Saber popular: sua existência no meio universitário
PESQUISA/RESEARCH/INVESTIGACIÓN
Saber popular: sua existência no meio universitário
Popular wisdom: its existence in the university environment
Saber popular: su existencia en el medio universitario
Maria Alves BarbosaI; Márcia Borges de MeloII; Raul Soares Silveira JúniorII;
Virginia Visconde BrasilI; Cleusa Alves MartinsI;Ana Lúcia Queiroz BezerraI
IEnfermeira. Professora Doutora da Faculdade de Enfermagem da Universidade
Federal de Goiás
IIAcadêmicos da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás
E-mail do autor: malves@ih.com.br
1 Introdução
As mudanças tecnológicas e os grandes avanços científicos não são suficientes
para eliminar, em diferentes grupos populacionais, a presença de crenças e
práticas populares vinculadas a tradições que são passadas entre gerações.
Essas práticas possuem um significado totalizante e são capazes de articular
experiências em dimensões de presente e passado (1). Este fato pode ser
explicado pela permissão que o sistema de crenças oferece ao homem de livrar-se
das incertezas que o cercam, e ao mesmo tempo ajustar-se dentro de um processo
evolutivo com a realidade cercada de mistérios e incógnitas(2) .
As práticas populares podem ser evidenciadas na área de saúde, pois os
indivíduos procuram formas de tratamento e prevenção de doenças diferentes
daquelas adotadas pela medicina convencional. Há pessoas que ao mesmo tempo ou
de forma alternada, procuram benzedeiras, usam chás, fazem simpatias, aderem
fervorosamente a uma religião e/ou seguem o tratamento prescrito pelo médico
(3).
A medicina popular, também conhecida como medicina do povo, pode ser
conceituada como todas as práticas relativas ao processo saúde-doença que
ocorrem independentemente do domínio da medicina institucionalizada. Essas
práticas de saúde conseguem sobreviver mesmo diante da sua rejeição pela
ciência e pela medicina oficial porque de certa forma respondem às necessidades
e expectativas da população. É importante ressaltar que se elas não oferecessem
alguma compensação, já teriam sido abandonadas e trocadas por outras formas de
tratamento. Apesar da interiorização da assistência, preconizada pela política
de saúde vigente no Brasil, as práticas populares ainda estão presentes e
muitas vezes constituem-se na única fonte de acesso que a população tem para a
cura de doenças(4).
Ainda que os recursos populares não tenham uma comprovação científica de sua
eficácia as repetidas experiências de seu uso dentre a população permitem
validar sua utilidade, pois, esse conjunto de saberes e práticas tem sua
estrutura pautada na experiência empírica, na vivência, na experimentação e na
avaliação do sucesso ou insucesso desses recursos(5).
As motivações que levam as pessoas a adotarem métodos não convencionais
relacionados à saúde são variadas e, de um modo geral, independem de aspectos
sociais, pois mesmo em centros urbanos adiantados persistem crenças, crendices,
tabus e preconceitos anacrônicos em indivíduos de todas as classes sociais e de
diferentes níveis de escolaridade(6).
Um dos fatores que explicam a origem das crenças e práticas populares é o da
experiência individual que ao longo do tempo e através da sociedade exprime uma
cultura, influenciando nas explicações dadas aos acontecimentos e na escolha de
decisões, provocando muitas vezes repercussões sociais, cuja intensidade é
proporcional à quantidade de pessoas que faz adesão a tais práticas.
Paralelo aos recursos populares com fins medicinais existem também as crendices
e mitos populares. Nas diversas áreas do conhecimento são desenvolvidas
pesquisas que buscam esclarecer a fundamentação de crendices e mitos populares
relacionados a assuntos que fazem parte do cotidiano, como sexualidade,
amamentação, entre outros(7).
A vida social é susceptível à opinião pública, a qual é influenciada pelas
crenças que são difundidas por meio da comunicação. Não se considera crença
como conhecimento, uma vez que esta necessita de fundamentos irracionais para o
seu princípio e manutenção. Estas se dividem crenças em coletivas e
individuais. As coletivas são mais estáveis, abrangendo inteiramente a
sociedade e são propagadas entre os indivíduos; as individuais são instáveis e
irregulares, podendo ser abandonadas e substituídas por outras de maior
veracidade(7).
