Disponibilidade de água em pomar de citros submetido a poda e subsolagem em
latossolo amarelo dos tabuleiros costeiros
FITOTECNIA
Disponibilidade de água em pomar de citros submetido a poda e subsolagem em
latossolo amarelo dos tabuleiros costeiros1
Water availability in citros orchard, under prunning and subsoiling, on yellow
latosol of coastal table land
Laercio Duarte Souza; Luciano da Silva Souza; Carlos Alberto da Silva Ledo
Engenheiro Agrônomo, D. Sc., Pesquisador, Embrapa Mandioca e Fruticultura,
Caixa Postal 007, Cruz das Almas-BA, CEP 44380-000, laercio@cnpmf.embrapa.br,
lsouza@cnpmf.embrapa.br, ledo@cnpmf.embrapa.br; fone: (75) 621-8045/8033
INTRODUÇÃO
Culturas perenes, como citros, têm importante papel social nos Tabuleiros
Costeiros (TCs). Os Estados da Bahia e Sergipe são, respectivamente, o segundo
e terceiro produtores de citros do Brasil, com pomares instalados neste
ecossistema, ocupando uma área de 103.559 ha, o que representa 11% da área
plantada a nível nacional. O sistema predominante é de pequenos proprietários,
pois 68% das propriedades na Bahia e 86% em Sergipe têm menos de 10 ha (IBGE,
2003).
Os TCs são formações terciárias que aparecem desde o Amapá até o Rio de
Janeiro, na faixa litorânea, onde predominam os solos Latossolos Amarelos e
Argissolos Amarelos e Vermelho-Amarelos, que têm como características camadas
coesas subsuperficiais, que se apresentam muito duras quando secas, e friáveis
quando úmidas (Jacomine et al., 1977). O início das camadas coesas ocorre entre
as profundidades de 0,3 a 0,7 m, sendo a espessura destas camadas de, no
mínimo, 0,5 m (Ribeiro, 1998).
Os pomares instalados nesses solos têm pouco tempo de vida produtiva. A maioria
das plantas com a idade de 12 a15 anos apresenta baixa produtividade de frutos,
sem resposta às práticas usuais de adubação e controle fitossanitário. Entre
outros problemas, questiona-se o fato de o sistema radicular desenvolver-se
sobre as camadas coesas subsuperficiais, que restringem seu desenvolvimento em
profundidade e disponibilizam pequeno volume de solo e água. Cintra et al.
(1999) mostraram que as raízes de cinco diferentes porta-enxertos de citros,
instaladas nos tabuleiros, mantiveram cerca de 60% das raízes nos primeiros 0,2
m e 90% nos primeiros 0,4 m. Outro impedimento ao desenvolvimento das raízes
foi observado por Coelho et al. (1993), que analisaram o solo de 60 pomares de
citros desta região e observaram que, na camada de 0'0,20 m, 85% dos solos
estavam com pH menor que 5,5 e baixos teores de Ca, Mg e P. Na profundidade de
0,20-0,40 m, diminuíram o pH e o nível de nutrientes e aumentou o Al.
As práticas culturais mais utilizadas para a citricultura nos TCs (roçadeira no
inverno e grade no verão, ou grade durante todo o ano) tendem a aumentar a
densidade do solo na superficie (Portela et al., 2001). As áreas de maior
densidade dentro de um pomar de citros, segundo Coelho Filho et al. (2001),
apresentaram as menores capacidades de retenção de água. A ocorrência da coesão
nesses solos, em função de sua gênese, reduz os macroporos, que são os
principais condutores de água no perfil do solo, o que dificulta a dinâmica da
água no perfil do solo, restringindo o fluxo de água no processo de molhamento/
secamento (Souza & Paiva, 2001). Os pomares de citros instalados nos TCs
sofrem as maiores deficiências de água no final do período seco (Cintra et al.,
2000), e a ausência de água disponível às plantas pode atingir a profundidade
de até 0,90 m, durante 10 semanas (Paiva et al.,1998).
Entre as alternativas de manejo para as camadas coesas, existem: a prática da
subsolagem, capaz de romper zonas compactadas ou coesas, e o plantio de
leguminosas, que possuam um sistema radicular profundo e agressivo, capaz de
penetrar estas camadas. O plantio de leguminosas na entrelinha, controlado com
roçadeira e aplicação de herbicida na linha, em áreas subsoladas, em dois
pomares dos TCs, aumentou a área do sistema radicular em 68 e 148%, e a
produção de frutos em 28 e 40%, respectivamente (Carvalho et al., 1999). Ampla
revisão quanto às restrições ao desenvolvimento das raízes da cultura dos
citros nos TCs, e também às melhorias obtidas com o uso de subsolagem,
leguminosas e calagem, foi realizada por Rezende et al. (2002).
