Anatomia: a ordem do corpo
HISTÓRIA DA ENFERMAGEM
Anatomia: a ordem do corpo*
Anatomy: the bodily order
Anatomía: el orden del cuerpo
Maria Henriqueta Luce Kruse
Enfermeira, Doutora em Educação, Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da
UFRGS.E-mail do autor: kruse@uol.com.br
1 Expondo minha argumentação
[...] meu projeto não é o de fazer um trabalho de historiador, mas
descobrir por que e como se estabelecem relações entre os
acontecimentos discursivos. Se faço isso, é com o objetivo de saber o
que somos hoje. [...] Em um certo sentido, não somos nada além do que
aquilo que foi dito, há séculos, meses, semanas[...].(1:258)
O corpo para a equipe de saúde é aquilo que funciona ou não funciona. Aquilo
que pode ser descrito tal como é, já que sua existência é indiscutível,
independente de quem observa. Assim, existiria um corpo natural, em estado puro
que, como tal, possuiria uma essência e uma humanidade naturais, portanto seria
um efeito da natureza, e que, assim, não dependeria da ação ou da intenção dos
seres humanos. Neste texto pretendo me filiar àqueles que pensam que o corpo
pertence à história, e que, portanto, está marcado indelevelmente pela cultura,
sendo impossível retroceder a um tempo onde supostamente não houvesse
civilização para encontrar um corpo não marcado por ela.
Assim, meu objetivo é mostrar a proveniência dos saberes que determinam uma
certa visão que a equipe de saúde, sobretudo a enfermagem, desenvolveu sobre o
corpo, especialmente sobre o corpo doente. Entendo que esses saberes foram
sendo construídos histórica e culturalmente e determinam maneiras de ensinar e
aprender sobre os corpos, principalmente os corpos hospitalizados. Para expor
minha argumentação preciso reconstituir os processos geradores, não para
atribuir-lhes um valor em si, uma positividade, um progresso. Pois, como um
sinal de reconhecimento a Foucault, não tomarei o ponto em que nos encontramos
como o final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na
história.
Foucault(2) considerava um mau método esta forma de problematização. Ao invés
disso, preocupava-se em perguntar: como isso se passa? Pois o que se passa
agora não é nem melhor, nem mais importante e nem melhor explicado do que o que
se passou antes. Com Foucault, fica evidente que o importante não é buscar as
transformações que um certo objeto sofreu ao longo do tempo em uma determinada
cultura, mas tornar problemático e, portanto, histórico, tudo o que é visto
como "objeto natural" a priori.Portanto, ele persegue as condições de
possibilidade que provocam o surgimento das designações, formas de controle e
resistências sobre os corpos. Para Foucault, o importante não é buscar "o
corpo", mas sim as práticas, as experiências, as relações que o fortalecem ou
enfraquecem em cada circunstância(3). Deste modo ao tentar perseguir as
condições de possibilidade do surgimento dos modos de ver e descrever o corpo
que conhecemos hoje, dirijo-me à disciplina de Anatomia e à sua inserção e
organização na Modernidade, para procurar entender como tudo se passou, e
poder, então, problematizar e traçar uma possível historicidade para este modo
de saber.
No final do século XV e durante o século XVI, o corpo humano esteve no centro
da arte renascentista, atraindo o interesse de artistas que buscavam sua beleza
e perfeição estética, uma vez que nesta época uma obra de arte deveria ser uma
representação direta e fiel dos fenômenos naturais. Tal concepção exigia que o
artista tivesse um amplo conhecimento desses fenômenos para poder retratá-los.
Enfim, a arte tornara-se científica. Deste modo, era natural que artistas como
Leonardo da Vinci (1452-1519) se dedicassem com entusiasmo ao estudo detalhado
do corpo humano, esboçando inúmeros desenhos com estudos anatômicos que
representavam as estruturas interiores e as proporções do corpo, objetivando um
maior realismo em sua obra. Ele estudava o corpo estabelecendo comparações,
procurando simetrias com o microcosmo. Portanto, a história da ilustração
anatômica, tal como contada nos dias de hoje, tem uma manifestação moderna
inicial, onde se destaca Leonardo da Vinci e uma expressão moderna posterior,
cuja figura mais representativa é Vesalius(4).
O projeto moderno propôs-se a tarefas impossíveis, dentre as quais se sobressai
a busca da ordem, que deu ao mundo uma estrutura que nos tranqüiliza, pois
permite que saibamos o que vai ocorrer a seguir. Tal operação, que promove a
ordem no mundo, é fundamental para que possamos viver nele, uma vez que somos
dotados da capacidade de aprender e memorizar. "A taxonomia, a classificação, o
inventário, o catálogo e a estatística são estratégias supremas da prática
moderna. A mestria moderna é o poder de dividir, classificar e localizar - no
pensamento, na prática, na prática do pensamento e no pensamento da prática"
( 5:23).
