O confronto entre enfermagem e a realidade do macro ao micro universo acadêmico
PESQUISA
O confronto entre enfermagem e a realidade do macro ao micro universo acadêmico
The confrontation between nursing and reality of the macro and micro academic
universe
La confrontación entre enfermería y la realidad del macro al micro universo
académico
Margarethe Maria Santiago RêgoI; Isaura Setenta PortoII
IDoutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem
Médico-Cirúrgica EEAN/UFRJ. santire@ajato.com.br
IIDoutora Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem Médico-
Cirúrgica EEAN/UFRJ. isauraporto@superig.com.br
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, é possível constatar a predominância de uma realidade institucional
e mundial, demarcada por estratégias e diretrizes político-econômico-sociais
estabelecidas a partir de um modelo de sistema capitalista de deliberações
comerciais que tendem a ignorar o referencial humano e a dimensão social -
educação e saúde, como prioridades para a melhoria de vida das pessoas.
As instituições, em sua maioria, tendem a conservar normas, regulamentos,
valores ou ideologias baseadas na valorização da política financeira e
comercial, cuja primazia cultural do mundo materialista dominante é fundamental
para a reprodução do capitalismo mundial. Sobre esta questão, Denis(1) afirma
que, os efeitos desastrosos que emergem das teorias materialistas concitam os
seres humanos à valorização excessiva do dinheiro, do sucesso, do despotismo,
da vaidade, do niilismo, da intolerância e outros elementos que convergem para
o favorecimento das desigualdades humanas e contradições da vida. Além disso,
afirma que o materialismo, enquanto doutrina negativa, é constituída de homens
de escol intelectual que diante de uma massa humana, de um povo sem crenças,
sem princípios fixos, se aproveitam destas condições para lhes explorarem as
paixões e especularem sobre suas ambições. O autor sustenta ainda que, esses
miasmas da humanidade, em suas conseqüências extremas, levam fatalmente a
história humana "ao vácuo, ao nada social"(1).
Neste contexto, existe um visível afastamento entre o atendimento as
necessidades das pessoas e as dimensões políticas, sociais e culturais
procedentes do contexto macro-institucional. As estratégias e diretrizes
gestadas por uma dinâmica do capitalismo internacional, estimulam relações
institucionais pautadas numa corrente de forças elitizantes, dominadoras,
preconceituosas e discriminatórias. Mas, apesar da evidência de processos
progressivos de democratização da sociedade, esse modelo capitalista/
materialista dominante que se apresenta do macro ao micro universo acadêmico, é
um dos grandes desafios atuais postos ao processo de renovação de novos valores
na enfermagem, inclusive os valores sociais, isto é, "padrões abstratos ou
variáveis empíricas da vida social, que são considerados importantes e/ou
desejáveis"(2).
A partir desses lineamentos o estudo apresenta como objetivos abordar o
confronto entre o devir docente e a realidade do macro ao micro universo
acadêmico bem como, discutir as dimensões éticas, estéticas, políticas e
sociais vivenciadas pelos docentes de enfermagem de um departamento de ensino
universitário frente ao fenômeno da morte precoce de dois profissionais de
enfermagem causada por crime.
2. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
Adotou-se referencial teórico fundamentado nas concepções de Léon Denis(1) e
Pierre Weil(3,4). Consideramos a "análise temática"(5) enquanto a análise dos
significados dos conteúdos das mensagens, como o instrumento metodológico mais
adequado para o estudo.
O campo da análise do estudo foi predominantemente o Departamento de Enfermagem
Médico-Cirúrgica (DEMC) da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) considerando que, ele é o cenário
onde regularmente reúnem-se os participantes desta pesquisa. Entretanto,
eventualmente, os espaços externos ao DEMC (EEAN/UFRJ), foram incorporados à
investigação, porque a vida institucional extrapola o espaço do DEMC.
A EEAN, é uma instituição de ensino de enfermagem, constituída de programas de
graduação e de pós-graduação "lato e stricto sensu". As disciplinas e programas
de ensino estão alocadas em cinco departamentos quais sejam: Departamento de
Enfermagem em Saúde Pública (DESP), Departamento de Enfermagem Materno-Infantil
(DEMI), Departamento de Enfermagem Fundamental (DEF), Departamento de
Metodologia em Enfermagem (DME) e Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica
(DEMC).
