O papel da arte nos centros de atenção psicossocial - CAPS
1 Introdução
O CAPS como estratégia de cuidar em saúde mental vem sendo utilizado no Brasil
desde o final da década de 80, sendo considerado o dispositivo assistencial
prioritário para a substituição dos manicômios. Desde a primeira experiência,
CAPS Luiz Cerqueira - Santos, 1988, a idéia de CAPS vem mexendo com o ideário
nacional, ampliando os horizontes da clínica para incorporar a dimensão
psicossocial. Abandonou-se o conceito de doença, passando-se a utilizar o de
problemas. Essa nova perspectiva impõe o desenvolvimento de ações voltadas para
a promoção da cidadania e inclusão dos doentes mentais. No CAPS, a arte vem
sendo utilizada como recurso para as novas terapêuticas implementadas, mas,
muitas vezes, a apropriação do seu campo conceitual pelos profissionais de
saúde mental ainda ocorre de forma elementar.
O CAPS, no contexto das políticas públicas em saúde mental, surge, não como um
modelo assistencial, mas como um projeto que se lança para o futuro, não se
cristalizando numa estrutura de saber/poder, mas se constituindo e construindo
continuamente a partir das exigências cotidianas dos seus usuários.
De um modo geral, os CAPS atendem a uma clientela de saúde mental considerada
grave, tendo o objetivo de manter o cliente em tratamento extra-hospitalar,
vinculado à família com perspectiva de retomada das atividades de vida diária,
interativas e sociais(1).
Parece claro que a resolução dos problemas em saúde mental requer a conjugação
de diferentes interesses. Decisões sobre os caminhos e arranjos a serem
seguidos são atribuídos a um conjunto de atores sociais, incluindo
profissionais, clientes, familiares e os diferentes organizações engajadas no
projeto de ressocialização.
Nos CAPS tem surgido a preocupação com o desenvolvimento de novas tecnologias
de cuidar para a resolução de problemas no campo das relações e convivência com
a loucura, em substituição à medicalização centrada na expressividade de
sintomas.
Nestes serviços o que está em pauta para os profissionais de enfermagem
psiquiátrica é a necessidade de construir vínculos, de acolher o sofrimento, de
construir uma prática criativa solidária e saber transitar por um conhecimento
ecocêntrico, complexo, multidimensional, que privilegie o intercâmbio entre
vida e idéias (2) .
O desafio posto para os profissionais de saúde mental é superar essa histórica
fragmentação do saber, partindo para a construção de tecnologias de cuidado que
articulem a existência singular do sujeito ao meio (ambiente e social) no qual
convive (3) . Para isso, há necessidade de compreendermos o contexto mais
global e até mesmo ritualístico em que se insere a prática de saúde mental. Uma
prática que tem na produção da subjetividade, no imaginário social e na
criatividade um dispositivo singular para a criação, promoção de cuidados e
qualidade de vida. Uma prática que cria territórios onde o indizível possa ser
expresso, onde o invisível possa ser tocado, onde o que chamamos de delírio e
alucinação possam ganhar consistência, saindo do plano virtual para o real (4)
.
Há, historicamente, três grandes tendências para se entender como as alterações
mentais são produzidas, a saber: a causa orgânica, a psicológica e a magia.
Embora esta última não faça parte da Psiquiatria como campo científico de
saber, habita ainda hoje o imaginário social e o senso comum.
Com a evolução da Psiquiatria, instauraram-se como correntes as teorias
psicossociais da loucura e as teorias organicistas, contudo ainda existe sobre
a doença mental uma aura de magia, ela ainda é vista, como nos mais remotos
tempos, como doença da alma. Esse parentesco da loucura com a magia pode ser
positivamente enfrentado pela arte. Pois a arte em sua origem foi magia, foi um
auxílio mágico à dominação de um mundo real inexplorado (5).
Mas a arte também incita à ação, também é trabalho, é um trabalho mágico que
transforma a natureza, para dar-lhe nova forma, novas possibilidades. É
necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo (5) .
A relação da arte com a psiquiatria data do século XIX. No Brasil, esta relação
vai ser alimentada, em São Paulo, por Osório César e, no Rio de Janeiro, por
Nise da Silveira na década de 30.
A análise dos trabalhos sob o tema - Expressão artística e ato terapêutico -
inscritos no I congresso de Saúde Mental do estado do Rio de Janeiro, 1996,
demonstra, além do grande interesse desta área temática, uma diversidade de
sentidos que a associação arte/terapia alcançou no campo da saúde mental. A
partir do discurso presente nos trabalhos evidencia-se duas formas de
compreender a relação arte/terapia. Uma associa a idéia de arte à de liberdade
e a outra ressalta a capacidade da arte de promover integração social,
restaurando, assim, a capacidade socializadora do homem(6).