Ao classificar, estamos incluindo e excluindo, dividindo o mundo em dois.
Criando identidades que respondem ao nome que inventamos e outras que não
respondem. Dentre as classificações que criam uma ilusão de simetria no mundo,
me ocuparei de uma que se refere ao corpo, tentando catalogar eventos
relacionados à possibilidade de ser doente e ser sadio, produzindo um
inventário de características definidoras do que é normal ou anormal. Entendo
que o ideal que tal função classificadora pretenderia atingir, o de construir
um espaçoso arquivo que contenha todas as classificações sobre os corpos, foi
instituído como prática discursiva na disciplina de Anatomia.
2 Apresentando Vesalius
As bases da Anatomia como ciência foram estabelecidas por Vesalius(4) de
Bruxelas (1514-1564), em 1543, quando publicou os desenhos e textos que compõem
a obra De humani corporis fabrica, que corrigia e reformulava os conceitos e as
ilustrações anatômicas da época, na busca de uma "exatidão real". A obra de
Vesalius, ao privilegiar a observação e a pesquisa, é tida como o começo da
ciência moderna. Nada parecido fora visto até então. Sua maneira de conceber o
corpo era totalmente nova e excepcional, a postura dinâmica das figuras,
provavelmente emanadas da oficina do pintor Ticiano, demonstra a maneira como
os renascentistas se libertaram das formas convencionais da arte, fazendo-a se
aproximar da natureza para então explorar novos campos do saber(6). Enfim, a
ciência se alia à arte.
Desde então, a aula de anatomia tem se revelado um território rico na produção
de visibilidades e dizibilidades que são bastante conhecidas, principalmente na
arte e na literatura. O quadro A lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt,
que retrata a dissecação do corpo do holandês Aris Kindt, acusado de roubar um
casaco e condenado à morte por enforcamento em 1632, é um exemplo disso. O
corpo foi doado ao Dr. Tulp que contratou Rembrandt, então um jovem retratista,
para pintar a necropsia. Rembrandt dispõe os assistentes espantados em um canto
do quadro, numa espécie de triângulo, figura geométrica que tem sido associada
ao saber e representativa dele. A figura em destaque é o médico, o único que
usa chapéu, talvez um ícone da época para realçar o seu saber. Com o bisturi na
mão, ele disseca o braço do morto, numa alusão ao pecado do roubo, associado
desde a Bíblia ao mau uso das mãos. Nesta tela, o corpo parece quase
secundário, deitado passivamente dentro do plano da pintura, com a face
parcialmente velada, aparentemente despido de uma possível identidade pessoal.
De fato, o corpo está imóvel, petrificado, irremediavelmente apaziguado pela
morte, apenas compondo um objeto de estudo que possibilitará que a ciência
investigue o mistério da vida e da morte.
Voltando a Vesalius, o valor da sua obra está em procurar confirmar aquilo que
fora dito por Galeno, que constituía o saber médico greco-romano, e demonstrar
suas discrepâncias, tendo por base o método da observação direta dos elementos
anatômicos através da dissecação. Ver um mestre descer de sua cátedra para
demonstrar e fazer dissecações era um fato totalmente inusitado na época. A
energia desse jovem e ambicioso professor teria feito com que suas aulas
estivessem sempre cheias. Ali, aqueles que questionavam suas declarações eram
convencidos pelas demonstrações visuais. Para ilustrar seus argumentos,
Vesalius passou a fazer uso de grandes desenhos anatômicos que foram depois
transformados em xilogravuras. Estas estabeleceram um novo padrão para
ilustração na disciplina de Biologia. Vencendo as dificuldades existentes na
época para conseguir cadáveres, ele também idealizou e construiu o primeiro
esqueleto articulado, tal como o conhecemos hoje(6). Sua obra mostra o melhor
do que se fazia em gravura no século XVI e é citada como "o grandioso e
singular marco inicial da anatomia moderna, (...) a obra prima que tem em si a
fulgurante luminosidade que a partir da Renascença invadiu o corpo humano,
destruiu os conceitos arcaicos que obscureciam o conhecimento de sua estrutura
e fez nascer a anatomia científica"(7:11). Foram estes anatomistas, bem antes
de Descartes, que fundaram um dualismo que é fundamental na modernidade e não
só na área da saúde, a dualidade que distingue de um lado o homem e de outro
seu corpo.
