas as queixas que
os vizinhos faziam, eu apanhava... minha vontade era de morar com a
minha mãe... não é desfazendo dele, ele é meu pai e eu gosto dele, o
que eu puder ajudar ele, eu sempre vou ajudar, mas pra outras partes,
eu quero mesmo é estar com minha mãe. (Mercúrio)
Na concepção de Reis(14), a obediência aos pais significa a aceitação sem
questionamento de normas que já estavam definidas quando nascemos, de modo que
a possibilidade de rompimento destas normas é sempre ameaçadora. Desta forma,
os filhos aprendem que amar os pais é seu papel e, mesmo tendo sido violentados
no processo educativo, eles reprimem seus sentimentos negativos, como o ódio,
por exemplo. Esta concepção foi produzida historicamente e, portanto, não é
imutável nem natural, podendo ser transformada, haja vista que enquanto o ódio
for mantido inconsciente o individuo não poderá se libertar dele nem do
sentimento de culpa por ele gerado. No entanto, os filhos, no intuito de obter
o amor paterno, não expressam seus sentimentos e idéias em relação aos pais,
acabando por intensificar o controle e a dominação por parte destes últimos.
Aos homens, cabe também o papel de protetor da mãe, uma vez que esta, por ser
mulher e, portanto, representada como frágil e indefesa, necessita de uma
proteção masculina. Seguem depoimentos que ilustram bem isso:
... aí, sempre deixava de fazer as coisas pra evitar que ele brigasse
comigo ou com minha mãe, eu evitava muito as coisas, evitava muitas
coisas até ele sair do lugar, porque eu tinha medo dele.(Júpiter)
Em seus discursos, os homens trazem diferenças claras nas relações com pai e
mãe, como nesta fala:
"... já minha mãe, se a gente parasse pra conversar com ela, ela
parava pra ouvir o nosso lado também... Eu dizia não, se eu chamar
minha mãe e disser, oi, tá se passando isso, isso e isso, ela vai
deixar eu me explicar; já meu pai não"(Mercúrio).
Em seus discursos, os homens trazem um vínculo criado com o pai, de maneira
distanciada, uma vez que não há espaço para o diálogo na relação. Conforme
Corneau(15), quando o carinho, a proteção e o amor esperados não se fazem
presentes, o pai idealizado se dilui na banalidade de um contato frio,
superficial e sem compromisso afetivo. Seguem alguns depoimentos:
... eu não tinha muito diálogo com meu pai, nem ele falava comigo.
Dificilmente a gente parava para conversar, ele nunca tinha tempo
para mim... (Mercúrio)
... a gente não tinha muito relacionamento com ele, de conversar,
botar no colo, brincar, ele não fazia isso... Ele sempre foi distante
de mim. (Júpiter)
A partir dos discursos acima podemos dizer que a relação dos entrevistados com
seus pais ou com figuras paternas foi apresentada como tendo pouco ou nenhum
envolvimento afetivo. Contudo, Ramires(16) afirma que a única função da criação
dos filhos da qual o pai está excluído é a da gestação e da amamentação, uma
vez que eles são psicologicamente capazes de participar e interagir nos
cuidados com seus filhos, de maneira ativa, tocando-os e acalentando-os.
Além de estabelecer com o filho uma relação sem diálogo e respeito, os pais o
privam de lazer:
... quando eu era criança, eu não saía muito com meu pai... ele não
gostava de sair comigo não... Ele não tinha tempo para mim como
muitos pais têm: dar um passeio, ah! a gente vai sair; a gente vai
numa praia; amanhã, a gente pode ir em um shopping; dá um passeio;
pegar um cinema. Meu pai nunca fez isso comigo. (Mercúrio)
... ele não queria eu na rua, não queria que eu tivesse diversão que
toda criança tem: brincar de arraia, jogar gude, essas coisas que
criança tem que fazer, né? (Júpiter)
Ferrari(17)considera que a infância é o momento único e singular para o
desenvolvimento das crianças. No entanto, podemos observar, a partir dos
relatos acima, que os pais dos entrevistados não percebem a singularidade da
infância para seus filhos e estes, por sua vez, influenciam na reprodução de
tal ensinamento.
Conforme o autor, o desenvolvimento da identidade destes homens está ancorado
em uma etapa anterior de sua vida, levando-os a agir transferencialmente nas
inter-relações. Desta forma, não se desenvolve um processo verdadeiro de
relacionamento entre pai e filho, construindo uma relação sujeito-objeto, uma
vez que estes homens não respeitam nem as vontades e nem seus filhos,
enxergando-os como objeto de seus desejos.
O que é mais grave é que, além de não participar do lazer dos filhos e não
valorizar as brincadeiras infantis enquanto instrumento do desenvolvimento das
crianças, os pais acreditam ser o trabalho infantil indispensável na formação
da identidade masculina. É assim que os homens aprendem e transformam em
natural o trabalho infantil, julgando-o inerente à masculinidade.