A origem de certas crendices justifica-se muitas vezes pela magia e pelo modo
de ditar o comportamento, por exemplo, quando dizem que não se deve deixar o
sapato virado. Em lógica estão propondo que o sapato deve ficar arrumado para
conservar o lar em ordem. O mesmo pode ser empregado para a crença de que tomar
banho após as refeições faz mal, pois na verdade a intenção é ensinar que o
banho deve ser tomado antes das refeições. Logo, podemos perceber que as
crenças culminam em ações que podem inibir ou estimular comportamentos,
conforme as experiências vividas e/ou adquiridas. O ser humano tende a ser e a
viver de acordo com suas crenças(8).
Torna-se importante que nas consultas clínicas o profissional de saúde esteja
disposto a atender o paciente holisticamente, respeitando seus valores sócio-
culturais, que representam uma força positiva para o conforto e até mesmo para
recuperação do paciente(9).
Há indivíduos que não se modelam passivamente aos tratamentos prescritos por
serem marcados por uma cultura e por limitações materiais(10), fazendo-se
necessário que a assistência à população seja uma ação educativa e de trocas
que integrem o saber científico e as práticas populares de saúde.
O profissional de saúde precisa ser cauteloso para não agir de modo dominador e
inflexível frente às práticas populares que a sociedade utiliza (11). É
importante respeitar as crenças do paciente e mesmo sua escolha em preservar
junto ao tratamento prescrito, o uso de medicamentos populares. Além disso, ao
se considerar que saúde, não é apenas ausência de doença, e sim o bem-estar
físico, psíquico e social, os fatores religiosos, culturais e econômicos também
devem ser respeitados.
2 Objetivos
a) Investigar se há presença de crendices e mitos, entre professores e
estudantes universitários da área de saúde.
b) Correlacionar adoção de crendices e mitos populares com o nível de
conhecimento dos indivíduos.
3 Metodologia
Estudo de natureza descritivo-analítica, com abordagem qualitativa,
desenvolvido na Universidade Federal de Goiás, no período de agosto de 2002 a
julho de 2003.
A população constituiu-se de professores e estudantes da área de saúde.
Trabalhou-se com uma amostra de 45 indivíduos, sendo 14 professores e 31
acadêmicos dos cursos de enfermagem, farmácia, medicina, nutrição e
odontologia. Tratando-se de pesquisa qualitativa, o tamanho da amostra foi
definido pela saturação das respostas durante a coleta de dados. A inclusão dos
participantes no estudo aconteceu de forma aleatória, conforme suas
disponibilidades, nas dependências das unidades acadêmicas.
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista semi-
estruturada, que possibilitou investigar a existência de mitos, crenças e
crendices entre os participantes, bem como suas experiências pessoais com estas
práticas e também conhecer suas influências na vida e nos relacionamentos
sociais dos participantes. As respostas foram gravadas e posteriormente
transcritas.
Entre os aspectos éticos observados no estudo, incluem-se a aprovação do
projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa Médica Humana e Animal do Hospital das
Clínicas da Universidade Federal de Goiás, assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido e permissão dos participantes para a gravação das
entrevistas.
As respostas foram submetidas à técnica de análise de conteúdo preconizada por
Bardin(12).
4 Resultados e discussão
No grupo pesquisado houve leve predominância do sexo masculino em relação ao
sexo feminino, uma vez que o primeiro representou 56,00% e o segundo 44,00% da
amostra. A faixa etária do grupo participante variou entre 17 e 50 anos, sendo
predominante aquela situada entre 17 e 29 anos, até porque a maioria dos
entrevistados era composta por estudantes.
Quanto a religião, a maioria era de católicos (60,00%), seguidos do mesmo
percentual de evangélicos e aqueles que não possuem religião (17,77%) e 4,46%
eram espíritas.
4.1 As atitudes pessoais relacionadas a crenças
Desde os primórdios da humanidade, o homem busca a evolução da vida, procurando
o alívio para os seus males e adotando práticas de acordo com suas crenças.