A poda é utilizada para remover partes danificadas das plantas, aumentar a
entrada de luz na copa e/ou estimular a formação de nova parte aérea (Tucker et
al., 1998). Nos TCs, esta prática tem sido utilizada em plantas cítricas para
limpeza fitossanitária e renovação da parte aérea, em pomares com mais de 10
anos.
O objetivo deste trabalho foi aumentar a disponibilidade de água no solo, em um
pomar de citros instalado nos Tabuleiros Costeiros do Nordeste do Brasil,
utilizando dois sistemas de poda da parte aérea e da prática da subsolagem
seguida de cobertura do solo com leguminosas, aumentando a infiltração e a
capacidade de armazenamento de água.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado na área experimental da Embrapa Mandioca e
Fruticultura (CNPMF), no Município de Cruz das Almas-BA, a 12º40'19" de
latitude Sul e 39º06'22" de longitude Oeste, em um solo classificado como
Latossolo Amarelo distrófico, com declividade menor que 3%. O clima, segundo
Köeppen, é uma transição entre os tipos Am e Aw, apresentando de dois a três
meses de seca ao ano e pluviosidade média anual de 1.244 mm (EMBRAPA, 1993).
O ensaio foi iniciado em março/1993, em um pomar de laranja 'Baianinha'
enxertada sobre limão 'Cravo', plantado em 1982, no espaçamento de 7 x 7 m, em
uma área de 15.680 m2, dividida em quatro parcelas de 28 x 140 m, com 80
plantas cada uma. Os tratamentos, um em cada parcela, foram: subsolagem,
subsolagem e poda leve, subsolagem e poda brusca, e a testemunha. As áreas
subsoladas foram mantidas cobertas com leguminosas. Os sistemas de poda
realizaram uma limpeza fitossanitária, sendo que a poda leve aparou apenas as
ponteiras e reduziu a parte aérea em 10 a 20%, enquanto a poda brusca promoveu
uma renovação da parte aérea, removendo de 50 a 60% do material existente.
As práticas culturais utilizadas no pomar, ao longo do tempo, foram grade no
verão e roçadeira no inverno, com três capinas manuais ao ano nas linhas de
plantio. As adubações de N-P-K foram 120-60-60 kg.ha-1 ao ano, respectivamente.
Em junho/1993, foi aplicado calcário na dose de 1 t.ha-1. As podas foram
realizadas em setembro/1993. A roçadeira foi utilizada em toda a área
experimental, em dezembro/1993, deixando a palha na superfície do solo. O
subsolador, utilizado em março/1994, possuía 1,2 m de largura, três hastes, e
foi aplicado a 0,5 m de profundidade, mantendo a distância de 2,0 m da linha de
plantas. O plantio do feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), realizado em
junho/1994 e junho/1995, nas áreas subsoladas, foi controlado com roçadeira, em
outubro/1994 e outubro/1995.
A calibração da sonda de nêutrons, marca CPN/503 DR, foi realizada em períodos
de alta, média e baixa pluviosidades, com 25 repetições para cada profundidade,
aferidas com as umidades gravimétricas com valores entre 0,1365 e 0,3020 g.g-
1 .As medições da umidade foram realizadas semanalmente, por meio de dois tubos
de zinco galvanizado instalados em cada parcela, a 50 m de distância um do
outro, nas profundidades de 0,30; 0,50; 0,70; 0,90; 1,10; 1,30 e 1,50 m. O
período de avaliação foi dividido em dois ciclos: de 1º de março/1996 a 1º de
março/1997 e de 02 de março/1997 a 1º de março/1998.
O delineamento experimental foi um fatorial 2 x 4 x 2 x 7, com dois ciclos,
quatro tratamentos, duas repetições e sete profundidades.
O armazenamento de água no solo foi calculado para cada camada no perfil do
solo, ao longo do tempo, segundo a regra do trapézio (Libardi, 2000),
utilizando a Equação1:
Onde AZ Lé o armazenamento total de água na camada de 0 a 1,50 m obtido em mm,
z é a espessura de cada camada no perfil em m e q é a umidade em m3.m-3. Onde o
produto de z (m) versus q (m3.m-3) é m3.m-2, que é uma medida de volume por
superfície geralmente expressa como m, que multiplicado por 1.000 resulta no
armazenamento de água em mm.
