Integração curricular no curso de graduação em enfermagem
DIRETRIZES CURRICULARES - IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO - RELATOS DE EXPERIÊNCIA
DAS DCN
Integração curricular no curso de graduação em enfermagem
Curricular integration in nursing undergraduate programs
Integración curricular en el curso de graduación en enfermería
Claudia Mara de Melo Tavares
Enfermeira, Mestra em Educação, Doutora em Enfermagem, Profa, Titular da Escola
de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Universidade Federal Fluminense,
Coordenadora do Núcleo de Estudos Imaginário, Criatividade e Cuidado em Saúde -
NEICCS, E-mail:claumara@vr.microlink.com.br
1 Introdução
Vivemos hoje um processo de esgotamento do modelo tradicional de formação e de
busca de caminhos que possam nos levar à educação crítica. São muitos os
movimentos, processos de mudança e experiências em andamento, evitando-se a
adoção de um modelo de formação.
Os conceitos fundamentais veiculados nesse processo de mudança são os de
flexibilidade, integração e educação permanente, partindo do entendimento de
que vivemos num tempo de comunicação em rede e de rápidas mudanças no
conhecimento, o que exige mecanismos de educação condizentes com tais
transformações.
Em termos de currículo, critica-se as grades fechadas de disciplinas com ênfase
na transmissão de conteúdos. Propõe-se em contrapartida, diretrizes gerais, que
abram às instituições de ensino a possibilidade de construírem propostas
pedagógicas inovadoras, que respondam de forma articulada e democrática às
necessidades sociais. E que seja capaz de contemplar a complexidade dos
problemas da sociedade atual, o cenário de crise, as incertezas e as mudanças
aceleradas do mundo moderno.
Considerando essa pretensão, é fundamental o desenvolvimento de uma visão
sistêmica da formação, mediada por uma prática integradora, que busque
aproximação e interação entre diferentes áreas de conhecimentos, projetos,
atores e segmentos sociais.
O objetivo do presente estudo é refletir sobre o processo de mudança curricular
a partir da abordagem da integração curricular no ensino de enfermagem.
2 O Processo de Mudança Curricular na Enfermagem
A formação do enfermeiro em nível de graduação tem sido amplamente debatida no
cenário nacional e muitos problemas já foram identificados, estando sempre
presentes nesses debates a necessidade imperiosa de revisar, atualizar e operar
as disciplinas que compõem o currículo de graduação e a ausência de esquemas
integralizadores e de linhas de ação compatíveis com a realidade de saúde do
país.
Portanto, não é de hoje que críticas à organização curricular disciplinar são
elaboradas, seja no campo da educação seja no campo da enfermagem. A despeito
disso, o currículo disciplinar permanece sendo a organização dominante nos
cursos de graduação.
A aquisição de um corpo de conhecimento formal, transmitido nas escolas, é um
atributo-chave para identificação de um profissional. A educação serve de base
para a maioria das ocupações nas sociedades modernas se firmar e constituir-se
em áreas específicas de atuação no mercado de trabalho. Tornar-se útil,
socialmente relevante e confiável perante os clientes, são elementos chave para
o sucesso profissional de qualquer profissão que queira se firmar no mercado(1
).
Na década de 90, a enfermagem realizou uma discussão nacional em torno de uma
proposta de novo currículo mínimo para o curso superior de enfermagem, naquele
momento deposita-se no currículo expectativas de solução de problemas para além
do que pode e deve ser um currículo.
A proposta de discussão em torno do currículo mínimo visava garantir um padrão
mínimo de qualidade para todos os cursos de formação de enfermeiro. Já naquela
época sinalizava-se para a importância de se discutir políticas, princípios e
diretrizes mais amplas para a formação do enfermeiro e reorientação da prática
de enfermagem, no sentido de compreendê-la como parte de um processo coletivo e
interdependente de trabalho e, essencial ao processo de atenção à saúde (2) .
As transformações operadas na vida social, no contexto internacional e
nacional, desde então, impõem uma revisão da formação profissional do
enfermeiro de modo a sintonizá-lo com a dinâmica dos novos tempos.
A enfermagem estabelece relações com outras práticas sociais, num processo de
complementaridade, com o propósito de alcançar a integralidade do cuidado em
saúde. O rápido desenvolvimento e incorporação de conhecimentos tem exigido uma
compreensão cada vez mais profunda do contexto e dos processos de relações
estratégicas que confluam para o alcance de metas comuns em diferentes níveis:
local, regional e mundial. Na perspectiva de utilização das potencialidades da
enfermagem, os profissionais tem buscado alianças estratégicas e desenvolvido
um trabalho integrado em rede, buscando fortalecer e ampliar seus conhecimentos
e seu espaço de atuação(3) .
