Efeito do lipopolissacarídio bacteriano sobre o esvaziamento gástrico de ratos:
avaliação do pré-tratamento com dexametasona e azul de metileno
EXPERIMENTAL GASTROENTEROLOGYINTRODUÇÃO
O lipopolissacarídio (LPS) bacteriano determina, em animais, retardo do
esvaziamento gástrico (EG) de líquidos e sólidos(20, 36). Em ratos, utilizando
a via intravenosa (iv) e doses menores de LPS, o retardo do EG de uma refeição
líquida foi precoce, intenso nas primeiras horas e correlacionado com a dose
(8). Estudo adicional demonstrou que o pré-tratamento com o próprio LPS aboliu
este efeito, reproduzindo para o EG, o fenômeno de tolerância precoce, já
descrito para outras alterações produzidas pela endotoxina(9). Muitos dos
efeitos do LPS em animais podem ser atribuídos a fatores liberados na fase
aguda da inflamação, estando entre estes as citocinas(4, 12, 18, 39) e óxido
nítrico (ON)(35). Há evidências da participação do ON nos mecanismos
fisiológicos de relaxamento do piloro(28), fundo gástrico(3, 10) e duodeno(24).
O fenômeno inibitório da atividade motora da musculatura lisa decorreria da
ativação da guanilato-ciclase solúvel, na célula muscular, pelo ON produzido
nesta célula a partir da ligação do VIP, liberado nas terminações não-
colinérgicas não-adrenérgicas entéricas, com receptores localizados na membrana
celular(15, 23, 31). A síntese do ON a partir de L-arginina depende da ação das
ON-sintetases (ONS) constitutivas, ONS I (ou nc-ONS) e ONS III (ou ec-ONS)
presentes no sistema nervoso e endotélio vascular, respectivamente, e da ONS II
(ou i-ONS), induzida pela endotoxina ou citocinas(13, 25).
O azul de metileno (AM) foi considerado e utilizado inicialmente, in vitro,
como bloqueador seletivo da guanilato-ciclase em tecido muscular liso(7, 31).
Está claro atualmente que também inibe as ONS e inativa diretamente o ON(21). O
pré-tratamento com glicocorticóides bloqueia a indução da ONS II nas células
endoteliais, musculares lisas, macrófagos e fibroblastos(13, 19, 29). Também os
glicocorticóides, de acordo com o tipo, concentração e biodisponibilidade, são
potentes inibidores da expressão das citocinas, tanto ao nível de transcrição
como após transcrição(1, 38).
Este estudo teve como objetivo avaliar, in vivo, o efeito do pré-tratamento com
dexametasona (DEX) e com AM sobre o fenômeno de retardo do EG determinado pelo
LPS em ratos.
MATERIAL E MÉTODOS
Animais
Foram utilizados ratos Wistar, machos,''specific patogen free'', com 8-10
semanas de vida, pesando entre 220-280 g, fornecidos pelo Biotério Central da
Universidade Estadual de Campinas. Antes do estudo, os animais permaneceram
pelo menos 2 semanas adaptando-se às condições do laboratório, com temperatura
entre 22°C e 26°C, ritmo de luz e penumbra de 12/12 horas, recebendo ração
(Labina, Purina) e água ad libitum. No planejamento e execução da pesquisa,
foram obedecidas as recomendações do COBEA (Colégio Brasileiro de
Experimentação Animal).
Drogas
Foram utilizadas: LPS de E. coli, cepa 055:B5 (Sigma), na concentração de 50
mg/mL, solução de DEX (Decadron, Prodome) na concentração de 3 mg/mL e solução
de AM (Sigma) na concentração de 2 mg/mL. Solução salina estéril e livre de
pirogênio foi empregada como veículo na preparação das diluições. Em todos os
estudos, os volumes do veículo e de cada solução administrada por via iv,
utilizando uma das veias da cauda, para cada animal e para cada aplicação,
foram equivalentes. A dose de LPS utilizada para o tratamento em todos estudos
foi de 50 mg/kg de peso do animal.
Delineamento experimental
Os estudos foram realizados entre 14 e 17 h do dia, após 24 horas de jejum
alimentar, com os animais tendo livre acesso à água, suspenso no momento da
prova.
Foram feitos três estudos do efeito da administração prévia da DEX (Figura_1).