A relação potencial da água no solo x umidade foi determinada em placas
porosas, nas tensões de 0,1; 10 e 1500 kPa, correspondentes à umidade de
saturação (q SAT), capacidade de campo (q CC) e ponto de murcha permanente (q
PMP), respectivamente. As determinações foram realizadas com amostras
indeformadas de 100 cm3, recolhidas no meio de cada horizonte do perfil do
solo. Os parâmetros básicos dessa relação estão na Tabela_1. Para o cálculo da
água disponível em campo (AD), nas diversas profundidades ao longo do tempo,
foi utilizada a umidade na tensão de 1.500 kPa (q PMP) de cada horizonte, em
relação à umidade em campo (q atual). A q PMP do horizonte AB foi utilizada
para a camada de 0-0,30 m, a do horizonte Bw1 para 0,30-0,50 e 0,50-0,70 m;
para as demais camadas, foi utilizada a q PMP do Bw2. A AD obtida com a Equação
2 foi expressa em mm, a profundidade (z) em m e a umidade em m3.m-3.
Realizou-se a caracterização do perfil do solo, antes dos tratamentos,
determinando-se a profundidade de cada horizonte, a densidade do solo, a macro
e microporosidades; a densidade das partículas, determinada com picnômetros de
água, e a granulometria pelo método do hidrômetro de Boyoucos. As análises
químicas para pH em água, Ca+2, Mg+2, H+Al, K+, Na+ e P foram realizadas nos
laboratórios da Embrapa Mandioca e Fruticultura, segundo a metodologia EMBRAPA
(1997). O resultado dessas análises está na Tabela_2.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As deficiências de água nos tabuleiros são oriundas da interação solo:clima. Os
parâmetros da relação solo ' água (Tabela_1) mostrou que o horizonte Ap
apresenta a menor porcentagem de água disponível às plantas. O horizonte AB
apresentou o menor valor para qSAT, em função da sua menor porosidade total e
sua maior Ds (Tabela_2), parâmetros que o caracterizam como de baixa capacidade
de transmissão de água e o associam à coesão. A AD aumentou nos horizontes mais
profundos Bw1 e Bw2.
As caracterizações física e química do solo (Tabela_2) mostraram que o nível de
nutrientes foi satisfatório apenas no horizonte Ap. A partir do horizonte AB
(0,09-0,38 m), o valor da saturação por bases está próximo de 30% e o pH é
menor que 5 em todo o perfil. A diminuição da CTC, do pH e do nível de
nutrientes em profundidade, apesar do aumento da argila, é mais um problema
para o desenvolvimento das raízes em profundidade. Os valores da densidade do
solo (Ds) são elevados para todos os horizontes, sendo o horizonte AB o que
apresentou o maior valor para a Ds e o menor para porosidade total e
macroporos.
O clima, no período avaliado, apresentou um considerável volume de chuvas,
2.552 mm em 732 dias, mas com uma distribuição não satisfatória (Tabela_3). Se
considerarmos como efetivas para o solo as pluviosidades maiores que 5 mm.d-1,
a precipitação pluvial total nos dois anos foi de apenas 127 dias, restando 605
dias sem chuva maior que 5 mm.d-1. No ciclo 1, choveu 1.432,2 mm em 73 dias,
enquanto no ciclo 2 choveu 1.123,7 mm em 54 dias. Esta diferença foi
significativa, como demonstra a análise da variância na Tabela_4.
A análise da variância para AD em camada e total, em relação às variáveis
ciclo, tratamento, profundidade e interações duplas (Tabela_5), apresentou
diferenças significativas para todas as variáveis, exceto para a interação
ciclo x profundidade, mostrando que, apesar de a AD apresentar diferenças entre
ciclos e entre profundidades, as alterações nas diversas profundidades
apresentaram-se de uma mesma forma a cada ciclo.
O teste de médias (Figuras_1A e 1B) mostrou que as diferenças para AD foram
significativas entre os ciclos 1 e 2. Os tratamentos utilizados influenciaram
notavelmente a AD em camada e total. Os resultados do tratamento sem poda
demonstraram o excelente efeito das práticas da subsolagem e cobertura com
leguminosas. Os efeitos da poda em área subsolada não foram benéficos, pois a
AD diminuiu com a intensidade da poda, e o tratamento poda brusca apresentou a
menor média em relação à AD em camada e total. As médias para AD, em camada,
mostram que a camada 0,30-0,50 m apresentou o menor valor, enquanto a camada 0-
0,30 m, mais superficial e sujeita a evaporação, foi semelhante a 0,70-0,90 m.
A camada 0,50-0,70 m apresentou média relativamente alta, mesmo estando em zona
de influência da coesão. A partir da camada 0,90-1,10 m, a AD aumentou o
volume, nas profundidades de 1,10-1,30 m e 1,30-1,50 m, praticamente é o dobro
das demais. A AD total (Figura_1B), sendo um somatório das camadas, aumentou em
profundidade, e todas as camadas foram distintas entre si. A média do
tratamento SP (47,92 mm) foi 2,4 vezes maior que a do PB (19,90 mm), e 1,8 vez
maior que a testemunha (26,04 mm).
Vale esclarecer que a caracterização da camada coesa não está limitada aos
horizontes do solo, podendo estar presente em um ou dois que sejam contínuos.