Hoje, a discussão é bem mais ampla, não se fala mais em termos de um currículo
mínimo, onde há um grau de detalhamento de disciplinas e cargas horárias, mas
de diretrizes curriculares e de Projeto Político-Pedagógico (PPP).
As novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os Curso de Graduação em
Enfermagem, recomendam a construção coletiva de um projeto político-pedagógico,
centrado no aluno como sujeito da aprendizagem e apoiado no professor como
facilitador e mediador do processo ensino-aprendizagem. Neste projeto deve-se
buscar a formação integral e adequada do estudante através de uma articulação
entre o ensino, a pesquisa e a extensão/assistência. Tendo a investigação como
eixo integrador da formação acadêmica do enfermeiro, induzindo a implementação
de programas de iniciação científica, propiciando ao aluno o desenvolvimento da
sua criatividade e análise crítica(4) .
A idéia de PPP sugere os objetivos e diretrizes pedagógicas, políticas,
teóricas, científicas e sociais de um curso. Dedicar-se à sua elaboração
permite aclarar o sentido de que o Projeto Pedagógico tem implícita a visão de
homem, de mundo e de um curso. Para isso tem-se que ter claro as diretrizes da
instituição (sociais, políticas e econômicas) e seus objetivos no sentido de se
verificar o que a universidade espera do cidadão que ela está formando(5) .
Há grandes mudanças na sociedade moderna face ao contexto social, que apontam
para a necessidade de buscarmos outras tecnologias, novas formas de gestão do
trabalho e articulações político-sociais. Tais mudanças estão influenciando os
próprios modelos e paradigmas científicos impondo inclusive uma nova visão de
ciência (6) .
Frente às mudanças propostas, faz-se necessário ampliar as discussões com todos
os atores envolvidos na formação do enfermeiro em cada instituição de Ensino
Superior. As necessidades de treinamento e capacitação docente e o
desenvolvimento de pesquisa que sustentem as novas práticas, são urgentes, já
que a fundamentação teórico-metodológica e a prática docente em sala de aula
ainda são fortemente influenciadas por abordagens tradicionais de ensino-
aprendizagem e por uma relação assimétrica entre professor-aluno.
É preciso considerar, que processos profundos de mudança na formação são
complexos, envolvendo mudanças de conceitos, de postura, de lugares e de
relações institucionais, levando ao enfrentamento de conhecimentos e valores
cristalizados, hegemônicos, para construção de alternativas que não estão
dadas. São processos que implicam conflitos, pressões e confrontações
permanentes e que estão sob risco o tempo todo(7) .
Com base nas orientações da LDB e das diretrizes curriculares recomendadas pelo
SESu/MEC e pela ABEn, a organização curricular do Curso de Graduação em
Enfermagem deverá pautar-se nos princípios da articulação entre ensino,
pesquisa e extensão/assistência, garantindo um ensino crítico, reflexivo e
criativo, que leve à construção do perfil almejado; atividades teóricas e
práticas presentes desde o início do curso, permeando toda a formação do
enfermeiro, de forma integrada e interdisciplinar; visão de educar para a
cidadania e a participação plena na sociedade; princípios de autonomia
institucional, de flexibilidade, integração estudo/trabalho e pluralidade no
currículo; implementação de metodologia no processo ensinar-aprender que
estimule o aluno a refletir sobre a realidade social e aprenda a aprender;
definição de estratégias pedagógicas que articulem o saber, o saber fazer e o
saber conviver, visando desenvolver o aprender a aprender, o aprender a ser, o
aprender a fazer, o aprender a viver juntos e a aprender a conhecer que
constituem atributos indispensáveis a formação do enfermeiro; estímulo às
dinâmicas de trabalho em grupos, por favorecerem a discussão coletiva e as
relações interpessoais; valorização das dimensões éticas e humanísticas,
desenvolvendo no aluno e no enfermeiro atitudes e valores orientados para a
cidadania e para a solidariedade; articulação da Graduação em Enfermagem com a
licenciatura em Enfermagem; contribuição para a compreensão, interpretação,
preservação, reforço, fomento e difusão das culturas nacionais e regionais,
internacionais e históricas, em um contexto de pluralismo e diversidade
cultural.
Pautando-se na concepção pedagógica crítico-social, o projeto pedagógico do
curso de enfermagem tem como desafio fundamental a apropriação do conceito de
integralidade pelos diferentes atores do curso, com vistas a desenvolver a
capacidade de construir conhecimentos novos por meio de situações observadas na
realidade, desencadeando um processo de ação-reflexão-ação e a construção de um
currículo integrado. Os docentes precisam se empenhar na busca de novos
modelos, novos olhares, novas abordagens. Adotando uma postura crítica de
discussão e reflexão sobre os modelos pedagógicos atualmente utilizados( 8) .