A obra de Vesalius foi organizada em sete livros e continha um elaborado
sistema de referências entre o texto e a ilustração, o que a transformou em um
admirável veículo de difusão de uma ciência, até então, descritiva. O primeiro
livro tratava dos ossos, o segundo dos músculos, o terceiro do sistema
circulatório, o quarto livro do sistema nervoso, o quinto do abdômen, o sexto
do tórax, o sétimo livro tratava do cérebro. Este sistema, numa época em que a
nomenclatura médica ainda não havia sido definida, produziu uma obra sem igual
na história do livro impresso.
Vesalius pensava que a Anatomia deveria ser "o fundamento sólido de toda a arte
da Medicina e sua preliminar essencial"(8:3) e prognosticou que "há razão para
esperarmos que a anatomia vá ser cultivada por muito tempo em todas as nossas
academias, como o foi no passado em Alexandria" (6). Mesmo com esse prenúncio,
será que Vesalius imaginava o sucesso e a produtividade de sua obra, ao longo
de cinco séculos?
3 Anatomia - um campo de saber
A Anatomia é, até hoje, a disciplina introdutória do currículo de Enfermagem e
de todos os demais cursos da área da saúde. Apesar das transformações que
ocorreram do século XVI até os dias de hoje, sua estrutura como campo de saber
permanece praticamente inalterada. O cadáver impregnado de formol é considerado
o recurso ideal para os ensinamentos sobre o corpo humano e, paradoxalmente, é
o primeiro contato de estudantes, que se preparam para preservar a vida, com o
objeto de sua futura prática. O mesmo é apresentado como semelhante ao ser
humano, embora observemos que não tem a cor, a consistência, o turgor da pele,
o odor ou a temperatura de um corpo quando vivo. Observo que a Anatomia tem uma
posição de tal autoridade no contexto do ensino desta área, que dificilmente
algum professor ou professora se atreveria a ensinar, ou sequer a pensar, sem
levar em conta os seus preceitos e a forma como ela está organizada há mais de
450 anos. Embora exista um corpo organizado e desenvolvido de trabalhos que
analisam a obra de Vesalius, meu objetivo aqui é simplesmente explorar as
conseqüências de sua visão sobre o corpo e como ela marcou a formação na área
da saúde. Para ilustrar o que está sendo dito em relação à disciplina de
Anatomia, reproduzo o seguinte depoimento: Quando ingressei na Faculdade de
Medicina, aos dezessete anos, nunca havia tido um contato real com um morto. Ao
se iniciarem as aulas, recebi um cadáver com o qual eu deveria estar em
contato, estudando a Anatomia e fazendo dissecações, durante um ano inteiro. Eu
o retirava da cuba de formol todas as manhãs e essa vivência me mobilizava
intensamente: perguntava-me se aquele homem tivera uma mulher e filhos, de que
forma haveria se tornado meu objeto de estudo ou se tivera uma profissão.
Dávamos um nome ao cadáver inclusive. Ele era subjetivado e historicizado, algo
ao estilo "moderno". Era comum não comermos carne, porque o cadáver nos vinha à
mente, e usávamos luvas, preocupados com alguma possibilidade de infecção e uma
máscara, pois o formol irritava as mucosas. Nesse meio tempo íamos fazendo as
dissecações e o cadáver, homem morto e possuidor de um nome e de uma história,
ao final do semestre era apenas um conjunto de "peças anatômicas": ossos,
músculos, vísceras etc. Não havia mais necessidade de usar luvas, pois o formol
"esterilizava" e tampouco máscara, uma vez que nos acostumávamos ao formol e
fazíamos um intervalo para lanchar na própria sala de anatomia. Banalizada a
situação, havia apenas fragmentação, dessubjetivação e desistoricização, não um
sujeito mas uma coisa(9:103).
Neste depoimento, podemos observar o modo como o estudante lida com seu
primeiro paciente, o cadáver. Se por um lado, ele pode estar sendo protegido da
angústia que a prática com doentes provoca, por outro, ele está sendo submetido
à ansiedade que a morte provoca, sem que, às vezes, esta palavra sequer seja
falada. A Anatomia produziu o corpo morto como um cadáver, isto é, um corpo
anatômico, objeto de um discurso científico, criado a partir da técnica da
dissecação. Antes de Vesalius, o corpo que não vivia era apenas um corpo morto,
prestava-se a cerimônias fúnebres, a rituais de lembrança e ao enterro nos
cemitérios. A partir de Vesalius, a dissecação permite o acesso a um espaço
constituído, que é tornado visível e explorado geograficamente, como uma figura
exterior e objetiva. Desta relação entre o visível e o enunciável surge um novo
uso do discurso científico, que guarda fidelidade e obediência à experiência.
Então, este primeiro paciente produz uma cisão, é algo para ser visto e não
ouvido. E se antes a relação do médico com seu paciente era fortemente baseada
na relação de conversa e proximidade, agora a dimensão histórica se dilui, as
histórias clínicas tornam-se quase dispensáveis. Desta forma, ao se perder a
história, perde-se a própria vida(10).
