Conhecimentos populares e educação em saúde na formação do enfermeiro
PESQUISA
Conhecimentos populares e educação em saúde na formação do enfermeiro*
Popular knowledge and health education in the capacitation of a nurse
Conocimientos populares y educación en salud en la formación del enfermero
Maria de Lourdes Denardin BudóI; Rosita SaupeII
IEnfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem - UFSC. Professora adjunto do
Departamento de Enfermagem da UFSM
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem - USP. Professora da Pós-graduação em Saúde
- UNIVALI. Linha de Pesquisa: Promoção e Educação em Saúde
E-mail do autor:lourdesd@infoway.com.br
1 Introdução
As práticas educativas em saúde têm tido uma presença marcante na atuação dos
enfermeiros nas últimas décadas. Isto tem sido referenciado por diferentes
autores da área(1-3). Esta forma de atuação tem sido também uma preocupação
daqueles enfermeiros que discutem e trabalham com a temática de educação, pois,
o enfermeiro, além de suas funções na educação formal e informal (na formação
de profissionais de saúde), desempenha atribuições na educação não formal, que
inclui todas as atividades de educação e saúde individual e coletiva aos
usuários dos serviços de saúde.
Referendando esta prática, verificamos a inclusão do ensino da enfermagem como
área de atuação do enfermeiro nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de
Graduação em Enfermagem(4), proposta presente nas diferentes versões discutidas
ao longo destes anos nos Seminários Nacionais de Diretrizes para a Educação em
Enfermagem no Brasil (SENADENs). Este documento destaca que o preparo do
enfermeiro para o ensino deve incluir "conteúdos pertinentes à capacitação
pedagógica do enfermeiro, independente da Licenciatura em Enfermagem"(4:4).
Além disto, dentre as competências previstas está a de "planejar e implementar
programas de educação e promoção à saúde, considerando a especificidade dos
diferentes grupos sociais e dos distintos processos de vida, saúde, trabalho e
adoecimento"(4:3).
Mesmo com toda esta preocupação em atingir a educação das pessoas visando um
cuidado adequado e que leve a uma melhor qualidade de vida, as práticas
educativas em saúde "não conseguem, por via de regra, gerar grandes
transformações, que tenham impacto no modo de vida da população, em suas
condições de saúde e na construção de sua cidadania"(3:63).
Neste trabalho tem-se a intenção de discutir esta temática, de fundamental
importância para a nossa atuação como enfermeiros, buscando em alguns
referencias teóricos a fundamentação para uma formação do enfermeiro educador
que transite nas teorias pedagógicas e de enfermagem e que leve a uma
aproximação dos conhecimentos do sistema profissional e popular de cuidados,
tendo como fundamentação uma abordagem cultural do cuidado. Somando-se a isto
trazemos dados empíricos de uma pesquisa realizada com enfermeiras que atuam em
unidades básicas de saúde na Quarta Colônia de Imigração Italiana do Rio Grande
do Sul (RS).
2 A formação dos enfermeiros para a educação em Saúde no Brasil
Apesar de entender-se que a enfermagem é tão antiga como é a humanidade,
propõe-se neste momento deixar de lado todo este percurso histórico, para ater-
se em um recorte breve daquilo que foi preconizado como o Sistema Nightingale
para formação dos enfermeiros, quer em nível mundial ou nacional. Isto não
significa que as demais iniciativas da formação destes profissionais não
tiveram a merecida importância na história de nossa profissão, influenciando
sobremaneira a prática atual. Trata-se, neste momento, de uma análise da
formação do enfermeiro na perspectiva de seu papel social e cultural, aspectos
que se considera fundamentais para trabalhar com as pessoas.