Muitas destas práticas estão pautadas na experiência empírica, que funcionam de
acordo com modelos explicativos que fogem da lógica científica da medicina
convencional(13). A alusão que as pessoas fazem quanto à origem das suas
próprias crenças refere-se a boas ou más experiências.
[...] quando eu venho do cemitério, eu tenho que passar sal grosso na
mão. Quando eu vinha do enterro, a minha cabeça ficava rachando [...]
aquela pressão. Eu achava que tinha um encosto junto de mim, e que
assim aquilo iria embora, entendeu? Parecia que eu trazia alguém
junto de mim, e eu comecei a acreditar porque acontecia mesmo".
(Entrevistado 08)
Há que se considerar o estado subjetivo de quem crê, de quem toma como sagrado,
sem que haja necessidade de uma comprovação científica. O poder que as crenças
exercem, não importando se isoladas ou submetidas à lógica, influencia diversas
circunstâncias, as tomadas de decisões, a idealização de ações e a organização
de comportamentos(8). Muitos dos entrevistados norteiam suas atitudes de acordo
com suas crenças.
Eu tenho uma mania muito grande que é nunca deixar os calçados
separados e nem virados de cabeça pra baixo, porque dizem que a mãe
pode morrer.(Entrevistado 12). [...] eu acredito muito é no problema
do chinelo, não deixo o chinelo virado, eu tenho medo disso... passar
embaixo de escada eu também não passo, e não gosto de ver gato preto.
(Entrevistado 08)
Foram identificadas algumas motivações e justificativas que levaram os
entrevistados a buscar alternativas para solucionar seus problemas cotidianos:
a satisfação pessoal, o fato de crer e a experiência vivida.
Quando eu vou fazer alguma coisa que eu quero ter êxito, eu uso o
vermelho. Acho que ela me dá sorte, me traz bons fluidos, o vermelho
também é por ver sempre acontecer coisas positivas(Entrevistado 08).
As práticas populares só são integradas ao comportamento humano após passarem
pelo processo de verificação da sua eficácia, que comporta as seguintes etapas:
vivência, experimentação e avaliação do êxito ou não que elas proporcionam.
Você tenta e dá certo, aí você recomenda para a próxima pessoa e assim vai
(Entrevistado 29).
As crenças estão ligadas a questões sociais de uma comunidade, as quais possuem
tradição e costumes peculiares. Alguns entrevistados atribuíram a origem de
suas crenças ao fato de terem passado sua infância no interior do país ou na
zona rural.
Eu acho que é muito passada pelos familiares quando você mora numa
cidade pequena. A família, a maioria vem da região rural, mesmo que
esteja há muito tempo na cidade ainda acredita em muitas coisas
(Entrevistado 03).
A introjeção das crenças, em grande parte é realizada por influência familiar,
por meio das heranças culturais, que é trazida da antiguidade do seio familiar
às gerações futuras.
A forma como eu adotei essas crenças foi através da minha família,
mais com as minhas avós que são pessoas bem antigas, esse pessoal que
acredita mais, e [...] com a minha mãe que tem algumas crenças
(Entrevistado 05).
É importante analisar o contexto social em que o indivíduo está inserido, pois
com o avanço da tecnologia o consumismo está sendo cada vez mais estimulado.
Viver bem hoje significa possuir produtos de última geração, tais como celular,
computador, televisão, e não mais livros e instantes de troca de conhecimento
com familiares mais antigos, como os avós. Isto, evidentemente, leva a quebra
na transmissão de muitos conhecimentos populares.
Algumas pessoas recorrem a poderes sobrenaturais, frente às situações
incontroláveis que geram insegurança como doença, morte e provações. A
conotação mágico-religiosa dada a alguns objetos, simbolizando um poder
sobrenatural, exerce influências benéficas ou não no dia-a-dia das pessoas,
chegando até mesmo a controlar suas ações.
Sempre que eu vou fazer uma prova ou alguma coisa importante eu tenho
a mania de ir com esse anel aqui, que tem essa santa, eu não vou sem
ela(Entrevistado 05).
Muitos participantes citaram a utilização de crenças religiosas, as quais podem
ser consideradas, o espectro da organização social. Assim, a religião
apresenta-se como uma fonte ordenadora, permitindo a mudança de um estado de
fragilidade para um de força, protegendo contra a vulnerabilidade frente ao
mundo(14).