Os participantes do estudo foram vinte docentes do DEMC/EEAN/UFRJ. A técnica de
observação participante e a "entrevista sensível criadora"(6) foram às
modalidades de pesquisa utilizadas para coleta de dados.
Para a fundamentação da dimensão ética da pesquisa bem como o processo de
obtenção do consentimento livre e esclarecido dos participantes foram
utilizadas as recomendações contidas na Portaria nº 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde denominada "Diretrizes e Normas
Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos"(7). Nesse sentido, foram
atendidos particularmente, os requisitos da eticidade, com a elaboração de dois
documentos. O primeiro intitulado "Consentimento Livre e Esclarecido", destacou
informações pertinentes à temática, bem como a anuência do sujeito da pesquisa
autorizando sua participação voluntária na pesquisa. O segundo documento,
"Termo de Consentimento da Versão" trata da autorização da entrevista concedida
e a opção do docente em utilizar o nome real ou um pseudônimo. Cabe destacar
que, dos vinte e quatro docentes participantes do estudo, vinte e três
autorizaram a utilização do nome e uma docente solicitou identificação através
da sigla IEC procedente do seu nome real.
3. ATRAVESSAMENTO DO CONTEXTO MACRO-POLÍTICO-ECONÔMICO-SOCIAL NO ESPAÇO MICRO-
INSTITUCIONAL
Ao enunciar sobre o processo de vida pessoal, profissional e institucional que
se processa como resultado de um universo social globalizado, evidenciamos
profissionais que demonstram atitudes de indiferença para movimentos sociais e
políticos da Enfermagem. Por outro lado, conhecemos pessoas que se expressam de
forma crítica construtiva e rejeitam ideologias sociais e políticas de um mundo
materialista metodicamente excludente e hegemônico. Por conta disso, lutam no
sentido de viabilizar a construção de caminhos, que possibilitam a edificação
de uma sociedade cada vez mais justa e solidária.
Neste sentido, cabe destacar um momento singular ocorrido no dia vinte de
setembro de 1999. Trata-se do assassinato de duas lideranças da Enfermagem
Brasileira que muito lutaram politicamente e socialmente por processos de
melhorias contínuas no modo de pensar, conviver e viver enfermagem: Marcos
Otávio Valadão Presidente da Associação Brasileira de Enfermagem/Seção Rio de
Janeiro, e Edma Rodrigues Valadão Presidente do Sindicato dos Enfermeiros do
Rio de Janeiro e Diretora da Federação Nacional dos Enfermeiros.
Foi possível constatar nesse acontecimento um real atravessamento do contexto
macro-político-econômico-social no espaço micro-institucional. O fato em si
influenciou docentes de enfermagem para determinadas reflexões e ações.
Diversos profissionais de enfermagem promoveram interações efetivas no sentido
de mobilizar sindicatos, associações, movimentos sociais, envio de e-mails e
fax para o circuito acadêmico, Secretaria Estadual de Segurança Pública,
Governo do Estado do Rio de Janeiro, Ministério da Justiça, exigindo
esclarecimentos, apuração, detenção e julgamento dos responsáveis.
Esse acontecimento reuniu docentes de enfermagem para um movimento de
solidariedade e homenagens a estes respeitados profissionais da enfermagem no
Boletim Informativo do DEMC(8). Os corpos dos dois companheiros mortos foram
velados na EEAN/UFRJ, no dia 21 de setembro de 1999 com a presença de docentes,
alunos, autoridades políticas do Estado do Rio de Janeiro, dentre outros.