Cada estudo foi formado de um grupo-controle (C) pré-tratado com salina e outro
grupo em que o pré-tratamento foi feito com DEX. No primeiro estudo (E1h) foi
utilizado DEX na dose de 6 mg/kg, o intervalo entre o pré-tratamento e o
tratamento foi de 1 hora e a avaliação do EG foi feita 1 hora após o
tratamento. Nos segundo e terceiro estudos, empregou-se DEX 3 mg/kg. No segundo
estudo, o intervalo de tempo entre o tratamento e a avaliação do EG foi de 2
horas (E2h) e no terceiro foi de 8 horas (E8h). Nestes dois últimos, o
intervalo entre o pré-tratamento e o tratamento foi de 10 minutos. Em cada
estudo, cada grupo foi formado de dois subgrupos de oito animais cada: o grupo-
controle formado com o subgrupo CS, em que os animais receberam solução salina
em duas oportunidades e com o subgrupo CLPS, em que, após administração de
salina, os animais receberam LPS; o grupo pré-tratado com DEX formado com o
subgrupo DEXS, em que os animais receberam DEX e, a seguir, solução salina; e
com o subgrupo DEXLPS, em que, após administração da DEX, os animais receberam
LPS. Após intervalo de 1, 2 e 8 horas do tratamento nos estudos E1h, E2h e E8h,
respectivamente, foram feitas avaliações do EG.
Na observação do efeito do pré-tratamento com AM (2 mg/kg de peso), os animais
foram também divididos em dois grupos: C pré-tratado com salina e outro grupo
em que o pré-tratamento foi feito com AM. Cada grupo foi dividido em dois
subgrupos de oito animais cada: o C, formado com subgrupo CS, em que os animais
receberam salina em duas oportunidades e com o subgrupo CLPS, onde os animais
receberam solução salina e, a seguir, LPS; o grupo pré-tratado com AM foi
formado com o subgrupo AMS, em que os animais receberam salina após a
administração de solução de AM e com o subgrupo AMLPS, onde os animais
receberam LPS após administração do AM. O intervalo entre o pré-tratamento e o
tratamento foi de 10 minutos. Uma hora após o tratamento, foi feita avaliação
do EG (Figura_1).
Esvaziamento gástrico
Como refeição de prova (RP) foi utilizada solução de NaCl 0,9% (p/v) marcada
com fenol vermelho (6 mg/dL). Em todos os experimentos, a determinação do EG
foi feita indiretamente, em ratos acordados, através da determinação da
percentagem de retenção gástrica (RG) da RP, 10 minutos após sua administração
orogástrica, utilizando técnica padronizada no laboratório(2, 5).
Análise estatística
Na análise estatística foi empregada ANOVA, seguida, quando indicado, do teste
de Tukey na comparação entre os pares. O valor de a foi estabelecido em 5%.
RESULTADOS
Os resultados da RG são apresentados em média ± erro padrão da média (epm) nas
Figuras_2, 3, 4, 5.
Nos animais pré-tratados com DEX ou AM e tratados com salina, os valores da RG
não diferiram significativamente dos observados nos seus CS. Em todos os
estudos, os animais pré-tratados com salina e tratados com LPS apresentaram
valores da RG significativamente mais elevados que aqueles observados nos
controles.
Constatou-se que em E1h e E2h (Figuras_2, 3), o pré-tratamento com DEX, mesmo
com dose mais elevada ou até 2 horas após a administração do LPS, não
interferiu no retardo do EG induzido pela endotoxina. Os valores da RG no
subgrupo DEXLPS não diferiram significativamente dos observados no subgrupo que
não recebeu DEX (subgrupo CLPS). No estudo E8h (Figura_4), o glicocorticóide
reduziu significativamente a RG induzida pela endotoxina (DEXLPS vs CLPS)
indicando bloqueio do efeito do LPS sobre o EG. O resultado no subgrupo DvLPS
também não diferiu significativamente do observado no respectivo controle
(subgrupo DEXS).
Na Figura_5, são apresentados os resultados da RG no estudo do efeito do AM.
Pode ser observado que administração prévia de AM reduziu significativamente a
RG da refeição, nos animais tratados com endotoxina (AMLPS vs CLPS). A redução
do efeito da endotoxina foi suficiente para que o subgrupo AMLPS não diferisse
significativamente do seu controle (subgrupo AMS).
DISCUSSÃO
Os sintomas como anorexia, náuseas, vômitos e saciedade precoce são
manifestações comuns nos processos infecciosos. Acompanhando estes sintomas,
tem sido observado retardo do EG que, em parte, pode explicá-los. A indução
desta alteração funcional do estômago em animais, com o emprego do LPS, vem
sendo utilizada como modelo de estudo dos mecanismos envolvidos no retardo do
esvaziamento em infecções(8, 20). Contudo, até o momento, possivelmente em
razão da complexidade do fenômeno, estes mecanismos não estão claramente
definidos. Como fator adicional que dificulta o entendimento, destaca-se nos
estudos disponíveis na literatura a falta de uniformidade quanto às doses de
LPS, às vias de administração e ao momento em que foram feitas as observações
in vivo ou in vitro, dificultando a comparação dos resultados.
É conhecido que a endotoxina estimula a síntese ou a liberação de várias
citocinas da fase aguda da infecção ou injúria(4, 12, 18, 39). Recentemente,
HERMANN et al.(17), estudando o efeito da endotoxina iv sobre o EG, após 60
minutos, concluíram que o fenômeno de retardo seria conseqüência da ação do
fator de necrose tumoral alfa (TNF-a) sobre o complexo dorsal do vago.