A enfermagem moderna nasce com Florence Nightingale, com a institucionalização
da profissão, e a criação da primeira escola de enfermagem nos moldes por ela
preconizados, em 1860, no Hospital St. Thomas, na Inglaterra. A tônica dessa
escola era a formação de profissionais de forma criteriosa, sendo que a
disciplina e a conduta moral eram requisitos primordiais. Isto se deve,
especialmente, ao fato de que a enfermagem, na época, contava com profissionais
de duvidosa conduta moral. Florence estabelece alguns critérios para o que
passou a ser o Sistema Nightingale, dentre eles a rigorosa seleção de
candidatas, a direção de escolas por enfermeiras, e ensino teórico e prático
metódicos. Este sistema foi, com o passar do tempo, adequando-se às culturas,
modos e costumes de vida dos países para onde foi sendo importado sendo que,
atualmente, talvez tenhamos tantos modelos quanto as nações nas quais o Sistema
Nightingale foi implantado(5).
O Sistema Nightingale, criado no século XIX, na Inglaterra é difundido por todo
o mundo e chega também ao Brasil, em 1923, com a criação da Escola de
Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, que passou, em 1926, a
se chamar Escola de Enfermeiras D. Anna Nery(6). No Brasil, este modelo é
introduzido a partir da necessidade da formação de um tipo de profissional para
trabalhar no precário sistema de saúde brasileiro da época. No início do
século, a urbanização crescente das cidades, a falta de planejamento e
saneamento básico, fez com que se disseminassem as doenças pestilenciais e de
massa, o que criou sérios constrangimentos à política econômica brasileira.
Frente a estes problemas, é criado o Departamento Nacional de Saúde Pública
(DNSP), assumindo a sua direção Carlos Chagas que, em 1921, visita os Estados
Unidos e conhece as enfermeiras nightingale, acredita ser este o profissional
de saúde necessário para atender à estratégia sanitarista governamental(6).
Através da ajuda financeira da Fundação Rockfeller, chegam ao Brasil as
primeiras enfermeiras americanas, lideradas por Ethel Parsons, com o objetivo
de avaliar a situação e planejar a organização de um serviço de enfermagem.
Nasce, com isso, a moderna enfermagem brasileira, atendendo mais a uma medida
do governo do que a um consenso nacional(7).
No contexto da criação da enfermagem de Saúde Pública no Brasil, Ethel Parsons
propõe a formação imediata de visitadoras sanitárias, para exercer a vigilância
em domicílios sobre casos de tuberculose, e a criação de uma Escola de
Enfermeiras. A partir de 1926, com a formação das enfermeiras diplomadas pela
Escola Anna Nery, as visitadoras foram sendo substituídas por estas novas
profissionais e, "no final de 1927, o Serviço de Enfermeiras ia aproximando-se
do ideal e encaminhando-se para o que se podia entender por um Serviço de
Enfermeiras de Saúde Pública generalizado" (8:30). A atribuição das enfermeiras
de Saúde Pública, era "a responsabilidade pela vigilância e notificações, pelo
cuidado aos doentes e às famílias, pelo ensino e orientação à comunidade"(8:
30). A reflexão sobre estes fatos históricos, em contraponto ao que é hoje
preconizado como mudança do modelo de atenção à saúde, que tem no Sistema Único
de Saúde (SUS) seus princípios e programas operacionais, em especial a
Estratégia de Saúde da Família (ESF), a orientação político social
determinante, evidencia, com extrema clareza, o espírito precursor das
lideranças da época, notadamente dos enfermeiros.
Por outro lado, a partir destes dados é possível perceber que a chamada moderna
profissão de enfermagem nasce para dar conta dos problemas enfrentados pelo
governo no sentido de resolver suas questões mais econômicas do que de saúde.
Mas também nasce voltada para a saúde pública e nesta, vinculada especialmente
ao cuidado, no qual se inclui o ensino e orientação às pessoas. Todavia, o
ensino da enfermagem não seguiu propriamente este caminho, pois em seu
desenvolvimento foi priorizando a enfermagem curativa e hospitalocêntrica
exigida pelo complexo médico-hospitalar, abdicando da ênfase em promoção e
educação em saúde que fundamentou suas origens(9).
Na atualidade há todo um empenho e determinação no sentido do preparo do
enfermeiro para trabalhar com as populações, em busca da implementação da
Reforma Sanitária, representada atualmente pelo Sistema Único de Saúde. Parte
deste empenho concentra-se na necessidade da formação de enfermeiros que
estejam preparados para a educação, como demonstra determinada pesquisa, que
teve como objetivo conhecer a realidade do preparo do enfermeiro para
desempenhar seu papel de educador e apontar as possibilidades embutidas nesta
realidade(1).