Ao tentar compreender como nos tornamos o que somos, me ocupo do passado e
procuro esboçar alguns traços, momentos e acontecimentos que compuseram os
discursos que constituem o corpo escolarizado, aquele que é objeto de estudo.
Neste, destaco a Anatomia, não para incursionar pelo passado buscando encontrar
uma origem, o começo da história, um lugar onde havia um corpo em estado puro
que ainda não tivesse sido estudado, descrito ou dissecado; o lugar da verdade
do corpo que estaria em uma "articulação inevitavelmente perdida, onde a
verdade das coisas se liga a uma verdade do discurso que logo a obscurece, e a
perde"(2:18). Meu objetivo é destacar, entre tantas vozes autorizadas, aquela
que na minha leitura poderia constituir
o filão complexo da proveniência [e assim] manter o que se passou na dispersão
que lhe é própria, [...] demarcar os acidentes, os ínfimos desvios - ou ao
contrário, as inversões completas - os erros, as falhas na apreciação, os maus
cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós [e então]
descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos - não
existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente(2:21).
4 Anatomia - uma prática discursiva
Destaco o texto da Anatomia como uma prática discursiva sobre o corpo, tal como
proposta por Foucault. No caso da Anatomia, Vesalius seria o instituidor de uma
cientificidade, que organizou um saber e uma terminologia, dita racional, que
exerce sua produtividade até os dias de hoje, tal é o caso da nomenclatura
referente aos músculos(11). Aproveito um pensamento de Foucault(12), para
explicar o funcionamento da prática discursiva da disciplina de Anatomia como
"o feixe de relações que o discurso deve manter para ter condições de tratar de
tais ou tais objetos, e processá-los, nomeá-los, analisá-los, classificá-los,
explicá-los, etc (...) essas relações caracterizam não a língua que o discurso
utiliza, não as circunstâncias nas quais ele ocorre, mas o próprio discurso
enquanto prática"(12:51).
As análises sobre o corpo atravessam toda a obra de Foucault. De acordo com
Arthurs e Grimshaw(13), esta verdadeira explosão que tem ocorrido nos últimos
anos no interesse acadêmico sobre o corpo, se deve principalmente à emergência
do feminismo e ao trabalho de Michel Foucault. Sant'Anna(3), avalia que
Foucault contribuiu para o desenvolvimento das pesquisas sobre o corpo
discutindo e expondo o poder em sua positividade, como uma relação que
constitui ações e formas de expressão corporal, e não apenas como algo que
reprime e nega, pois, com suas análises, torna evidente que mesmo os nossos
gestos mais banais, ou os cuidados corporais criados pela medicina, são datados
historicamente.
No Nascimento da Clínica,Foucault(14) faz referência à importância do Atlas de
Anatomia na construção do nosso olhar sobre o corpo, pois "para nossos olhos já
gastos, o corpo humano constitui, por direito de natureza, o espaço de origem e
repartição da doença; espaço cujas linhas, volumes, superfícies e caminhos são
fixados, segundo uma geografia agora familiar, o atlas anatômico."(14:1). Sob
este olhar podemos pensar que a disciplina de Anatomia e seu texto-mestre, o
Atlas de Anatomia, ao descreverem o corpo humano, estabelecem os parâmetros
para o que é normal ou anormal, isto é, normalizam os corpos.
Entre os estudiosos da Anatomia, destaco Laqueur(15), historiador especialista
em história social e da medicina. Ele analisou a invenção cultural da
bipolaridade sexual humana, mostrando que nem sempre concebemos os seres
humanos divididos em dois sexos com características próprias. Até as últimas
décadas do século XVIII, a medicina só admitia a existência de um sexo, o
masculino. O que, atualmente, chamamos de sexo feminino era visto como um sexo
masculino "frio", "invertido". Ou seja, a mulher não possuía o mesmo "calor
vital" do homem, e por isso seu sexo não se desenvolvia para fora, mas para o
interior do corpo: o útero era o escroto, os ovários, os testículos, a vulva, o
prepúcio e a vagina era o pênis. Laqueur refere que a Anatomia não é um fato
inalterado pelo pensamento ou pelas convenções, mas uma rica construção
complexa baseada na observação, na estética da representação e nas restrições
culturais e sociais. Deste modo, o autor menciona que as ilustrações anatômicas
são resultado de conhecimentos construídos historicamente sobre o corpo humano
e que, portanto, levam as marcas complexas do momento de sua produção, não
sendo portanto um possível estado particular acerca do conhecimento de suas
estruturas. Assim,
as ilustrações anatômicas que reivindicam um status estabelecido, que
se anunciam para representar o olho humano, ou o esqueleto de mulher,
são mais diretamente implicadas na cultura que as produz. A anatomia
idealista, como o idealismo em geral, deve postular uma norma
transcendente. Mas não há obviamente um olho, um músculo ou um
esqueleto estabelecido; portanto, qualquer representação que faça
essa reivindicação o faz com base em certas noções específicas do que
é ideal em termos culturais e históricos, o que melhor ilustra a
natureza verdadeira do objeto em questão (15:204).