Fatos dessa natureza possibilitam reflexões sobre os valores universais
sobretudo os éticos e estéticos nos espaços da Enfermagem Brasileira. Nesse
sentido, a Professora Deyse expressou, a época, o que sentiu e disse assim:
Nessa situação em que acabamos de perder dois colegas enfermeiros, eu
fiquei muito atordoada. [...]. Passei a conhecer o Marcos Valadão, a
partir do momento que começamos a fazer algumas disciplinas na
Escola. Ele no mestrado e eu no doutorado. Eu sabia que ele estava
também em um período de preparação para qualificação de sua
dissertação de mestrado. [...] A minha qualificação, que estava
marcada para o dia 21, foi até adiada por motivo dos corpos terem
sido velados na Escola, nesse dia. Quando a Paulinha, do nosso
Departamento, me ligou confirmando a notícia, foi um choque. Chorei
muito principalmente pelas circunstâncias. A perda dos dois foi muito
grande. Não tinha razão. Eu nunca vi uma pessoa mais integra, mais
honesta, mais aberta e clara do que o Marcos. A Edma, eu não
conhecia, mais eu acredito que para estar casada com ele, é porque
tem as mesmas qualidades. Então, eu não vejo motivo e não consigo
entender. [...] A primeira coisa que eu pensei foi que, atualmente é
muito difícil você querer fazer as coisas certas, esclarecer os
fatos, transformar. É como se fosse assim, um domínio do mal. Quer
dizer, se você está pensando diferente daqueles que estão no poder
então, a forma de retirar você é a mais radical que existe. É tirando
a vida. Isso é inacreditável! E, por uns poucos minutos, eu até perdi
as esperanças. Eu pensei: ´aquele que entrar no poder com o
pensamento de melhorar, de transformar para melhor, não vai
conseguir. Vai ser eliminado, como o Marcos e a Edma foram. E, se eu
quero o bem das pessoas que eu gosto, então, não quero que eles
corram nenhum risco. Foi a primeira coisa que eu pensei. É uma perda
de esperança muito grande, das coisas que são certas. Mas, depois que
você se acalma, pensa e compreende. Então, volta atrás quanto a essa
falta de esperança. É preciso continuar. Mas aquele momento a gente
não esquece(Profª Deyse).
Ainda sobre esse acontecimento, o depoimento da Professora Paula, contribui
para uma reflexão e compreensão sobre a questão da morte precoce de seres
humanos causada por crime entrelaçando-os com outros referenciais,
principalmente o bem-mal, o triste-alegre, limpo-sujo, a humildade-poder.
Tratando-se das circunstâncias do acontecimento, significa perceber que existem
seres humanos que desconhecem o que é ser humano. Ela ressaltou o seguinte:
Só de conversar é possível perceber o bom caráter da pessoa, porque é
transparente. E o Marcos me passava isso, uma pessoa boa como se
mostrava ser. [...] Eu vim para a Escola e fiquei pensando sobre esse
acontecimento com pessoas tão próximas de todos nós. Isso me deixou
muito triste. Têm pessoas que falam assim: ´Ah! nossa profissão não é
valorizada. Além de ganhar pouco, [...] lida com dejetos humanos, com
suor e secreção. Tudo que é sujo, que é feio, que cheira mal, a gente
tem que lidar'. Então, as pessoas acham que isso é o pior da
profissão. Eu não acho. Eu penso que para ser enfermeiro, é preciso
gostar do que se faz. Tem que ser uma pessoa especial. Se não tiver
determinadas qualidades então nem adianta, porque não vai conseguir
ser profissional. Pode ser no papel ou no discurso, mas não vai ser
enfermeiro de verdade. Eu pensei: 'não é possível, uma pessoa que
tratava todo mundo tão bem, que estava lutando e procurando o bem e o
melhor para todos, morrer por causa disso. [...] Matar é uma coisa
inadmissível. A gente não pode nem imaginar uma coisa dessas, uma
pessoa pensar em fazer mal a outra assim dessa forma. Então, para
mim, isso é que é sujo, que é mal. E, eu fiquei pensando:Será que é
aquela história da luta de poder? Eu vejo isso perfeitamente. É o mal
dominando as pessoas. Será que essas pessoas acreditam em Deus?(Profª
Paula).
Na linha de pensamento que trata da luta de poder bem como da banalização de
princípios sociais básicos tais como liberdade e respeito à vida humana, o
depoimento do Professor Walcyr contribui para as nossas reflexões acerca das
lutas éticas e políticas de enfermagem:
Em certos momentos, as situações acontecem e se processam por conta
de uma série de relações, de caráter político econômico e ideológico
que apontam, quase que exclusivamente, para interesses de grupos
controladores das formas de poder.[...] Félix Guattari em um dado
momento de sua obra, nos faz a referência sobre as contradições das
subjetividades individuais dentro de uma subjetividade maior no
coletivo, onde as necessidades de cada pessoa, de cada cidadão, em
sua importância, se movimentam e relacionam com as necessidades de um
coletivo. E o que estamos vivendo? Uma marcante dissociação do que
seja o sentido de coletividade, para onde se utilizam artifícios vis
e maldosos para fazer valer objetivos particulares, [...]
representação tópica de uma lógica elitista, narcisista e excludente.