Com este trabalho ficou evidente que, apesar da necessidade sentida pelo
enfermeiro em trabalhar na educação, não tem havido uma formação adequada para
a necessidade sentida. Com a nova legislação para a elaboração dos novos
currículos de enfermagem e seus Projetos Político Pedagógico, há uma crescente
preocupação em explicitar as competências a serem adquiridas através de
conhecimentos, habilidades e atitudes, que contemplem este preparo.
3 A integração das práticas de cuidado na educação em saúde
Hoje, ao pensarmos a formação dos enfermeiros, entendemos que os profissionais
que trabalham com pessoas e que têm preocupação com a melhoria da qualidade de
suas vidas necessitam de uma abordagem adequada, a fim de que possam atingi-las
em sua plenitude. Para isso, torna-se de fundamental importância a busca
criativa de novas alternativas para o trabalho, associando saúde e educação das
populações, num intercâmbio constante entre o saber desenvolvido no viver
diário e o oriundo do meio acadêmico, inseridos em um contexto histórico,
político, social, econômico e cultural.
As práticas educativas são uma constante na vivência dos profissionais da
saúde, dentre eles a do enfermeiro, cuja essência tem sido apontada por grupos
de profissionais, como sendo o cuidado. O cuidado envolve todo um conjunto de
práticas, entre as quais a educação é um de seus elementos fundamentais. Cuidar
passa a ser muito mais do que fazer, ajudar ou orientar dentro do nosso saber
acadêmico técnico-científico. Trabalhamos com pessoas que possuem um
referencial de vida marcado pela visão de mundo, crenças e valores de uma
cultura, que as orientou em todos os momentos e que, na situação de crise,
procuram um serviço de saúde e passam a ser pacientes tratados uniformemente,
como se todos fossem iguais, através dos padrões gerais de atendimento à saúde
e à universalização de sintomas e patologias. Nesta situação, o saber popular é
negado e imposto um conhecimento e prescrição fundamentados no modelo técnico-
científico, próprio da academia, e que, ainda hoje, é centrado na doença, no
modelo biomédico, embora alguns avanços estejam acontecendo, principalmente
frente aos trabalhos oriundos de pesquisas, dissertações e teses dos programas
de pós-graduação das Instituições de Ensino Superior (IES). Considerar também a
dimensão sócio-cultural da saúde é fundamental, a fim de que tenhamos a
possibilidade de abrangência suficiente para atingirmos as pessoas. Isto porque
há uma estreita relação entre as crenças, valores, costumes que são
desenvolvidos no cotidiano pelas pessoas e a forma como elas se expressam nas
situações de saúde-doença.
Portanto, para trabalhar na prática, num contexto de educação e saúde, torna-se
fundamental que se estabeleça uma relação entre os conhecimentos das diferentes
ciências que compõem a saúde e as ciências sociais e de educação, num
comprometimento com o movimento social, com a democracia, com o respeito pela
liberdade individual, na participação no processo de conscientização. Para
isto, é necessária uma concepção de saúde que ultrapasse aspectos do modelo
biomédico, numa visão ampliada pelos diferentes aspectos das ciências sociais,
como a apresentada nas sete teses sobre a educação sanitária para a
participação comunitária(10). Neste artigo são postulados dois princípios de
trabalho: é necessário conhecer e contar com o ser humano, os quais se
expressam em duas premissas: "somente conhecendo o indivíduo e sua
circunstância de vida é possível uma ação eficiente e permanente em saúde; e
nada pode mudar a saúde do outro, se este não quer fazê-lo por si mesmo"(10:7).
Com este enfoque, não há como trabalhar em educação na saúde sem conhecer o ser
humano em suas diferentes dimensões, no seu contexto de vida.