Dentre os estudos feministas que se ocuparam da Anatomia, destaco o de
Schiebinger(16), que analisou as ilustrações do esqueleto feminino na Anatomia
do século XVII. Essa autora observou que Vesalius não sexualizou os ossos do
corpo, pois na época em que publicou a sua obra, as diferenças corporais eram
vistas como superficiais e não constituíam um tema de interesse. Porém, no
século XVIII, ao crescimento populacional e ao ideal de maternidade,
característico daquele século, correspondeu uma mudança fundamental que exigiu
um delineamento das diferenças sexuais, já que a ciência, neste caso a
Anatomia, poderia apontar as ditas diferenças essenciais, da qual derivariam
todas as demais.
Segundo esta autora, o corpo feminino teria se tornado objeto da Anatomia em
1796, quando o anatomista alemão Samuel Soemmerring publicou a primeira
ilustração do esqueleto feminino. Antes disso, a Anatomia só se referia ao
corpo do homem. Como não poderia deixar de ser, as representações do corpo
humano de Soemerring eram carregadas de valores culturais. Os anatomistas de
sua época "consertaram" a natureza para ajustá-la aos ideais de masculinidade e
feminilidade. Surgiram, então, verdades sobre as mulheres tratando de atributos
que estariam inscritos em seus corpos, naturalizando sua inferioridade. Daí
emergiram categorias muito divulgadas como, por exemplo, a mulher infantil,
pois foi encontrada semelhança entre esqueletos de mulheres e de crianças. Da
mesma forma, quando estudos revelaram que o crânio feminino era menor do que o
masculino, concluiu-se pela inferioridade intelectual da mulher em relação ao
homem. Sua beleza refletiria a fragilidade física e também a predestinaria à
maternidade, pois ao observar que os quadris da mulher eram mais largos que os
do homem, teria ficado comprovada a inscrição que a natureza fizera no corpo da
mulher, "vocacionando-o" para a gestação e a procriação. O útero teve uma
importância fundamental nos estudos sobre o funcionamento do corpo da mulher,
sendo a ele atribuídas várias doenças como a histeria e o humor instável. Desta
forma, A Anatomia, assim como outras ciências, construíram teorias da diferença
sexual pois imperava o conceito que a mulher era intrinsecamente diferente do
homem já que ela teria ficado "para trás" no desenvolvimento, mais próxima dos
primitivos e das crianças. Rohden(17) também comenta que isso teria ocorrido
porque, para a sobrevivência da espécie, era prioritário o desenvolvimento dos
órgãos reprodutivos da mulher, da mesma forma como o cultivo da força física e
da inteligência dos homens.
Esses estudos sobre o corpo da mulher tinham como objetivo determinar a sua
natureza e tornaram-se, nesta época, uma prioridade da pesquisa científica, uma
vez que questões sociais como os direitos e as capacidades das mulheres já eram
ardentemente debatidas e, enfim, poderiam ser resolvidos no "frio santuário da
ciência" e, portanto, iluminadas por verdades incontestáveis. Além das
mencionadas, outras categorias relacionadas ao corpo, como sexo e raça, também
foram consideradas, como ainda hoje, para estabelecer espaços sociais, pois,
nessa época, a desigualdade social era vista como conseqüência de leis
naturais.
5 Folheando livros de anatomia
Folheando livros de Anatomia é possível selecionar certo número de imagens que
me parecem sugestivas disto de que falo, isto é, a propriedade que têm estes
livros de produzir um discurso sobre o corpo que tem marcado não só os
profissionais da saúde, mas toda a cultura ocidental. Lanço meu olhar para
essas imagens, não pretendendo elaborar uma interpretação a respeito delas que
seja nova e original, pois apesar de todas as possibilidades que nossa
linguagem possa oferecer, na visão de Manguel(18) somos principalmente
criaturas de imagens, e essas imagens nos informam, capturadas pela visão e
realçadas por outros sentidos, e marcam nossos corpos com seus efeitos
poderosos.