A tendência atual é a utilização da arte como produtora de subjetividade,
catalisadora de afetos, engendradora de territórios, embora haja indefinição
por parte dos profissionais da área quanto às formas de compreensão da relação
arte/terapia.
São considerados pontos de debate a relação existente entre arte e trabalho,
arte e cura, arte e cuidado, arte e humanização da assistência, arte e
reabilitação, colocando-se em questão o lugar da arte e da criação no mundo
contemporâneo.
Em sua dimensão social a arte possibilita experiências socializadoras e
compartilháveis. A arte é tida como meio de produção e inserção social das
pessoas portadoras de transtornos mentais (6-10).
A dificuldade básica posta pelo objeto em estudo á a falta de literatura que
relacione a arte e a psiquiatria no contexto atual dos CAPS, já que a arte por
seu uso nas instituições asilares gerou certa recusa desta abordagem entre os
reformadores psiquiátricos. Assim sua relação com a prática de cuidar em saúde
mental foi diluída no contexto das oficinas terapêuticas ou das atividades
terapêuticas.
A partir dessa contextualização, pergunta-se como se dá a apropriação de
atividades de base artística pelos profissionais de saúde mental no cotidiano
de cuidar dos usuários dos CAPS ?
Para resposta à questão proposta foi traçado como objetivo: analisar o papel da
arte no desenvolvimento do cuidar no CAPS.
Espera-se com este trabalho dar visibilidade ao processo de implementação de
atividades de cuidar em saúde mental de base artística, e auxiliar na
construção de um modelo criativo de atenção à saúde mental, contribuindo para a
análise e avaliação de experiências inovadoras com arte junto aos usuários de
CAPS. O estudo possibilitará a apropriação das experiências analisadas por
outros serviços de saúde mental, evidenciando-se a necessidade de qualificação
específica em arte dos profissionais de saúde mental.
2 Caminhos metodológicos
Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória de campo, cuja preocupação
central é analisar as práticas terapêuticas e reabilitadoras de base artística
utilizadas pelos diversos profissionais de saúde mental no CAPS, com objetivos
ligados à teoria, à prática, a eficácia clínica e a formação profissional. O
objetivo da investigação centra-se na compreensão dos significados atribuídos
pelos profissionais de saúde mental às ações que desenvolvem no CAPS mediados
pela arte.
A metodologia desta pesquisa inclui como concepções teóricas de abordagem a
multirreferencialidade teórica, com ênfase nos pressupostos da Reforma
Psiquiátrica.
Para investigar o que é cuidar com arte nos CAPS, utilizou-se o método de auto-
relato, mediante a entrevista estruturada, incluindo perguntas abertas e
fechadas.
Utilizou-se a triangulação de dados para analisar dados objetivos e subjetivos,
o que permitiu a correção dos "bias" de cada tipo de análise. Através da
integração de diferentes dados e modos de análise, as deficiências de um único
método podem ser reduzidas ou ultrapassadas, permitindo um realce potencial da
validade das descobertas do estudo. A integração de dados qualitativos e
quantitativos propicia melhores oportunidades para o teste de interpretação
alternativa dos dados, para o exame do quanto o contexto ajudou a moldar os
resultados e para a chegada à convergência no exame de um constructo (11).
Em respeito aos aspectos éticos da pesquisa, submeteu-se o projeto de pesquisa
ao Comitê de Ética, que emitiu parecer favorável à realização do trabalho.
Todos os sujeitos integrantes da amostra foram informados sobre os objetivos da
pesquisa e concordaram em participar dela, atendendo-se à Resolução no196/96
sobre pesquisa envolvendo seres humanos.
Os sujeitos do estudo foram 25 profissionais de saúde mental que atuam nos CAPS
de adultos do Município do Rio de Janeiro. Durante a análise dos dados
utilizaremos para efeito de identificação das entrevistas, (P) para
profissional e (C) para coordenador de CAPS.
Para análise qualitativa dos dados, foi utilizada a técnica de análise temática
para identificação das categorias referentes.
3 Análise e discussão dos resultados
A arte é reconhecida, desde muito tempo, como a manifestação mais
autenticamente libertadora e realizadora da nossa condição humana (5, 12-14).
No que tange à implementação de novos dispositivos assistenciais em saúde
mental, a arte oferece a possibilidade de reinvenção da existência do doente
mental como potência agenciadora de singularidades no processo de construção da
cidadania.