Nas três últimas décadas tem havido um crescimento daquilo que emergiu como
sendo o cuidado de enfermagem, numa visão mais ampla e integrada. Dentre os
trabalhos desta vertente há a abordagem sobre o campo de competência dos
cuidados, na qual é proposto um processo de cuidados de enfermagem. Este
processo é referido como o encontro entre duas ou mais pessoas, sendo que cada
uma detém elementos deste processo de cuidados, que se situa na
encruzilhada de um sistema de troca, proveniente de origens
diferentes e complementares, com vista a conseguir determinar a
natureza dos cuidados a proporcionar, a razão destes cuidados, os
objetivos e os meios necessários para os atingir(11:293).
Nesta situação, o cuidado de enfermagem torna-se, assim, um processo entre
parceiros sociais, com competências diferentes e complementares, utilizando as
capacidades e recursos de cada um, no ambiente que acontecer, seja no domicílio
ou instituição de saúde. Para isso, é proposta a utilização de um processo que
permite uma abordagem global, situando a pessoa no seu contexto de vida, numa
tentativa de compreendê-la em relação aos seus costumes, hábitos de vida,
crenças, valores, bem como situar o impacto da doença e das suas limitações em
relação a este contexto. Isto também ocorre quando se dá a educação em saúde,
pois quando adentramos numa situação e projetamos os nossos conhecimentos, sem
antes informarmo-nos da situação, geralmente teremos uma conduta inadequada
(11).
Na atualidade, a Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural
(12,13) tem influenciado toda uma geração de autores e pesquisadores na área de
enfermagem. Neste trabalho tem sido defendida a importância do desenvolvimento
de estudos sobre o cuidado humano, para que elementos culturais comuns e
diversificados possam ser conhecidos, proporcionando o crescimento da
enfermagem como disciplina.
Vimos, até aqui, que a prática de cuidado na enfermagem tem sido questionada,
nos últimos anos, ao mesmo tempo em que autores têm proposto algumas
alternativas de crescimento do saber na enfermagem. Podemos afirmar que vivemos
hoje um momento muito fértil, no qual tem sido possível trazer para a
comunidade acadêmica as discussões, pontos de vista, que têm contribuído de
forma fundamental para a compreensão da prática, da teoria e pesquisa de
enfermagem.
O fenômeno cuidado tem representado, especialmente na área de enfermagem , a
produção de uma vasta literatura, especialmente desenvolvida nas últimas
décadas, que o tem colocado como o seu foco central, a sua essência, o seu
domínio unificador. Mas o cuidado em si não é prerrogativa exclusiva das
profissões, até porque ele se encontra na vida das pessoas, independente de
qualquer envolvimento com saber organizado e instituído por uma ou outra
profissão. Revisando a trajetória histórica da humanidade, pode-se reconhecer
que o saber contido nas diferentes áreas do conhecimento, antes de ser parte da
academia, seguiu caminhos e se firmou como conhecimento popular. A área da
saúde especialmente tem seu nascimento nas práticas cotidianas, que aos poucos
foi sendo absorvida pelo saber científico, sofisticando-se com a inserção do
aparato tecnológico. Mesmo nos dias atuais, em algumas situações, os cientistas
retornam ao saber popular e tradicional estabelecendo trocas, mas muitas vezes
distanciando-se de suas origens.
Nos últimos tempos, alguns autores(2,12,14) na área da enfermagem, têm se
voltado ao trabalho de valorização do saber popular, destacando a importância
de conhecer-se as culturas para haver a possibilidade de maior integração das
pessoas cuidadas nas atividades de cuidados em saúde. Muitos estudos que
utilizaram a Pedagogia Freireana(15), na área de enfermagem, também partem do
conhecimento popular e da cultura, com pessoas que estão vivenciando problemas
ou situações existenciais semelhantes. Da comunhão destas pessoas surge um
grupo especial, denominado de Círculo de Cultura. No Brasil, em algumas
dissertações de mestrado os enfermeiros propõem o Círculo de Cultura,
colocando-se como animadores destes grupos(15).