Ao analisar imagens de livros-texto de Anatomia, utilizados nos cursos
destinados a formar profissionais para atuar na área da saúde, observo que as
ilustrações ali presentes referem-se a corpos masculinos, e que o modelo
utilizado para o estudo do corpo humano é o "masculino, europeu, branco". A
caracterização da figura masculina chega a detalhes como a inclusão do
cavanhaque e da barba que parecem em nada ajudar aos propósitos explicativos da
figura, bem como o delineamento do "pomo de Adão" (cartilagem cricóide) em
todas as figuras onde é visível a região cervical, evidenciando desse modo, que
se trata de um homem. Além disso, as configurações raciais são sempre de homem
branco. Da mesma forma, para uma explicação a respeito dos músculos, lá estão
as figuras masculinas como exemplo, representadas pelos corpos musculosos e
pelas cabeças e pescoços masculinos e brancos. Se o objetivo é a descrição da
parte superior do braço, da "tabaqueira anatômicaa" e da distribuição dos
nervos espinhais, mais corpos masculinos surgem com suas alvas mãos e braços
musculosos, além das cabeças típicas de homem. Se o objetivo é demonstrar a
área drenada pelo ducto torácico, a figura humana, isto é, um homem, aparece de
corpo inteiro, com todas as características físicas masculinas, inclusive o
pênis, que neste caso, nada tem a ver ou acrescenta à explicação.
Da mesma forma, as imagens utilizadas para a explanação do exame físico são
todas de homens brancos, não havendo nenhuma referência a alguma
particularidade possivelmente existente no corpo da mulher. Este é objeto de
atenção somente quando se estuda a pelve, sendo detalhadas todas as medidas que
atestam as boas condições para um possível "parto bem sucedido", que parece ser
a única finalidade desta estrutura óssea. É esclarecido que estas medidas podem
ser executadas utilizando a mão humana, e lá aparece, obviamente, a mão de um
homem. Todo o estudo da pelve está voltado para as suas finalidades
obstétricas, havendo fartas ilustrações sobre o canal do parto, enquanto o
termo vagina não é sequer citado.
Mesmo em publicação mais recente(19), a permanência do corpo masculino também
se faz sentir, como se o modelo ideal fosse o do homem branco, europeu,
provavelmente tido como o corpo "certo". Na figura da capa já se anuncia o
conteúdo que será apresentado, ali estão impressos o rosto de um homem seguido
da estrutura óssea e dos vasos sanguíneos da cabeça. As figuras que ilustram
este Atlas também estão marcadas pelo gênero masculino. Considerando que se
trata de desenhos, observo que há uma escolha deliberada pela figura humana
masculina, inclusive em momentos onde parece não haver uma diferença essencial
a ser mostrada. Neste, novamente o corpo da mulher só é objeto de estudos
quando se refere à pelve e ao abdômen, para descrever a posição das vísceras de
uma mulher multípara pouco antes do término da gravidez. Assim sendo, o corpo
feminino é objeto de atenção especial na qualidade de corpo reprodutivo. De
resto, o modelo é sempre constituído de corpos masculinos, adultos e da raça
branca. Este jeito de representar o corpo marcou de tal forma o discurso que,
até bem pouco tempo, quando um médico fazia menção ao "corpo da mulher", estava
se referindo a útero, ovários e seios, ou mamas, no jargão médico. Quando o
Estado delineava políticas de saúde feminina, não era a mulher o sujeito da
frase mas sua natureza procriadora. Portanto, o sexo é visto como algo que
constitui por si só o corpo da mulher, ordenando-o inteiramente para as funções
de reprodução. Foi assim até a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho.
Desde então, cresceu a necessidade de entender lhor esse corpo, o corpo da
trabalhadora, reconhecendo-o como diferente do corpo do homem, e portanto, alvo
de outras tecnologias de poder, para que seja mantido e utilizado de forma
econômica, para além da maternidade. Embora não seja esse o foco do meu estudo,
faço essas referências para mostrar a forma como a cultura produz um corpo.
Assim, ao longo desses quase quinhentos anos, o saber anatômico foi
incorporando as descobertas provenientes da pesquisa científica, e sua
estrutura, tal como prevista na disciplina de Anatomia, se manteve inalterada.
O que estou pretendendo mostrar é que a disciplina de Anatomia inventou
maneiras de conhecer e controlar o corpo e o que observo é que essas invenções
se mantiveram por se mostrarem produtivas. Assim, tanto a estrutura disciplinar
quanto os arranjos e formatos concebidos por Vesalius permanecem, mesmo quando
as aparências físicas inventadas são atualizadas, de forma que aquilo que foi
pensado no passado permanece na atualidade.