De fato, as divergências ideológicas se fazem presentes, veladas ou não, no
contexto atual. E o resultado desses dramas e tramas sociais podem ser radicais
no sentido da destruição abusiva ao direito de vida do outro. A realidade
mostra então, atitudes individuais que se movimentam através de todo tipo de
expediente inclusive aqueles demarcados por processos estacionários ou de
obliteração do desenvolvimento da profissão de Enfermagem. Para o Professor
Walcyr:
Tem pessoas que passa a se utilizar de todo tipo de artifício, para
fazer valer, acima de qualquer coisa, o seu projeto ideológico. Não
importando os limites do respeito humano e social, da solidariedade,
da ética da vida. E neste caminho, não dá para aceitar e/ou apreender
as questões éticas através das máscaras do oportunismo moralista. Até
porque, se configura como a mais plena demonstração de hipocrisia.
O problema da hipocrisia destacada pelo Professor Walcyr, também é motivo de
incômodo para a Professora Isabel. Durante uma defesa de dissertação de
mestrado na EEAN, na qual ela foi membro da banca examinadora, a professora
destacou essa questão que perpassa o momento atual da vida social. A temática
da dissertação abordava o compromisso e liberdade na enfermagem. Na sua fala,
ela ressaltou a pertinência do assunto para os dias atuais, considerando
principalmente as questões éticas e relações humanas comprometidas. Além disso,
fundamentou sua fala em um texto publicado no Jornal do Brasil intitulado
"Vitória da Hipocrisia"(9).
Na visão da professora Isabel a hipocrisia permeia a sociedade e os problemas
éticos que estão surgindo todos os dias no país são conseqüências da ausência
de atitudes e comportamentos verdadeiros. Prosseguindo destacou que felizmente
existem pessoas preocupadas com essa questão da hipocrisia na sociedade atual.
Ressaltou também a necessidade de buscar forças em algo divino, para transpor
os diferenciados enfrentamentos da vida.
Uma sociedade que não se movimenta em um processo dinâmico de direitos,
respeito, solidariedade e esperança, se reproduzindo como refém das relações de
poder hegemônico, da multiplicação das diferenças, das exclusões, caminha para
um futuro-presente bem sombrio. Tem-se de estar bem atento à dimensão desses
conflitos, contradições e conseqüências, pois muitas das vezes passam a criar
situações de selvageria, onde a sensatez e a solidariedade, são destroçadas em
função de um movimento predatório, sem o menor escrúpulo e respeitabilidade ao
outro e suas diferenças.
Muitas são as contradições do mundo que vivemos. Mas, o fato de vir-a-ser-
profissional de enfermagem requer qualidades técnicas e humanas que
possibilitem interações sociais caracterizadas por valores éticos, estéticos e
espirituais imprescindíveis para a construção de uma realidade de Enfermagem
mais justa e solidária. Esta qualidade "implica que os usuários de serviços
recebam pontualmente, eficientemente e seguramente (qualidade técnica) ajuda em
condições materiais e éticas adequadas (qualidade percebida)"(10).
A partir do aprimoramento das qualidades técnicas e humanas das pessoas, é
possível alcançar caminhos que levem ao fim da violência e do egoísmo, enquanto
males enraizados na atual sociedade. Assim, o esforço das pessoas para o auto-
aprimoramento é vital para renovar valores construtivos caracterizadores de
profissionais que sabem cuidar de si, do outro e sabem também aprender e
ensinar para a vida.
Nesta linha de pensamento, destaco uma mensagem encaminhada via e-mail pela
Professora Lys aos docentes do DEMC, inclusive para as pesquisadoras, no mês de
setembro de 2000. Esta mensagem tratava-se do posicionamento da Diretoria da
ABEn Nacional transcorrido um ano da morte dos companheiros Marcos e Edma.
Aquela Diretoria solicitava, a época, que esta mensagem fosse socializada entre
os profissionais de enfermagem para leitura, reflexão e divulgação de idéias,
qual seja: "a ABEn avançou para além da defesa da corporação ao reafirmar a
humanidade e solidariedade anônima e universal como preceitos estatutários
máximos para a entidade e para associadas e associados". Mais adiante a
mensagem da Diretoria da ABEn registra que:
Hoje dia 20 de setembro {2000}, completa um ano, do assassinato
brutal dos nossos queridos companheiros [...]. Até hoje os crimes
continuam sem solução. A Enfermagem Brasileira encontra-se enlutada,
porém continua lutando para que a justiça cumpra o seu papel, e
entregue para julgamento e punição, os culpados por mais essa
atrocidade contra os trabalhadores; para juntos exigirmos do poder
público seriedade e compromisso com os cidadãos brasileiros. A
apuração desses crimes é essencial para que acreditemos na justiça.