A valorização da arte enquanto fonte de inspiração e forma de cuidar não é
novidade no campo da saúde mental. Tomando-se por base os dados até aqui
apresentados, constatamos serem múltiplas e diversas as referências teóricas
sobre o lugar da arte na prática de cuidar nos CAPS. Apesar disso, precisamos
considerar que os sentidos atribuídos até o momento não esgotam os sentidos
possíveis para a arte.
Os profissionais do CAPS referem que os motivos que os levaram a adotar
atividade de base artística no cuidar relaciona-se ao papel ou função da arte
por eles percebida: favorecer a comunicação com o paciente; permitir a
expressão de emoções e sentimentos; promover a reabilitação; assegurar um
espaço de novas experiências para o paciente; possibilitar a construção
subjetiva; favorecer a circulação de afetos e de ferramenta terapêutica.
Entre os motivos referidos, ressalta-se a função da arte como mediadora e
facilitadora da comunicação com o usuário, conforme exemplificamos nos
depoimentos a seguir.
A arte é um instrumento útil para intermediar os contatos pessoais e
afetivos entre os usuários(P1).
A arte é um veículo de contato e resgate da história do sujeito(P2).
A atividade de base artística é um canal de comunicação e expressão
dos usuários do serviço(P6).
A arte ou a atividade de base artística é tida pelos profissionais dos CAPS
como um recurso na comunicação com o paciente, confirmando que o fazer
artístico proporciona, de forma rápida e eficaz, pontes para a
intersubjetividade, para um contato rico, íntimo e profundo, pois ela ajuda à
expressão daquilo que mal se vislumbra, que é nebuloso, ou que é complexo e
implica uma apreensão simultânea de várias facetas e níveis de significado. Ela
permite a expressão de conteúdos que não respeitam a ordenação lógica e
temporal da linguagem (15) .
O campo da saúde mental é o que mais evidencia as alterações no processo de
comunicação, sendo consenso entre os profissionais da área que a comunicação é
por si só um importante instrumento de intervenção.
Na articulação com a clínica, a comunicação evidencia-se como componente
central, uma vez que toda tecnologia e processo de cuidar na psiquiatria
depende das interações e relações intersubjetivas estabelecidas entre os
terapeutas e os usuários (16) .
Para ser terapêutica, a comunicação precisa estar voltada para a preservação, a
compreensão, o respeito, a cordialidade, a aceitação do paciente (17) .
A comunicação terapêutica é descrita como habilidade profissional para ajudar
as pessoas a enfrentar seus problemas, a relacionarem-se com os demais, a
ajustarem-se ao que não pode ser mudado e a enfrentar os bloqueios à auto-
realização (18) .
Decifrar e perceber o significado da mensagem que nos é enviada é nossa tarefa
como profissionais de saúde mental. Para tanto, precisamos estar atentos aos
sinais de comunicação verbal e não verbal emitidos, que transmitem idéias,
impressões e imagens de toda ordem. Muitos destes conteúdos, jamais conseguem
expressar-se por palavras, expressões faciais ou corporais, daí a importância
da introdução de objetos, materiais e atividades na comunicação (19) .
Assim, a comunicação terapêutica, como um instrumento do cuidar, diminui a
ansiedade do sujeito, levando-o a compreender suas limitações e as do meio,
passando a adotar formas mais eficazes de interação.
Outro papel apontado para a arte seria o de permitir a expressão de emoções,
conforme podemos observar a seguir:
A atividade de base artística é um espaço para expressão, ela melhora
a auto-estima do paciente(P4).
A arte é um canal de expressão dos usuários do serviço(P6).
A atividade de base artística é um canal de comunicação e expressão
dos usuários do serviço(P6).
A arte é um canal que denuncia conflitos e/ou harmonização das
emoções de nossos clientes(P7).
A arte faz parte do ser, é um caminho para a expressão do paciente
(C3).
A doença mental parece ser o congelamento da expressão. A loucura deixa o
sujeito ancorado num silenciamento. Bloqueado o seu canal de expressão, o
sujeito se sente desqualificado para falar e fazer-se compreender. Através da
atividade de base artística, o indizível encontra um meio para sua
manifestação.
A arte é um processo privilegiado porque possibilita ao sujeito evitar
armadilhas, como a das palavras, que são apaziguadoras das emoções, colocando-
o num movimento de inventividade no qual pode não só inventar objetos, mas
também a vida, o futuro e novas possibilidades existenciais (20).
A expressão consiste em relacionar certos dados atuais ou presentes a objetos
ocultos ou distantes, é uma maneira de exteriorizar pensamentos e sentimentos
(21). A expressão, assim, é o conjunto de efeitos exteriores da consciência,
efeitos que são sintomas de processos interiores ou sinais de estados
psíquicos, sentimentos e emotivos.