São necessárias alterações curriculares articuladas a um processo de
sensibilização para o graduando quanto à valorização dos princípios humanos e
de cidadania. Necessário se faz formar profissionais com capacidade técnica
para influenciar nas decisões políticas e com sensibilidade poética para melhor
compreender o self humano. A educação em enfermagem, além de garantir o
conhecimento essencial a uma prática terapêutica, deverá promover as
capacidades intelectuais e as competências para a investigação, avaliação
crítica do exercício profissional e dos planos de ação política( 9).
Desta forma convém analisar as mudanças curriculares para que se possam
perceber problemas e limitações, corrigir rumos, fazer novas proposições ou
reafirmar definições pactuadas pelo coletivo do curso. É necessário estabelecer
estratégias para sensibilizar e mobilizar todos os que precisam envolver-se na
construção da mudança, levando-se em conta que são muitos os caminhos para que
podem levar à educação crítica.
3 Pedagogia da Interação e a Intedisciplinariedade
Uma das questões fundamentais para a mudança da educação superior em nosso país
é a incorporação efetiva, pelas universidades, dos conhecimentos disponíveis
sobre a educação de adultos. Para adultos, o motor da aprendizagem é a
superação de desafios, a resolução de problemas e, a construção do conhecimento
novo que é feita tomando por base todos os conhecimentos e experiências prévias
dos indivíduos(10).
Sendo assim, o processo de educação de adultos e a formação universitária
pressupõem a utilização de metodologias ativas de ensino-aprendizagem que
proponham concretamente desafios a serem superados pelos estudantes, que lhes
possibilitem ocupar o lugar de sujeitos na construção dos conhecimentos e que
coloquem o professor como facilitador e orientador desse processo. Ou seja, a
educação de adultos e a formação universitária exigem uma pedagogia basicamente
interativa (11) .
Em muitas experiências de transformação do processo de formação profissional, a
participação dos atores dos serviços e da comunidade na definição de conteúdos
e na orientação dos trabalhos a serem desenvolvidos pelos estudantes tem sido
essencial para que se revelem novos conteúdos e para que novas práticas (para
responder aos novos problemas) sejam construídas. Novas práticas que incluem
uma nova tecnologia no planejamento e construção de conteúdos e objetivos
educacionais, agora não mais objetos exclusivos da prática acadêmica.
Nesses espaços de práticas, vários projetos encontraram nas metodologias
baseadas na concepção pedagógica crítico-reflexiva, especialmente a
problematização, um instrumental adequado para articular a ação dos diferentes
atores sobre os problemas da realidade. Um outro grupo de tecnologias
utilizadas pelos projetos, especialmente na formação em medicina, são as
metodologias de ensino baseado em problemas.
Nessa concepção pedagógica, é necessário adotar uma metodologia ativa, na qual
o currículo é configurado de maneira integrada, para que se possam articular os
vários conteúdos necessários a fim de dar conta de uma situação ou problema,
independentemente da estrutura disciplinar. Trabalhar por problemas ou por
problematização tem provocado a busca de caminhos que viabilizem abordagem
interdisciplinar das questões. Trabalhar sobre problemas também tem aberto
espaço para tratar de maneira mais integral temas e conteúdos, aumentando a
chance de escapar das concepções reducionistas e, no caso da saúde,
biologicistas (12) .
A pedagogia da interação implica certo grau de democratização das relações
dentro da universidade, já que está baseada numa relação entre sujeitos, em
processos dinâmicos em que todos aprendem e que possibilitam o aperfeiçoamento
contínuo de atitudes, conhecimentos e habilidades dos estudantes e também dos
professores.
A evocação do trabalho interdisciplinar é antiga, contudo sua adoção é cada vez
mais necessária no campo de atenção à saúde, tendo em vista a complexidade do
processo de adoecer humano e a ampliação do campo de interdependência humana.
Interdisciplinaridade, portanto, é um conceito que se aplica às ciências, à
produção do conhecimento e ao ensino. Se as pesquisas, para produzirem as
respostas necessárias, têm que ser construídas interdisciplinarmente, o mesmo
deve se aplicar ao processo de ensino-aprendizagem.
A possibilidade de uma compreensão integral do ser humano e do processo saúde-
doença, objeto do trabalho em saúde, passa necessariamente por uma abordagem
interdisciplinar, que implique demolição das fronteiras entre pesquisa e
ensino-aprendizagem. E para tanto tem sido construídos currículos integrados
baseados em módulos ou unidades que articulam problemas relevantes sob um
recorte sistêmico ou de processos relevantes da vida e da morte.
4 Integração e Reforma Curricular
A organização dos currículos por disciplinas, apesar de ser amplamente aceito,
desperta uma série de críticas vinculadas à idéia de que a divisão disciplinar
do conhecimento é incapaz de dar conta da problemática social. Da preocupação
com tal incapacidade surgiram diferentes mecanismos de contestação da idéia
disciplinar, entre as quais destaca-se o modelo de currículo integrado.