5 O corpo virtual
Esta estrutura disciplinar persiste até o século XX, quando o corpo, alvo da
biotecnologia, entrou para o espaço virtual, configurando aquilo que Santos(20)
chamou de virada cibernética, uma operação que ocorreu no momento em que o
primeiro homem e a primeira mulher se tornaram digitais. Este processo conferiu
um novo sentido à vida e ao mundo, intervindo até na definição do que é um ser
humano, sob o prisma da informação digital e genética. O Projeto do Humano
Visível, lançado na rede mundial de computadores em novembro de 1994, apresenta
a primeira digitalização integral do corpo humano. Trata-se do corpo de um
prisioneiro texano de trinta e nove anos, condenado à morte, que após a
execução, foi escolhido por ser saudável e poder se constituir em um padrão. No
final de 1995, foi lançada a Mulher Visível, versão cibernética do corpo de uma
mulher de cinqüenta e nove anos, desconhecida, doado pelo marido. Estes são
considerados o Adão e a Eva do mundo virtual, mas sua origem é bem diferente da
versão bíblica. Para transformar seus corpos em dados digitais, foram
necessários vários procedimentos que anularam totalmente a massa dos mesmos,
uma vez que foram congelados e secionados em finas fatias, para que fosse
possível submetê-los à ressonância magnética que possibilitou a digitalização
de suas estruturas. Waldby(21) examina-os concluindo que foi extraído um
biovalor destas formas de vida, um excedente de vitalidade e de conhecimento,
que vai alimentar as tecnologias destinadas a melhorar ou prolongar a vida de
outros humanos, uma vez que estes corpos serão utilizados no ensino e, como
arquivo padrão, em exames de ressonância magnética. Aparentemente, este projeto
pretendia ser o último capítulo da história da Anatomia, inaugurada com as
dissecações do século XVI, pois visava montar um dispositivo de imagens
virtuais para tornar o corpo humano visível e solucionar um velho problema: a
opacidade corporal, que impede que as estruturas que compõem os nossos corpos
sejam visíveis aos nossos olhos.
Contudo, mais uma etapa sucedeu a essa dissecação virtual. Adquirindo outros
sentidos culturais, que são expressos por suas modificações e redescobertas que
contribuem para o desenvolvimento de outros hibridismos entre o homem e a
técnica, uma exposição de cadáveres plastificados, intitulada Mundos do corpo-
A Fascinação sob a superfície foi mostrada pela primeira vez na Alemanha, no
Museu de Tecnologia de Manheim durante o inverno de 1997/98. A exposição é o
resultado do trabalho do anatomista alemão contemporâneo von Hagens(22) , que
desenvolveu uma técnica por ele chamada de "plastination". O processo é uma
tentativa de superar o método egípcio de embalsamamento, que durou até o século
XVII, bem como as substâncias químicas e as técnicas tradicionais que fixam os
tecidos. Como resultado, von Hagens obteve a conservação de substâncias
orgânicas por meio de materiais plásticos, que mantêm as células e o relevo das
superfícies inalterados até ao nível microscópico, isto é, idênticos ao estado
natural do corpo antes do processo. O resultado final são peças humanas secas,
que não têm cheiro e que podem ser posicionadas de tal forma que permitem a
visualização tridimensional do corpo e suas variações individuais, o que
anteriormente era restrito ao esqueleto. Durante o processo de preparação,
enquanto o silicone é incorporado, as peças podem ser manipuladas em várias
posições, de modo que o resultado final as distancia dos cadáveres e as
aproxima da plasticidade espacial dos movimentos dos corpos vivos.
A mostra superou as expectativas mais otimistas, tendo sido visitada por
aproximadamente setecentas e oitenta mil pessoas durante um período de quatro
meses. Devido às longas filas de espera formadas pelas pessoas que desejavam
ver as "peças" do Dr. Gunther, foi necessário que o Museu se mantivesse aberto
durante a noite. Para aqueles que visitam a exposição e não têm conhecimento
prévio de Anatomia, estes corpos são perfeitamente compreensíveis, sem
necessidade de grandes explanações, permitindo que se obtenha conhecimento
sobre órgãos, músculos e ossos. Depois do choque inicial, revelado pelas
expressões e pelo espanto estampado nos rostos de homens e mulheres
fotografados em visita à exposição, há um efeito artístico, produzido pela
força imagética da autenticidade e das posturas. Visitando esta exposição,
observei algo que se constitui em uma "marca registrada" da disciplina de
Anatomia, sua continuidade histórica: a maioria dos corpos é de homens, sendo
que os das mulheres, quando presentes, revelam os "mistérios" da concepção,
sendo apresentados corpos de mulheres grávidas. Penso que estes corpos, tanto
os do Humano visível como os plastinados, se transformaram em paradoxais
mortos-vivos, condenados a habitar eternamente o outro lado das telas dos
monitores e as salas dos museus, na qualidade de "múmias pós-modernas".