Por isso, acredita-se que integrar os conhecimentos oriundos do saber popular
aos do saber profissional é o grande desafio da enfermagem atual. Isto não
significa que o saber profissional vai absorver tudo que vem do saber popular,
significa criar uma ponte de integração, de entendimento, onde se busca
conhecer o que se passa na vida cotidiana das pessoas cuidadas, resgatando e
respeitando um saber que teve uma trajetória histórica. Por trás de um cuidado
inadequado apresentado por alguma pessoa, há uma simbologia que representa os
valores, crenças, a visão de mundo no modo de vida que a tradição familiar
referendou. Se não trabalharmos esta nuance, permeada de valores culturais,
poderemos ver sem sucesso nosso trabalho, notadamente na educação em saúde.
Em nosso entendimento, mesmo sem unanimidade ou total clareza, parece existir,
na vivência profissional, a valorização do cuidado, incluindo a educação em
saúde e a relação com as pessoas, para a realização pessoal e profissional.
Considerar o cotidiano das pessoas, seus modos de vida, as formas de
enfrentamento do adoecimento e de comemoração da saúde e da vida é que precisam
ser buscadas e incorporadas ao processo de cuidar e educar em saúde.
Sendo assim, o cuidado profissional a ser trabalhado pela enfermagem deve ter
alguns parâmetros para proporcionar uma atuação da cuidadora profissional numa
forma de ação que venha a atingir as pessoas cuidadas naquilo de que mais
precisam, valorizando suas vivências, respeitando seu saber. Assim, o preparo
do enfermeiro se torna o elemento fundamental a fim de que as abordagens sejam
centro de reflexão crítica e se busquem outras formas para trabalhar a educação
da cuidadora profissional.
E um dos grandes desafios da atualidade para os educadores constitui-se em
articular igualdade e diferença, a base cultural comum e expressões de
pluralidade social e cultural. A idéia de globalização na qual as fronteiras
culturais seriam derrubadas e que todos faríamos parte de um mundo como
cidadãos planetários, com linguagens gerais, homogeneizadas e as expressões
particulares seriam extintas pela imposição cultural não tem sido comprovado
pelos estudos recentes(16). As peculiaridades de cada cultura e as
multiculturas presentes em cada comunidade nos têm apontado possibilidades e
elementos que fundamentam esta reflexão.
Em comunidades rurais são destacas situações nas quais as pessoas participantes
da pesquisa, quando se referem ao cuidado em saúde desenvolvido nas famílias,
apontavam diferenças entre vizinhos ou famílias do marido ou esposa, como isto
é diferente dos costumes lá da minha família, demonstrando uma tendência a não
uniformização do cuidado cultural, mas numa perspectiva multicultural, mesmo em
comunidades tidas como de uma mesma cultura(17).
4 A educação em saúde na prática das enfermeiras da 4ª colônia de imigração
italiana, RS
Os dados a seguir apresentados fazem parte de uma pesquisa(18) realizada com
enfermeiras nos municípios da 4ª Colônia de Imigração Italiana, do Rio Grande
do Sul: Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande,
São João do Polêsine e Silveira Martins. Considerando-se a proposta de
pesquisa, seus objetivos e questões, optou-se por utilizar-se a análise
documental, a observação participante e a entrevista, técnicas importantes para
fornecer os dados necessários para análise. Foram integrados estes três métodos
de coleta, visando a convergência dos dados, através de uma triangulação de
métodos(19). Antes do início da coleta de dados, foi explicada a finalidade da
pesquisa, a metodologia a ser utilizada, assegurando o anonimato, o sigilo e a
livre participação, bem como obtida a autorização de gravação das entrevistas.
Além disso, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido(20).
Neste estudo, foram utilizadas algumas categorias de análise das atividades das
enfermeiras que atuam nas unidades básicas de saúde da região, já pré-
estabelecidas, de acordo com os conceitos da pesquisa: comunidade rural,
cuidado de enfermagem e preparo da enfermeira. Os dados apresentados neste
artigo se referem ao conceito cuidado de enfermagem, na categoria cuidando do
ser humano, que constituem as atividades observadas no trabalho das
enfermeiras, no que se refere à educação em saúde.
Foi utilizada a análise de conteúdo, a fim de atingir os significados
manifestos e latentes. Constituída de três fases de análise temática: a pré-
análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados obtidos e
interpretação(21).