O currículo integrado articula de forma dinâmica o ciclo básico e clínico,
ensino, serviço e comunidade, prática e teoria, por meio da integração dos
conteúdos, e abordagem de temas transversais como ética, criatividade,
cidadania, interação e trabalho em equipe.
Para formarmos profissionais da saúde precisamos contemplar a educação, o
intercâmbio, a cooperação, a pesquisa, o planejamento, o processo de decisão e
a prestação de serviços, mas apesar disso, a formação profissional não se
esgota em nenhum mecanismo integrador. Nem mesmo quando os agentes do processo
educacional se encontram nos cenários comuns dos campos de prática do contexto
universitário(13) .
A interação precoce entre disciplinas do ciclo básico com o profissionalizante
gera maior satisfação nos alunos, favorecendo o espírito crítico, a correlação
da prática com a teoria e o compromisso do aluno com o processo de ensino-
aprendizagem. A inovação das estratégias pedagógicas e a parceria entre
docentes de diferentes disciplinas ajuda a supera o ensino tradicional(14) .
No entanto, a organização tradicional da universidade tem a lógica das
disciplinas e, as disciplinas isoladamente não dão conta de produzir as
respostas necessárias a um mundo que é composto de uma multiplicidade de
fatores, que não são mutuamente excludentes e sim explicados uns em relação aos
outros. O mundo não é feito de coisas isoladas, existe uma complementaridade de
dimensões. A compreensão desse mundo exige uma visão da realidade que
transcenda os limites disciplinares.
O currículo integrado favorece as questões mais vitais e, por conseguinte, as
questões conflituosas passam a ser enfrentadas, em virtude de sua
característica interdisciplinar, justamente porque essas questões não estão
confinadas nos limites de uma disciplina. Ele contribui para a criação de
hábitos intelectuais que possibilitem levar em consideração as intervenções
humanas de todas as perspectivas, facilitando a compreensão dos fenômenos,
situações e processos, e, permite a visibilidade dos valores, ideologias e
interesses presentes em todas as questões sociais e culturais. Também, favorece
a partir do trabalho interdisciplinar, para que o(a)s professore(a)s sintam-se
partícipes de uma equipe com metas comuns, de forma cooperativa(15).
Cada vez mais diferenciam-se e ampliam-se as áreas de saber. O fazer
profissional demanda conhecimentos diversos que, sob distintas perspectivas,
coexistem na busca de integrar o homem em suas várias dimensões como, por
exemplo, biológica, política, social, filosófica, religiosa. A razão, a emoção,
a quantidade, a qualidade, o técnico, o ético, o estético, o econômico, o
político, o cultural e o científico convivem como saberes que se diferenciam,
mas interrelacionam-se na tentativa de apontar caminhos que possibilitem a
compreensão do homem e, sobretudo, o respeito a sua dignidade(16) .
A despeito da crítica de que a divisão disciplinar do conhecimento é incapaz de
dar conta da problemática social, a matriz disciplinar persiste como
instrumento de organização e de controle, entretanto o fato de os currículos se
organizarem em uma matriz disciplinar não impede que se criem diferentes
mecanismos de integração, seja pela criação de disciplinas integradas, seja
pela tentativa de articulação de disciplinas isoladas(17) .
5 Considerações Finais
O confronto dos problemas cotidianos, o reconhecimento da diversidade dos
sujeitos, o compartilhamento do poder são os principais desafios para a
conquista de um currículo integrado. Para construir um projeto de fato inovador
e condizente com as novas diretrizes curriculares é preciso avaliar o
currículo, a cultura escolar, a história das disciplinas, as concepções
existentes no interior da instituição e o processo de trabalho como um todo.
Onde a mudança na organização curricular por meio de áreas interdisciplinares,
temas transversais, áreas de projeto, assume posição central.
Apesar de valorizarem a integração curricular enquanto um aspecto muito
importante da formação crítica do enfermeiro, alguns docentes consideram um
risco desarticular o currículo disciplinar. Há uma preocupação concreta com a
fragmentação do conteúdo e consequentemente com o próprio processo de trabalho
docente, decorrente da crise no ensino superior, onde prevalece um sistema de
avaliação baseado numa lógica produtivista, em que a quantidade de trabalho é
estimulada em prejuízo da qualidade. Tal lógica, contrapõe-se aos princípios de
um ensino crítico e integrador, levando o trabalho docente ao isolamento e a
competitividade.
Construir um currículo integrado representa associar sentido ao saber;
criatividade à razão, unir disciplinas e concepções diversas; reconhecer
parcerias, interagir com diferentes culturas, ampliar continuamente as formas
de participação.