Observações indicam que a dexametasona liga-se preferentemente a receptores
tipo II e suprimem o aparecimento do fator de necrose tumoral (TNF)(37, 38).
Entretanto, o efeito máximo de supressão foi demonstrado quando o intervalo
entre a administração da dexametasona e o LPS foi de 5 horas(37). Sendo assim,
como nos estudos E2h e E1h o pré-tratamento com o corticoesteróide foi feito 10
minutos e 1 hora antes do tratamento, respectivamente, o fenômeno poderia ser
imputado à ação do TNF-a no sistema nervoso central (SNC), como sugerido por
HERMANN et al.(17).
Contudo, há indicações de que a via aferente vagal é rota de atuação das
citocinas no SNC(22). Como evidência da possibilidade de participação desta
via, foi observado recentemente que a abolição da via sensitiva aferente do
vago, com capsaicina, bloqueia o efeito da endotoxina sobre o EG de sólidos em
ratos(6).
Em contradição com o que aqui foi encontrado, TURNER e BERRY(36), utilizando
intervalos de tempos semelhantes, demonstraram em camundongos, utilizando
cortisona, bloqueio do efeito no EG da administração intraperitonial de uma
suspensão morta de S. typhimurium. Levando em conta a via de administração e a
natureza do estímulo, é provável que esses tenham interferido num fenômeno
diferente do aqui estudado.
Por outro lado, o pré-tratamento com AM diminuiu significativamente o efeito do
LPS sobre EG, 1 hora após o tratamento. Como o AM bloqueia de forma não
específica a geração e ação do ON(21, 27), este resultado sugere a
participação, numa condição não-fisiológica, in vivo, deste gás no efeito da
endotoxina sobre o esvaziamento. Numa primeira possibilidade, o ON seria gerado
no sistema vascular, através da ativação da ONS III constitutiva. O LPS em
doses extremamente elevadas via iv (mais de 200 vezes em relação à empregada
neste estudo) determina agudamente, em ratos, hipotensão arterial sistêmica e
diminuição da reatividade vascular aos vasoconstrictores. Este efeito é
bloqueado com emprego de um antagonista de L-arginina, sugerindo a participação
da ONS III(16, 34). Esta possibilidade, contudo, parece pouco provável, visto
que a hipotensão arterial, em conseqüência à perda aguda de volume sangüíneo em
ratos, aumenta o EG(14). Sendo assim, uma segunda possibilidade é que a geração
do ON seja decorrente da atividade da ON-sintetase constitutiva ONS I, ativada
via não-adrenérgica não-colinérgica.
Em adição, foi também observado no presente estudo, que a DEX foi capaz de
inibir o efeito mais tardio da toxina (8 horas após), sugerindo que, nesta
fase, há necessidade da indução de um sistema que envolva ativação ou síntese.
Sendo assim, estes resultados poderiam ser interpretados como devidos
exclusivamente à supressão das citocinas pelo corticoesteróide, tendo como
conseqüência a ausência de estímulo inibitório via vago e/ou circulatória do
SNC. Contudo, a supressão mais efetiva das citocinas só foi conseguida com a
administração crônica ou quando o intervalo entre a administração da DEX e o
LPS foi de horas(26, 37).
Há muitas evidências que sugerem que este efeito tardio da DEX seria decorrente
da supressão da produção de ONS II. Assim, o pré-tratamento com DEX bloqueia a
expressão desta enzima no endotélio vascular de ratos tratados com endotoxina
(19, 29). No estômago, foi demonstrada in vitro a indução desta enzima,
utilizando preparações isoladas de fundo gástrico de ratos, incubadas durante 6
horas com LPS, indução esta bloqueada, acrescentando ao banho um inibidor de
síntese protéica(32). Posteriormente, foi demonstrado o mesmo efeito in vivo
empregando o pré-tratamento com aminoguanidina, inibidor específico da ONS II
(33). Sendo assim, a liberação de ON nas células musculares lisas do estômago
seria responsável pelo retardo do EG observado 8 horas após a administração do
LPS. Outra possibilidade seria através da ativação da ONS II em macrófagos da
submucosa gástrica, determinando o relaxamento da camada muscular circular
adjacente, como já demonstrado in vitro(40). Como o estômago proximal, que
inclui o fundo gástrico, participa do EG de líquidos(30), o efeito tardio do
LPS, no presente estudo, poderia ser devido à liberação de ON neste segmento.
Recentemente, um estudo in vitro sugere que, adicionalmente, o LPS
determinaria, pelo menos em parte, retardo do EG em conseqüência da inibição do
relaxamento não-adrenérgico não-colinérgico e aumento da resposta à estimulação
muscarínica do piloro(11).
Como conclusão, os resultados obtidos nesta pesquisa sugerem a possibilidade do
envolvimento do óxido nítrico no retardo do EG produzido pelo LPS in vivo,
inicialmente através da ativação da ON-síntetase constitutiva (ONS I) e,
tardiamente, da induzida (ONS II).