4.1 A educação em saúde
O processo de trabalho da enfermeira em seu dia a dia encontrava-se impregnado
de ações educativas. Quase a totalidade de suas ações consistia de algum tipo
de orientação, quer seja na realização de procedimentos ou nas ações educativas
propriamente ditas. Em todos os momentos em que um cliente se aproximava da
enfermeira havia alguma fala orientadora, a indicação de formas de cuidados ou
mesmo uma prescrição pré-estabelecida, como aquelas que fazem parte dos
cuidados com as vacinas. As formas observadas incluíam trabalho coletivo e
individual.
As ações educativas coletivas compreendiam reuniões e cursos para grupos
específicos como: de terceira idade, de gestantes, de hipertensos, de
trabalhadores rurais, de alcoólicos anônimos, de escolares, de adolescentes e
de grupos heterogêneos, como os que se encontravam na sala de espera para
consultas.
Todos os municípios possuem grupos de terceira idade organizados, sendo que a
maioria deles é mantido por associação própria, com diretoria, que realiza as
programações com a participação direta ou indireta da secretaria de saúde de
cada município, na qual a enfermeira tem algum tipo de participação. Em algumas
situações é convidada a participar como responsável técnica ou palestrante das
reuniões. No geral, ao término da palestra, é verificada a pressão arterial
pela enfermeira e/ou auxiliar de enfermagem. Nestas oportunidades, o momento de
encontro é aproveitado para que conteúdos importantes sejam transmitidos às
pessoas presentes. Uma das enfermeiras relata como é organizado o encontro, no
seu município:
o grupo de idosos compreende duas turmas na zona urbana [...]. Nesse
grupo eu sou a responsável técnica [...] tem o professor de educação
física, que faz a atividade física em todas as aulas e a secretária
de saúde que sempre vai junto comigo [...]. Primeiro a gente
conversa, das duas às três e meia a gente fica conversando com eles,
ou faço palestras, ou expressão corporal através de teatro, ou as
oficinas, ou deixo livre, porque uma vez por mês eles têm liberdade
para fazer o que quiserem, um bingo, ou jogando cartas, se eles
quiserem ficam a tarde inteira jogando cartas. Se quiserem ficar só
jogando conversa fora, mas os outros três encontros do mês é
organização minha [...]. Sou eu quem programo as atividades ou os
temas a serem abordados, segundo o que vou sentindo ser necessário
(D1).
Os grupos de gestantes estão presentes em quatro dos sete municípios, sendo que
um deles já teve o grupo, mas atualmente não possui profissionais para mantê-lo
funcionando. As orientações são feitas pela (o) enfermeiro, na sala de espera
ou individualmente, como pode ser visto na seguinte fala:
nós tínhamos o grupo de gestantes, funcionou um tempo [...] fiquei
com a orientação mais a nível de sala de espera ou na hora que ela
vem fazer a ficha para consultar, o pré-natal, é feita a orientação
dos cuidados, todas as gestantes, principalmente as carentes, recebem
exames, ultra-som, medicação, elas têm uma carteirinha própria da
gestante. E com a gestante este grupo terminou até por falta de
recursos humanos, se tivesse uma enfermeira só para isso, com certeza
nós teríamos todos os grupos funcionando, também o grupo de
hipertensos, o grupo de diabete, nós tínhamos todos estes grupos
[...] a orientação é feita individual e não no grupo, a gente orienta
quanto à alimentação, quanto à hidratação, quanto à dieta,
principalmente(D2).
A sala de espera é outro momento utilizado pelas enfermeiras para trabalhar
temas de educação em saúde, como hipertensão arterial, cuidados com a
alimentação, alcoolismo, tabagismo, entre outros temas, como na situação em que
a enfermeira relata:
a gente orienta as pessoas sobre alimentação, sobre doenças, a gente
explica, agora na época do inverno de como agasalhar, de como cuidar
da saúde, da higiene, a gente pega aquelas crianças que se penduram
nos carros e se acidentam, então a gente acaba falando [...](D3).