Há uma preocupação entre os profissionais do CAPS em, de fato, ampliar os meios
para escuta do paciente. E a arte parece ser um canal de escuta sensível das
emoções e reações subjetivas do paciente, não com o intuito de interpretá-la,
como o fizeram os terapeutas decifradores de imagens, mas como possibilidade de
reinvenção de suas existências. Outro motivo apresentado é que as experiências
artísticas possibilitam a construção subjetiva do paciente:
Compreendo que há uma possibilidade de construção subjetiva, singular
através da arte(P10).
Através da arte, podemos construir muitas subjetividades(P14).
Só ao nível do verbal você não consegue retirar o paciente do
fechamento. Na oficina, por meio da produção artística, o sujeito
pode criar sem ser criticado. Não é o valor estético do seu trabalho
que está em jogo, mas a possibilidade de expressão subjetiva(C1).
Entendo que a construção coletiva, à qual se referem os profissionais, está
relacionada à linguagem psicanalista, com forte influência nas atividades
propostas nos CAPS.
Esta clínica entende o sujeito como um ser aberto a pluralidade das produções
que a cultura oferece, aberto a criação de modelos novos de subjetividade,
através dos quais os sujeitos se pensam, se sentem, se produzem de forma
diferente (22).
Compreende-se que a arte pode possibilitar esta construção por permitir ao
sujeito vivenciar outras realidades, conhecer outra forma de ver e imaginar o
mundo. Ajudando o sujeito a ser agente de produção de subjetividade e produtor
de mecanismos de subjetivação.
A arte no CAPS favorece a troca e a circulação do afeto:
A arte funciona como mediadora dos contatos entre os usuários e a
equipe técnica e dos usuários entre si, possibilitando o contato
afetivo(P3).
Mais importante que a atividade de base artística em si, é a
circulação de afetos que ela possibilita(P1).
Entendemos que, com isso, os profissionais estão querendo dizer que, por meio
da ação artística no cuidar, profissionais e pacientes se encontram,
identificando-se pela sensação que flui da arte, diminuindo, como humanos a sua
solidão. Há troca de afetos, só o sujeito afetado pode efetivamente escutar o
outro e acolhê-lo.
O relacionamento afetivo com o profissional leva ao paciente a um contato
melhor com o ambiente. A arte catalisa a coordenação das emoções, permitindo a
construção de uma síntese, que é a convivência marcada pelo afeto.
A volta à realidade depende, em primeiro lugar, de um relacionamento confiante
com alguém, relacionamento que se estenderá aos poucos contatos com outras
pessoas e com o ambiente (23) .
A arte nos CAPS promove a reabilitação dos portadores de sofrimento psíquico,
atribuindo-lhe a partir de sua produção artística e cultural, valor social de
troca e possibilitando-lhe a geração de renda:
A arte atende a necessidade dos usuários acerca da produção. Eles têm
necessidade de fazer algo com valor social(P12).
Os usuários estão atrás de um valor comercial para o seu produto
artístico(P3).
A arte melhora sua auto estima(P4).
As diversas formas de manifestação artística são relevantes no
processo de reabilitação psicossociall(P13).
Gostaria que arte fosse melhor explorada no CAPS que coordeno,
infelizmente a equipe daqui parece não se identificar muito com esta
linha de trabalho. Acho que a arte possui grande valor como geradora
de renda para o paciente(C2).
Quando ele faz alguma coisa nas oficinas que considera bom ou bonito,
ele quer logo vender, quer trocar, que mostrar que faz coisa de
valor. A arte no CAPS assumiu essa finalidade produtiva e é também um
lugar social para o paciente(C3).
A arte possui o papel de promoção artística do paciente e de geração
de renda(C4).
Minha motivação na escolha da atividade de base artística como
prática de cuidar se deu em função da própria produção escrita dos
pacientes, como a poesia, a composição, etc... Existe um interesse do
próprio paciente em usar a arte como forma de expressão(P7).
O valor da arte na reabilitação está na possibilidade do paciente, como
cidadão, utilizar os aspectos sadios de sua personalidade para conquistar
espaços sociais.
A reabilitação psicossocial é um processo de reconstrução do exercício da
cidadania e de conquista da contratualidade em três principais cenários:
habitat, rede social e trabalho com valor social. A arte por si só não promove
a reabilitação, apenas uma etapa de sua construção pode passar por ela, ou pela
produção artística (24) .
Entende-se que as atividades e as oficinas do CAPS possuem esta finalidade,
constituindo-se em uma das etapas necessárias para, destruindo a cronicidade,
aumentar a capacidade do paciente estabelecer trocas com a comunidade.