[...] Na mudança de seu estatuto, em 1994, a ABEN, entidade civil,
criada há 74 anos, assumiu como compromisso oficial, ético, político
e técnico propor e defender políticas e programas: que visem a
melhoria da qualidade de vida da população, [...] A ABEn explicita e
propõe [...] novos valores [...] de humanidade e solidariedade
universais reprimidos em um mundo onde imperam o discurso e a prática
do neoliberalismo e da globalização da economia e seus valores máximo
de individualidade, do consumismo, da flexibilização das relações
trabalhistas, da tecnificação e fragmentação transcontinental do
processo de trabalho para o aumento de produtividade. Estes valores
do neoliberalismo trouxeram ao mundo e ao Brasil, em particular,
perversas conseqüências: aumento de desemprego [...], aumento da
fome, da ignorância, [...] concentração de renda, miséria [...]. E
talvez pior que tudo isso, [...] a des-responsabilização dos poderes
executivos com seus mais primários deveres sociais: a garantia da
saúde, da educação, da segurança, da justiça para todos os cidadãos.
Na leitura desta foi possível destacar pontos importantes para reflexões acerca
das políticas públicas na saúde e educação, sobre questões sociais e políticas
do contexto da enfermagem, sobre a importância do desenvolvimento das
qualidades técnicas e humanas dos profissionais de enfermagem e também em
relação a ética de enfermagem, esta última entendida como princípios de uma
conduta profissional apropriada relativas aos direitos e deveres dos próprios
enfermeiros, seus pacientes e os companheiros profissionais, como também às
ações deles no cuidado de pacientes e em relações com suas famílias(11)
É fato que, a ética de enfermagem realmente precisa ser otimizada porque
implica em transmitir valores universais e essenciais para a existência digna
da profissão perante a sociedade. Claro que todo movimento e situações do macro
cenário da realidade brasileira reflete e tem conseqüências diretas para a
prática da enfermagem. Assim, destacamos ainda a mensagem da Diretoria da ABEN,
ano 2000 quando afirma que:
Impera hoje na nossa sociedade [...] um sentimento coletivo de
descrença, [...] e uma sensação de impotência frente às determinações
macro-econômicas, ao abuso de poder, a corrupção e a violência que
assola nosso país. [...]. A enfermagem brasileira precisa se
posicionar, [...] Lutar para sua transformação são responsabilidades
coletivas e corporativas. [...] Omitir-se é contribuir para manter o
atual caos. [As pessoas precisam] parar de fugir ou desanimar frente
aos problemas [...]. Esta sensação de desânimo frente à nossa
cidadania aviltada precisa ser combatida com as armas da ética social
da compaixão, do amor e da solidariedade.
Enfim, numa visão otimista em relação à possibilidade de uma realidade geradora
de processos progressivos na enfermagem, a Diretoria da ABEn assim conclui:
[...] É preciso que a Enfermagem brasileira demonstre a sua
perplexidade frente ao caos atual. Vamos organizar nos nossos locais
de trabalho momentos de reflexão e cobrança por justiça, por
cidadania, por equidade... Por vida, vida livre, vida digna e vida
feliz para todos os brasileiros. Não mais um triste sonho distante.
Mas, realidade. Por festa coletiva e universal. Fruto da justiça, da
igualdade e da fraternidade e da implicação da enfermagem brasileira.
Todos esses fatos e depoimentos descritos acerca da realidade político-
econômica-social, tornaram possível sistematizar um corpus teórico relevante à
cerca do confronto do devir docente com a realidade do macro ao micro universo
acadêmico. Deste modo, constituíram categorias presentes nesta passagem pelo
estudo temas como: educação, saúde, crise, morte e outros. As enunciações
obtidas através dos depoimentos nos fazem refletir sobre a concepção de Weil(3)
quando ele refere que, na conhecida história do mundo, a humanidade está
passando pela sua maior crise. Para o mesmo autor, o fato de o mundo estar
mergulhando em crise, leva as pessoas ao suicídio coletivo pela destruição da
vida no planeta. Nesta linha de pensamento destacamos Frei Betto(12) quando
refere que no mundo atual o "Armai-vos uns aos outros parece sobrepor-se ao
Amai-vos uns aos outros".