A vida cotidiana pode ser entendida como vida por excelência, onde há a criação
de teorias que tentam simplificar ou mesmo interpretar fatos descritos pela
ciência(15). Esse tipo de conhecimento é espontâneo, intuitivo, sendo
denominado de senso comum. Podemos verificá-lo facilmente em nosso dia-a-dia,
por exemplo, com as plantas medicinais que em nossa sociedade são bastante
difundidas, tendo sua utilização pautada nos costumes e nas comprovações
empíricas e não nos seus estudos farmacológicos. É mais uma questão cultural,
de família, parentes da gente (Entrevistado 31).
A pesquisa revelou que os participantes, ora por respeito, ora por hábito,
acabam experimentando no seu cotidiano várias crenças, mesmo afirmando não
acreditar nas mesmas, isto porque os mitos não se opõem à realidade, e sim
expressam-na através do ritual que se incorpora nos costumes, instituições e
técnicas habituais da coletividade(16).Apesar de não ter e não acreditar, às
vezes é preciso efetuar algumas dessas práticas pelo respeito a outras pessoas
que acreditam(Entrevistado 09).
As relações interpessoais fornecem situações excepcionais para propagação de
crenças, sendo esse processo mais saliente quando dele participam modelos
sociais ou pessoas que possuem uma autoridade formal(7).
Com o nascimento de filho acontece da gente usar algum tipo de
azeite, de coisas, que não são normalmente recomendadas pela medicina
atual, mas que a gente usa muito mais em virtude da mãe, da avó,
achar necessário, e para a gente não entrar em choque com estas
gerações.(Entrevistado 27)
A preferência individual por um sistema terapêutico é mais influenciada pela
cultura, tradição familiar e moda, do que pelo julgamento racional dos seus
fundamentos(6).Alguns entrevistados atribuíram o uso de crenças e de práticas
populares aos costumes e não a uma lógica.
[...] não faz mal não, aquele negócio que pé de coelho dá sorte,
desde que você faça com moderação, você ter um anjinho da guarda,
você ter uma bruxinha que tá na moda, a pedrinha que está na moda
também, eu tenho aqui na minha sala.(Entrevistado 22)
Por meio da negociação entre os saberes, construímos um saber aliado melhor,
formado da aliança dos saberes popular e científico(5). Olha, é uma coisa
engraçada, você usa princípios que muitas vezes são alternativos. Bolsa de gelo
contra a dor, eu recorri a um saber que era familiar, entretanto, tem um amparo
científico(Entrevistado 32).
Como as crenças não são concebidas de uma forma sistemática e controlada, não é
possível verificar sua validade, e nem mesmo aplicá-las de maneira uniforme a
todas as pessoas e isto pode levar a um processo de rejeição às crenças.
Existem também pessoas que acreditam em crenças, mas tentam superá-las. Esta
conduta é tomada por receio aos prejuízos que as crenças podem causar, se
houver um apego excessivo, pois isto reduz a liberdade subjetiva do indivíduo
(8). Não, eu as venço (Entrevistado 03). Costumo tomar banho depois do almoço e
deixo o sapato virado sem problemas(Entrevistado 01).
A não aceitação das crenças, em parte pode ser explicada pela soberania do
saber científico, o saber dos doutores, tornando ilegítimos e muitas vezes
vergonhosos os outros saberes(10).
4.2 Influências e superação das crenças
Como já foi dito, a transmissão de crenças dá-se principalmente no seio
familiar, entretanto quando há uma negação por parte desta, todo processo de
difusão compromete-se chegando até mesmo a sua interrupção. Alguns dados
evidenciam que há um rompimento do elo de ligação entre pais e filhos na
transmissão das crenças no decorrer das gerações. Quando isto acontece, mesmo
havendo o compartilhamento pelos pais, os filhos tomam conhecimento das
crenças, mas não as adotam.
Meu avô era cheio de crenças, mas isto não foi incorporado pelas
outras gerações(Entrevistado 24). A maioria dos meus familiares, como
são mais velhos, tem aquelas crenças, mas eu não sigo não
(Entrevistado 02).