Não tem relação direta com a densidade do solo, necessitando de uma série de
avaliações em relação à água para ser identificada (Ribeiro, 2001). Os
resultados em relação à AD, neste solo, mostraram que a coesão começou a
manifestar-se desde a camada 0,30'0,50 m, e seus efeitos fizeram-se presentes
até a profundidade de 0,70'0,90 m.
Os valores médios obtidos para a AD em camada, na interação ciclo x
tratamentos, estão na Figura_2. Os tratamentos SP e PL não apresentaram
diferenças entre ciclos, mostrando estabilidade em disponibilizar água às
plantas mesmo em períodos de pluviosidades diferentes. Os tratamentos PB e T
foram suscetíveis às variações entre ciclos, apresentando diferenças
significativas quanto à AD. As diferenças para AD total foram idênticas às
observadas para AD em camada.
A interação profundidade, no perfil x tratamentos, está na Figura_3, onde os
valores médios para a AD em camada mostraram uma clara diminuição nas
profundidades de 0,30-0,90 m, zona de influência da camada coesa, na maioria
dos tratamentos. O tratamento SP, que utilizou apenas subsolagem e cobertura do
solo com leguminosas, apresentou o maior volume de AD em todas as camadas,
seguido do tratamento PL, confirmando resultados de Carvalho et al. (1999). O
tratamento PB, com a menor AD na superfície, igualou ou superou a testemunha
nas demais profundidades. Como a única diferença entre tratamentos é a
intensidade de poda, devemos atribuir a esta prática efeitos no solo
(evaporação) e na planta (transpiração) capazes de alterar a AD às plantas.
O fato de a disponibilidade de água do solo ser descontínua no perfil, sendo
maior na camada 0-0,30 m, diminuindo entre 0,30 a 0,90 m e voltando a aumentar
a partir de 0,90 m de profundidade, confirma resultados obtidos por Souza &
Paiva (2001). Esta descontinuidade mostra a dificuldade do movimento
ascendente-descendente da água no perfil, e é uma conseqüência da camada coesa.
A razão para este impedimento ao fluxo de água no perfil é o fato de a
condutividade hidráulica não saturada (K(q)) das camadas coesas destes solos
ser muito baixa, somente apresentando valores consideráveis para a condução de
água quando próxima da saturação (Costa, 1993), significando que quantidades
expressivas de água só passam através da camada coesa quando esta se encontra
saturada ou perto deste estado. É possível supor que, no regime de chuvas
predominante na região, isto ocorra com pouca regularidade e, na maioria das
vezes, o molhamento fique restrito ao espaço entre a camada coesa e a
superfície, aumentando as perdas por evaporação.
Ainda na Figura_3, foi observado que a maior deficiência de água registrada
ocorreu na camada 0-0,30 m no tratamento PB, o que pode ser atribuída a uma
maior exposição à radiação solar da superfície (em função da poda brusca) que
estava com gretas de 0,50 m de profundidade e provocaram maior demanda de
evaporação no solo. Outro aspecto diz respeito à planta, pois a subsolagem
aumenta o sistema radicular das plantas cítricas (Resende et al., 2002), com
conseqüente aumento na sua capacidade de absorção de água, enquanto a poda
provoca um processo de formação de folhas novas, mais suscetíveis à
transpiração e perda de água (Tucker et al. 1998).
A distribuição da AD total na profundidade de 0-1,50 m, sendo um somatório da
AD em camada, apresentou efeitos semelhantes à AD em camada e mostra os bons
resultados da subsolagem utilizada juntamente com leguminosas no tratamento sem
poda, seguido dos tratamentos poda leve, testemunha e poda brusca.
CONCLUSÕES
1) A subsolagem seguida da cobertura vegetal do solo com leguminosas, sem a
utilização de poda ou com poda leve, aumentou a água disponível no solo para as
plantas cítricas, em relação à testemunha, em todas as camadas do perfil.
2) As práticas de subsolagem e poda das plantas cítricas não devem ser
utilizadas de forma conjunta, pois, nesta situação, a água disponível às
plantas diminuiu com o aumento da intensidade de poda.
3) Existiu uma diminuição no armazenamento e disponibilidade de água às
plantas, em todos os tratamentos, nas profundidades de 0,30 a 0,90 m,
dificultando em maior ou menor intensidade o fluxo ascendente - descendente de
água no perfil do solo.
4) O maior volume de água disponível às planta, neste solo, ocorreu nas camadas
de 0,90 a 1,50 m, devendo por isso ser viabilizado o acesso das raízes das
plantas cítricas a esta profundidade, utilizando práticas que provoquem o
rompimento da camada coesa, como subsolagem e/ou o plantio de leguminosas nas
entrelinhas.