A morte é destruição abusiva da vida, quando ocorre uma manifestação violenta e
repentina de ruptura do equilíbrio social gerando tensão, conflito ou fase
difícil, ou grave na evolução das coisas. A morte não natural é um fenômeno de
crise, que rompe o equilíbrio da harmonia universal, perturbando e
desorganizando a vida de alguns ou de grupos integrados na sociedade.
A morte é a nossa única certeza de futuro. Não é, portanto, uma fatalidade, mas
um destino. Mas por ser a vida um milagre que insiste em prolongar-se e
reproduzir-se, a morte precoce de um ser humano causada por fome, crime ou
trauma é a mais grave ofensa à natureza e ao dom de Deus(11).
Esses movimentos alternativos e transversos do contexto macro e micro-
institucional são exatamente aqueles, com os quais cada ser humano de uma
sociedade depara-se durante a construção da sua própria história. Assim, esses
movimentos atravessam a instituição de ensino em enfermagem e o cenário
departamental alcançando os profissionais de enfermagem. Por conseguinte, cada
um vai manifestar pensamentos, sentimentos, atitudes e ações, de acordo com os
valores que desenvolveram nas suas diferenciadas experiências e vivências de
suas trajetórias histórico-existenciais reconhecendo-os como essenciais para
nortear os caminhos da vida pessoal/profissional. Neste sentido, Weil(4) diz
que, a crise pode ser uma oportunidade de crescer, de evoluir, para uma
civilização mais lúcida, consciente e em paz.
No decorrer deste estudo foi possível observar que existe, de fato, uma
preocupação dos docentes com a melhoria da qualidade de viver e ensinar
enfermagem. O que importa dizer que existe o processo de desenvolvimento das
qualidades humanas dos mesmos. Então, o que importa é compreender que, é
possível a mudança no sentido do melhor. Ninguém permanece indiferente a esse
movimento da vida. Os depoimentos e observações permitiram identificar as
dificuldades, obstáculos e desafios que são (ou não) superados pelos docentes.
Esses achados remetem a Demo(13) quando ele afirma que "não é a conquista de
uma mina de ouro que nos faria ricos, mas sobretudo a conquista de nossas
potencialidades próprias, de nossa capacidade de autodeterminação, do espaço de
criação. É o exercício da competência política".
Essa realidade circunstancial indicada nos dados, sinaliza para uma possível
sistematização de prismas emergentes do confronto do devir docente com a
realidade do macro ao micro universo acadêmico. O Quadro_1 revela uma síntese
desses prismas, que contextualizam o processo da prática político-pedagógica em
enfermagem dos docentes do DEMC/EEAN/UFRJ.
O modelo capitalista atualmente implantado estimula as instituições a buscar
estratégias para obter ganhos de lucro e produtividade, desconsiderando quase
que plenamente, as diretrizes dirigidas para a valorização das pessoas. Tal
situação constitui uma distorção, que pode ser destacada no pensamento de Denis
(1). Para ele, a rigor, na universidade, assim como nas instituições humanas em
geral, as pessoas deparam-se com obscuridades e contradições em tudo que diz
respeito ao processo de viver a vida. Para ele, os males de nossa época, devem
ser atribuídos a esses estados de coisas determinadas, especialmente pela
incoerência das idéias, os confrontos ideológicos, a desordem da consciência, a
anarquia moral e social. O desânimo, o medo e o pessimismo, elementos
manifestados por alguns docentes são, para Denis(1), doenças de sociedades
decadentes que ameaçam o futuro da sociedade.
Assim, para que a enfermagem seja capaz de mudar e direcionar para melhor, o
rumo da sua trajetória histórica, é imprescindível desenvolver primeiro, as
qualidades pessoais técnica e humana. Neste aspecto, assume importância a
participação política dos docentes de enfermagem, na medida em que qualquer
movimento de luta a favor do bem estar e justiça-social emerge primeiro, da
vontade, do esforço e da coragem de cada pessoa e do grupo.
Então, a valorização e o aperfeiçoamento das qualidades técnicas e humanas é um
processo dinâmico, revolucionário e um grande avanço para consolidar o
movimento transformador rumo às melhorias contínuas da qualidade de viver,
conviver e ensinar enfermagem. Este movimento tem implicações consubstanciais
para o docente de enfermagem considerando principalmente, o fato dele ser o
responsável pela socialização do conhecimento e pela possibilidade de criar
espaços de reflexão.