... a maioria da minha infância eu passei mais foi trabalhando:
fazendo barraco de taipa, carregando madeira... Eu ajudava ele nestes
trabalhos... Eu só fazia mesmo ajudar ele, era ele quem ganhava o
dinheiro...(Mercúrio)
... eu trabalhei na infância, desde os 7 anos que meu pai me levava
pra trabalhar, e me ensinava a bater um prego, a fazer uma massa, e
outras coisas mais, mas ele não me deixou sair do estudo não, eu
estudava e à tarde eu trabalhava com ele... na época eu não ganhava
nada, só ajudava meu pai, então naquele tempo eu não pensava nada, só
pensava que quando meu pai chegasse do trabalho, aí eu chegava do
colégio, tirava a farda e ia mais ele, aí só chegava umas 5 horas, 6
horas em casa. Eu achava que era minha obrigação ajudar ele. (Terra)
A educação recebida pelo filho é repressora, haja vista que os seus pais os
educavam através de punições como surras, por exemplo, não permitindo que
houvesse diálogo. Desta forma, quando questionados sobre as relações com seus
pais, os homens dizem:
.... eu tinha uns dez anos, eu ainda me lembro bem disso e tenho
muita raiva dele por isso.. porque quando ele bate, ele bate
espancando, é de chute, é de bicuda, é de murro.. (Vênus)
... Aí, qualquer coisa, ele ia logo para a ignorância, bater, não
procurava conversar, entendeu? ele me bateu de fio, eu fiquei todo
marcado de fio, eu tinha uns onze anos... hoje eu tenho trinta. Eu
senti muito ódio dele, desejava que ele morresse. No dia, eu chorei
muito e minha mãe cuidou de mim. (Júpiter)
Ferrari(17) diz que o papel dos pais, na família, é o de ensinar, enquanto que
o dos filhos é aprender. No entanto, o conhecimento é transmitido de forma
autoritária, haja vista que aprender significa aceitar os modelos de educação
definidos pelos pais sem, contudo, questioná-los.
Azevedo e Guerra(18) comentam que todo e qualquer ato ou omissão praticado por
pais, parentes ou responsáveis contra crianças e adolescentes, que os violentem
física, sexual e/ou psicologicamente implica na coisificação da infância,
violando seus direitos a serem tratados como sujeitos.
Desde a mais tênue infância, a violência tem estado presente na vida dos
entrevistados, influenciando a construção da identidade masculina. No entanto,
a violência entre os seus pais também se fez presente no dia-a-dia deles:
... meu pai brigava muito com minha mãe... A relação entre meus pais
não era boa não... Era briga todo dia... Briga, discussão, um queria
furar o outro... meu pai já chegou a dar uma facada na minha mãe no
braço... Eu e minhas irmãs assistimos a tudo isto... (Mercúrio)
...ele (padrasto) batia em minha mãe... ele falava alguma coisa e
quando ela respondia, ele já queria engrossar. Aí, já era briga,
briga de murro, de faca. Uma vez ele bateu nela... ele deu um murro
na cara de minha mãe e ela caiu, caiu na cama, aí eu fui entrando bem
na hora e vi. Quando eu entrei que eu vi ela caída lá, eu peguei uma
faca e meti no braço dele e saí correndo. (Vênus)
Contudo, ao presenciar situações de violência familiar durante a infância e a
adolescência, os homens incorporam o modelo de homem presente no seu cotidiano,
a partir do qual construíram sua identidade.
A este respeito, Ramires(16)coloca que os homens são simbolica-mente
importantes para as crianças enquanto modelos de poder e autoridade.Quer dizer,
uma infância carregada de tensão e violência, em que a prática e o uso de poder
sobre o outro é uma constante, favorecerá o desenvolvimento de formas de
contato com o mundo compatíveis com essas vivências. Assim, ao vivenciar a
violência na relação familiar, o homem a reproduz em outras formas de relações
sociais, inclusive nas relações com suas companheiras.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na análise, compreendemos, a partir deste estudo, que a identidade de
homens (e mulheres) é construída no espaço familiar partindo do aprendizado dos
papéis e atributos específicos de homens e mulheres.
No que se refere a sua relação com seus pais, o estudo mostrou que os
entrevistados têm boa relação afetivamente com suas mães, sendo que o mesmo não
se faz presente com relação ao pai. Percebemos que os homens tiveram uma
infância marcada por situações de violência: presenciaram a violência nos seus
lares entre seus pais; sofreram violência por parte de pais ou figuras
paternas; vieram de lares nos quais prevaleciam a falta de diálogo, o
autoritarismo paterno e a submissão materna.
Esta vivência de violência familiar permitiu compreender que a identidade
destes homens é construída neste contexto, haja vista que, quando se relacionam
com suas companheiras, eles reproduzem as mesmas histórias de violência.
Enfim, o estudo nos permitiu identificar elementos que interferem na construção
da identidade de homens que violentam suas companheiras e, desta forma,
perceber que o fenômeno da violência conjugal não pode ser visto, simplesmente,
como homem-agressor e mulher-vítima, mas sim como um problema que tem origem na
construção da identidade de homens cujo relacionamento familiar foi marcado
pela ausência de diálogo e agressões físicas, o que caracteriza relações de
violência.
Acredito que este estudo traz uma contribuição no sentido de permitir uma
melhor compreensão do fenômeno da violência conjugal e, a partir daí, colaborar
para o desenvolvimento de outros projetos de pesquisa e de projetos de
intervenção que permitam homens e mulheres compreender que o fenômeno da
violência não é inerente ao homem, mas sim construído socialmente e percebido,
de forma natural, como elemento constituinte da identidade masculina.