O sistema de crenças é socialmente construído e compartilhado, integra a
realidade comum de uma sociedade. Como o grupo pesquisado foi constituído de
alunos e professores dos cursos de graduação da área de saúde, suas respostas
sobre a relação social das crenças voltaram-se para o processo saúde e doença.
Para as pessoas que acreditam acho que ajuda, porque existe o efeito placebo
(Entrevistado 41).
O saber popular é derivado da experiência empírica, através da vivência, dos
aconselhamentos de amigos e familiares, buscando a adaptação do conhecimento
científico. Os enigmas da vida humana vão além do conhecimento científico, por
isso, este não deve ser considerado como a única verdade, devemos respeitar as
crenças e práticas populares das pessoas.
Tenho que conhecer o nível social do paciente para que eu saiba
conduzir, como vou interferir nesta realidade, para modificar o
comportamento dele frente a qualquer doença que seja considerada
entre aspas uma superstição, isto não pode ser de maneira agressiva,
porque nenhum indivíduo aceita.(Entrevistado 32)
A adoção de práticas populares pelos clientes reforça o compromisso que o
profissional de saúde deve ter ao lidar com os conhecimentos dos pacientes,
pois se este propósito não for alcançado muitos ficarão insatisfeitos, chegando
a abandonar o tratamento ou a não referir adaptações realizadas, uma vez que, a
terapêutica é uma prática humana permanentemente submersa em mitos,
expectativas e mistério, pois lida com as ansiedades do homem, tais como morte
e sofrimento(17). Mesmo com todo avanço científico e tecnológico das ciências
da saúde, ainda persiste em determinados indivíduos o receio quanto a certas
condutas de tratamento e prevenção de doenças.
Dentro da minha própria família, do pessoal mais antigo que não
acredita em vacina, que é tudo lenda, que ao achar que tomar a vacina
poderia provocar uma doença, o que não é verdade, que nós sabemos
(Entrevistado 31).
Abandonar tratamentos instituídos pela medicina ocidental e procurar formas não
convencionais de cura não é tão simples, pois isto pode gerar conseqüências
trágicas ao paciente, e é este limiar de insegurança que leva muitos a
desprezarem ou desconfiarem das práticas populares.
Eu acho que atrapalha, se alguém usa aquilo dentro da medicina ou em
outra área qualquer, isso pode ser prejudicial. Por exemplo, pode
deixar, abandonar um tratamento sério, para procurar uma garrafada,
alguma coisa neste sentido, ou uma benzição, ou uma cirurgia no
centro espírita, etc. isto pode atrasar o seu tratamento e pode ser
fatal para o paciente.(Entrevistado 23)
Também não podemos negar que as práticas populares e crenças, de maneira menos
penosa, auxiliam na resolução de problemas cotidianos, tornando os indivíduos
menos suscetíveis a situações de risco. No que eu acredito em práticas
populares, são os chás, que eu comecei a fazer uso disso porque eu tenho um
problema de alergia medicamentosa, e passei a utilizar, sempre me dou bem com
os chás (Entrevistado 08).
A maneira de agir, de pensar, de falar, geralmente é ditada pelas crenças, que
estão presentes em nossa subjetividade, em nossa cultura, podendo tanto
estimular como inibir as atitudes humanas, por isso a importância de estudá-
las.
A antropologia permite analisar o outro,a partir de valores sócio-culturais e
não pela distância geográfico-social. Assim podemos perceber que dentro da
nossa própria sociedade há grupos com valores e visões de mundo bem específicos
e diferenciados(18). Isto foi observado quando analisamos a existência de
crenças entre o grupo pesquisado:
Eu nunca durmo com a porta do guarda-roupa aberta, pois acho que traz
má sorte (Entrevistado 29). Sou meio cético quanto aos resultados,
assim eu acredito porque o povo fala, eu não discordo, não duvido
(Entrevistado 31).
A cultura, ferramenta essencial utilizada pela antropologia para estudar o
outro,pode ser definida como a maneira que um grupo social tem de ver e estar
no mundo. Cotidianamente as pessoas reúnem conhecimentos através da cultura
popular por meio de experiências, tradição e costumes na tentativa de
solucionar e compreender situações enigmáticas vivenciadas.