A educação em saúde era também realizada de forma individual, fazendo parte de
todas as ações da enfermeira. No geral, quando um cliente é cuidado pela
enfermeira, quer seja na aplicação de vacinas, na entrega de resultado de
exames, de medicamentos na farmácia do Posto ou na coleta de material para
exame de preventivo de câncer de colo uterino, recebe algum tipo de orientação.
Todo o momento de contato com o cliente é aproveitado para fazer as orientações
indispensáveis a cada caso, como nas situações a seguir, na qual a enfermeira
orienta sobre o auto-exame de mamas:
A enfermeira explicava para a mulher que fazia o exame preventivo de câncer:
vou te dar uma folhinha e mostrar como se faz. Se tu achares algo anormal, tens
que vir no posto. Orientou para tirar as roupas para o exame. A mulher sentou
na mesa e ela postou-se na sua frente e disse:
Faz de conta que eu sou o teu espelho [...] É normal as mamas serem
um pouco diferentes uma da outra, mas para isso tu precisas olhar
todo o mês, porque então tu vais te conhecer e identificar logo se
houver alguma diferença [...] Não pode ter algo que não tinha antes.
Diz para que ela deite e demonstra a palpação, dizendo:
Tem que tocar toda a mama procurando algum carocinho, alguma região
mais endurecida. Por último, tu apertas para ver se sai alguma
secreção. Na hora do banho é melhor, porque a mão desliza [...](D3).
Em pesquisa(1) realizada com professores, alunos e egressos de diversos cursos
de enfermagem, no Brasil, foi constada a importância do preparo do enfermeiro
para ser educador e que esta função está presente em todas as áreas de sua
atuação. Entre os egressos dos cursos estudados, a opinião referenda este
achado e assinala a falta de preparo para este importante papel.
Assim, educação em saúde aparece como a primeira e mais fortemente área
focalizada pelos entrevistados ao reportar o papel educativo da enfermeira. Por
outro lado,
ao discorrerem sobre esta dimensão, poucos conseguem ultrapassar as
tradicionais ações de orientação e palestras. Mas, outras posturas já
começam a aparecer, colocando como pobreza profissional o
entendimento que reduz a educação em saúde a estas duas atividades(1:
29).
Esta constatação vem confirmar o que tem sido observado e expresso pelas
enfermeiras que atuam na Quarta Colônia de Imigração Italiana do RS, que têm
sentido esta importância, frente às necessidades enfrentadas pelo tipo de
trabalho que desenvolvem. Por outro lado, referem a falta de preparo, durante a
graduação, para que possam melhor desempenhar esta função.
5 Considerações finais
As ações de educação em saúde parecem estar definitivamente incorporadas ao
processo de trabalho dos enfermeiros brasileiros: a sua história aponta para
esta afirmação e os dados da investigação apresentada confirmam esta tendência.
Todavia, no momento atual de consolidação da Reforma Sanitária e implantação
das Diretrizes Curriculares, na perspectiva do SÚS, é preciso revisitar esta
história, confirmar seus acertos, descobrir seus estrangulamentos e propor
formas inovadoras que possam ser implantadas e testadas. Pretendemos colaborar
nesta perspectiva.
Assim, como acerto evidenciamos o empenho dos enfermeiros em implementar
programas de saúde que têm como eixo condutor a educação em saúde, seja na sua
versão individual ou coletiva; como estrangulamento detectamos a dificuldade
dos profissionais em acreditarem realmente nos seres humanos com os quais
interagem, em sua capacidade de aprender e de administrar a própria vida; como
proposta colocamos a integração entre conhecimento profissional e saber popular
como metodologia orientadora tanto do processo de educação na saúde como dos
programas de educação em saúde.
Como reflexão final ponderamos que a educação em saúde tem crescido pela
instrumentalização originária das teorias e métodos da educação geral. Neste
artigo, mesmo na consideração da importância destas contribuições, evidenciamos
outra perspectiva, qual seja, a da fundamentação de propostas que têm como
referencial o conhecimento gerado na própria profissão e divulgado em suas
teorias de sustentação.