Ao estudar a Anatomia, relembro Said(23) em seu texto sobre o Orientalismo. Ele
refere que ao tentar entender o Orientalismo, é preciso apreender a "força nua
e sólida de seu discurso", bem como a sua "temível durabilidade". Entendo que
essas expressões se ajustam perfeitamente e podem ser usadas em relação à
Anatomia. Suas narrativas, inscritas nos corpos dissecados até os seus mais
ínfimos detalhes, estabelecem a norma que produz uma verdadeira partilha entre
o que é normal e o que é anormal, constituindo um conjunto de significados que
tem por finalidade dividir e classificar os humanos. Depois, a cada corpo se
atribuirá "um lugar nas intrincadas grades das classificações, dos desvios, das
patologias, das deficiências, das qualidades, das virtudes, dos vícios"(24:
107).
Esclareço que não estou preocupada em analisar o que está oculto no texto da
Anatomia, nem tenho a pretensão de destruí-la ou mostrar onde ela está errada,
mas colocar em questão as suas "verdades". O que me interessa, nestas
considerações que faço a respeito desta disciplina, que se ocupa de produzir e
organizar um saber e uma prática sobre o corpo, é assinalar alguns pontos que
entendo produtivos e importantes: a possibilidade que estes textos têm de
organizar uma prática discursiva sobre o corpo que compõe este arquivo moderno
que tenta catalogá-lo e organizá-lo, utilizando argumentos "naturais",
genéticos, nas representações do corpo, que estão sustentadas numa lógica
"legítima" - a científica, e que assim não é contestada (25).
Esta discursividade desempenha um papel no interior de um sistema estratégico
em que o poder de descrever o corpo está implicado e que, segundo meu
entendimento instaura a idéia de uma verdade única, ao invés de admitir a
possibilidade de múltiplas verdades. Com isso, estou querendo enfatizar que não
penso o corpo como uma entidade natural, pronto, esperando para ser revelado,
liberado ou castigado. Então, o que é o corpo? O que é um corpo? O corpo é uma
substância, uma idéia ou uma palavra? Muitos filósofos contemporâneos
argumentam que não existem substâncias ou idéias fora da linguagem. Substâncias
ou idéias não são realidades refletidas mas categorias culturais construídas
pela linguagem. O corpo não é uma exceção. É também um produto da linguagem,
que adquire sentido no interior da cultura. Assim, de acordo com o pensamento
de autores que se ocupam da cultura, nesse registro em que me situo, destaco
Cavallaro (26) que comenta que a linguagem organiza o corpo de acordo com as
crenças da cultura, o que significa que a idéia de corpo humano não é
universal, mas flexível, podendo ser interpretada de várias maneiras dependendo
do tempo, do local e do contexto. Com este comentário, quero destacar que o
corpo, da forma como o conhecemos, é uma invenção radicalmente histórica. Somos
culturalmente treinados para perceber o corpo de maneira organizada, de certos
ângulos e usando certas lentes. Essa organização das percepções vem de
múltiplos lugares para compor as idéias que hoje temos sobre o corpo. Se
pensarmos nos séculos passados, podemos observar que as cenas eram eternizadas
em óleo por serem representativas daquilo que era considerado importante e
valorizado e que, portanto, deveria ser preservado, para o presente e para o
futuro. Deste modo, podemos avaliar a importância que era dada à Anatomia e ao
corpo, seu objeto de estudo, pois existem inúmeros quadros de pintores,
principalmente dos séculos XVI e XVII, que retratavam as cenas de dissecação
dos corpos. As imagens produzidas permitiam guardar as cenas importantes para
que fosse possível pensar nelas, com uma fidelidade ao que fora visto. Tais
imagens chegam até nós, e nos produzem, de forma que posso dizer que pensamos o
corpo de determinadas formas, em relação com determinados vínculos sociais, no
entendimento que os regimes que definem as verdades sobre o corpo, a saúde e a
doença em cada época são contingentes e provisórios. Se pensarmos no que
ocorreu durante o século XX, observamos que o corpo não cansou de ser sempre
redescoberto e nunca completamente revelado, uma vez que foi alvo do
higienismo, seduzido pelo cinema e pela televisão, objeto dos movimentos de
liberação sexual e dos novos ritmos musicais, da moda e da massificação da
pornografia(27).
Assim, o corpo está sempre sendo (re) fabricado e portanto, sempre também
reinventado(28). Desta forma, são as relações que constituem os corpos, são as
práticas sociais, historicamente datadas, que produzem "ao longo da vida,
nossos sentimentos, nossas preferências, nossa aparência e nossa fisiologia"(3:
279). Para lembrar Foucault(3), não é o sentido que busco nos discursos que são
produzidos sobre o corpo, mas a função que lhes é atribuída e os efeitos que
produzem.