Embora menos referida, arte também desempenha no CAPS o papel de ferramenta
terapêutica da clínica:
A utilização da arte surge como uma necessidade terapêutica, uma
demanda do próprio usuário(P8).
A arte funciona como um veículo de contato e resgate da história do
sujeito(P2).
Vejo a arte como expressão e elaboração dos processos terapêuticos
(C4).
O paciente que chega ao CAPS, às vezes se sente ameaçado por
encontrar tanta gente disponível. Para reabilitá-lo, é preciso
colocá-lo em grupo, com materiais artísticos disponíveis, para que
ele possa sentir que existe ali, coisas disponíveis e legais ao seu
favor e possíveis de serem escolhidas e controladas por ele(C1).
A função terapêutica da arte, que no passado justificava sua apropriação pela
psiquiatria, hoje não constitui em seu papel fundamental, outras possibilidades
foram apreendidas. O CAPS é mesmo um lugar de reabilitação, não só de
pacientes, mas também de profissionais e das técnicas. A mudança de foco, do
sintoma para o sujeito, ao meu ver, é que faz toda essa diferença.
Aqui não poderia deixar de mencionar que o papel terapêutico da arte perpassa
todos os demais papéis e finalidades, por envolver a utilização, os
conhecimentos ou mesmo os fundamentos de base artística nas proposições do
cuidar, tenha ele o sentido da clínica ou da reabilitação.
Para os profissionais dos CAPS, a arte deixa de revelar a essência oculta do
sujeito, também não se apresenta como um veículo de expressão da verdade
interior do indivíduo, seu principal papel, é engendrar novas possibilidades
existenciais(6).
A arte no CAPS possui uma função muito mais social do que clínica, sendo a sua
função transcendente e estética menos valorizada.
4 Considerações finais
A arte é conhecida como um valor pelos profissionais e coordenadores dos CAPS,
mas o valor da arte não é explicitado, nem reconhecido como campo de saber
científico, pois todos dizem usar essa abordagem sem possuir uma formação
correspondente para isso, ou seja, há apropriação empírica ou do senso comum da
arte pelos profissionais dos CAPS, até mesmo porque, de fato, o discurso
científico não perdeu seu lugar junto às práticas clínicas em saúde mental.
Ficou evidenciado que a arte é uma abordagem fundamental do cuidar nos CAPS,
assumindo o papel de favorecer a comunicação, de permitir a expressão de
emoções, de promover a reabilitação, de assegurar um espaço para novas
experiências, para a construção subjetiva, para circulação de afetos e como
ferramenta terapêutica. A arte é, portanto, um agenciador de novas
possibilidades existenciais para os pacientes e para os profissionais, é um
lugar de experimentação, troca de afeto e reabilitação. Não tendo, como no
passado, o papel de revelar a essência oculta do sujeito.
Os profissionais de saúde mental buscam realizar no CAPS uma proposta clínica
que gere novas possibilidades existenciais para pessoa em sofrimento psíquico e
que, ao mesmo tempo, promova a sua valorização social.
As novas formas de cuidar engendradas por esses profissionais são múltiplas,
indo desde a percepção de que a oferta de uma roupa limpa e um banho podem
melhorar o estado de agitação de um paciente até promover a comercialização das
obras produzidas por um paciente.
Entendemos que estas formas de cuidar constituem a arte de cuidar nos CAPS,
pois estão fundadas numa visão sensível, emocionada, intuitiva, aberta ao devir
e estética da vida.
A relação entre arte e loucura está ligada à necessidade humana de realização,
de felicidade, de completitude. A arte nos permite ver mais amplamente o mundo
à nossa volta e, ao mesmo tempo, é mergulho na nossa própria intensidade e
desejo de realização de nossa diferença. Fazer a diferença ou marcar a
diferença parece ser o objetivo de nossa existência, de nossa vida. A arte e a
loucura são o fruto dessa suprema lucidez, dessa necessidade de realização, de
aceitação, de encontro, de vôo, mergulho e transcendência, mas também de
experiência do vazio de sentido, do conflito, do hiato e da dor de estar no
mundo.
A arte no CAPS é tomada como atividade meio e não atividade-fim. Ela serve de
facilitadora para o alcance de propósitos tidos como "fim" no CAPS, como, por
exemplo, a reabilitação psicossocial, ela serve como fonte de inspiração para
geração de renda.
O uso da abordagem da arte no CAPS se justifica pela necessidade de fundamentar
a prática de cuidar em saúde mental numa perspectiva mais humana, mais
criativa, mais preocupada com a qualidade de vida.