A diversidade cultural pode ser constatada por vários aspectos, tais como,
arte, moral, leis, costumes e pelas crenças, as quais funcionam como uma
bússola direcionando as práticas sociais. Ainda convivemos com mitos, crenças e
crendices, apesar de todo avanço científico e tecnológico do mundo moderno(19).
Entretanto, observamos que a maioria dos entrevistados afirmou não acreditar em
crenças, mas as respeitam e lhes dão importância. Eu as considero muito
importantes na cultura popular. Agora não tenho... nenhuma(Entrevistado 22). Eu
acredito que algumas crenças muitas vezes podem contribuir para o
desenvolvimento das pessoas (Entrevistado 28).
Mesmo não acreditando em crenças os entrevistados afirmaram que buscam
conhecimento referente às mesmas, para compreender o comportamento humano e a
cultura englobada neste processo. Às vezes eu leio a respeito do assunto,
porque tem coisas interessantes, por exemplo, na minha área, tem muita crendice
em relação à alimentação(Entrevistado 20).
Como as práticas sociais das crianças são os resultados do conjunto de saberes
dos familiares, geralmente dos pais e dos avós, percebe-se uma grande adesão às
crenças na infância, mas há também o abandono total das crenças ou uma redução
significativa de sua utilização na fase adulta. Superstição tenho mais como
estórias de crianças, ficou no meu passado(Entrevistado 31).
Em grande medida, as crenças são construídas social e culturalmente e por isso
o seu sucesso depende da existência de redes de relações sociais que a
sustentem. Quando isso não ocorre podemos observar que as crenças caem no
abandono. A seguir estão enumerados os principais motivos que levaram as
pessoas entrevistadas a abandonarem as crenças na fase adulta:
a) Aquisição de conhecimentos:
Isso quando criança é passado pelos pais, pelos avós, vizinhos,
pessoal que tem assim um nível de estudo formal abaixo. Mas na medida
que você vai crescendo, você vai estudando, todas essas coisas vão
caindo por terra(Entrevistado 26).[...] eu prefiro utilizar os
aspectos mais científicos(Entrevistado 31).
b) Ganho de autonomia frente aos familiares:
Minha mãe não deixava tomar manga com leite, então eu como era
criança fazia o que ela mandava... mas depois que eu fui virar
adolescente daí para frente eu fui fazendo o meu nariz, larguei ela
pra lá(Entrevistado 21).
O conjunto de informações resgatadas sobre crenças dimensiona as
características do grupo analisado, uma vez que nos permite compreender o
sentido que eles dão aos fatos. Pode-se dizer que muitos estão na iminência de
colisão entre o saber popular, que é transmitido pela herança familiar, e o
saber científico que em parte é adquirido na academia.
5 Conclusão
As crendices encerram em si um aspecto mágico, existindo afinidade entre
crenças e medicina popular. Ao mesmo tempo em que a tecnologia avança, nossa
civilização, paradoxalmente, procura recursos não convencionais para solucionar
seus problemas, recorrendo a práticas mágico-religiosas, ao pensamento
imaginário, que proporcionem alívio de suas ansiedades.
A procura de soluções para esses problemas faz com que grande parte das pessoas
se apegue ao saber popular e às superstições. Entretanto, como a amostra
analisada foi constituída por pessoas com alto nível de escolaridade, revelou
uma colisão entre o saber popular e o científico, surgindo assim, a exclusão do
saber popular, sua manutenção "velada", ou mesmo, a aliança dos saberes, na
medida em que o próprio saber pode ser transformado.
Com o incentivo da mídia ao consumismo, cada vez mais a população está abrindo
mão da cultura popular, em troca da apropriação de bens de última geração como
celular, computador, televisão, medicamentos, ocasionando uma interferência
negativa na transmissão das crenças, práticas e cultura popular.
Há a necessidade de uma reflexão em torno do ser humano e dos seus aspectos
biopsicossociais, e neste processo o sistema de crenças merece destaque, uma
vez que afeta a vida do homem no seu sentido mais amplo, libertando-o de suas
incertezas e tornando-o menos vulneráveis a situações adversas e ao mesmo tempo
influenciando nas explicações dadas aos acontecimentos e na tomada de decisões,
promovendo muitas vezes repercussões sociais.