Denis(1) corrobora com esta posição quando refere que é necessário despertar o
ser humano adormecido por uma retórica funesta, a fim de sensibilizá-lo para as
potencialidades e qualidades que lhes são inerentes e a ter consciência de si
mesmo, para melhor encaminhar o seu próprio crescimento. Nesta linha de
pensamento, o processo educativo é essencial para conquistar a liberdade e o
discernimento da realidade Este processo, por sua vez, permite ao espírito
humano escapar das forças opressivas que operam no mundo atual.
De fato, a realidade macro-institucional vigente estimula as pessoas para o
personalismo, a competição destrutiva, o sectarismo, as contradições, as
astúcias, a destruição abusiva das singularidades, as táticas de dissimulação,
negação, engano, auto-engano, fuga, ilusão, poder. Estes prismas evidenciados
nas pessoas, porém incompatíveis com a essência de humanidade, relacionam-se
com os valores humanísticos universais opostos, que podem ser desenvolvidos e
transformados em processos progressivos da vida espiritual. Neste sentido, a
caminhada rumo ao aprimoramento pessoal acontece através de movimentos
alternativos da vida, nos quais coexistem qualidades e excessivas vicissitudes,
obstáculos e aberturas, fluxos e refluxos, triunfos e sofrimento, ascensões e
quedas.
O homem fisica e materialmente é como uma planta que se desenvolve
naturalmente, em virtude das leis universais, porém, intelectualmente e
moralmente ele se cria por si mesmo. É por uma longa série de esforços, de
trabalhos, de buscas que ele se torna no que é; é por suas relações com seus
semelhantes que ele cria a ordem social completa(13).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em 20 de setembro de 2004 completam cinco anos do assassinato brutal dos
respeitados profissionais de enfermagem Marcos Otávio Valadão e Edma Rodrigues
Valadão. Estes crimes continuam sem solução.
A partir desse contexto, é possível evidenciar que os processos demandados do
cenário macro-institucional, exercem influências político-econômico-sociais que
atravessam os muros do micro universo institucional e chega até as
singularidades dos grupos e de cada um dos profissionais de enfermagem. Desse
modo, constata-se que nenhuma ação profissional está dissociada dos processos
políticos, econômicos, culturais, sociais, naturais e outros do mundo do
trabalho.
Essa realidade macro institucional, de características econômicas, sociais e
culturais, opera no micro universo acadêmico reproduzindo os processos que
(des)organizam o coletivo acadêmico profissional. A realidade é aquilo que
construímos por meio do relacionamento mútuo. Porém, temos uma estrutura em
nossos espaços acadêmicos, que se apresenta conduzida pelo estabelecimento de
imposições e deliberações provenientes do contexto macro-institucional, do qual
discordamos, muitas vezes.
As transformações relacionadas a ela podem encontrar-se distanciadas dos
movimentos relativos a ações desenvolvidas para a promoção de um ambiente
institucional produtivo e saudável. Então, é uma contradição que a instituição
formada pelas próprias pessoas, não satisfaça a elas mesmas em suas
necessidades e expectativas. As pessoas encaminham os movimentos de
transformações da realidade, mas elas ainda vivem sob ansiedade, buscando de
alguma forma, alcançar algo novo. Neste contexto acontece que, o funcionamento
psico - organizacional em nosso micro universo, é atravessado por crise,
confrontos e conflitos na medida em que as interações sociais apresentam
continuidade de lutas presentes no macro universo social.
Desse modo, é imprescindível a defesa de valores éticos, estéticos e
espirituais no decorrer da trajetória histórica profissional da enfermagem bem
como a luta política efetiva de cada profissional contra valores materialistas
dominantes, que atualmente impede uma construção mais fortalecida de uma
sociedade mais justa e com melhor qualidade de vida. Então, cabe aos
profissionais de enfermagem a qualidade humana da coragem, da ousadia, da
determinação, no sentido de conseguirem vencer as próprias tendências
destrutivas, enfrentar os conflitos transformando-os em oportunidade de
crescimento, superar obstáculos próprios do contexto macro e micro
institucional, ultrapassar as barreiras das dificuldades pessoais e se
desenvolverem intelectualmente e moralmente de forma digna. Certamente vamos
estar aprendendo, ensinando para a vida e contribuindo para a otimização de
caminhos em busca da qualidade de viver mais com justiça social, mais
solidariedade e maior participação política nos espaços de Enfermagem.