Crescimento e absorção de nutrientes por mudas de gravioleira
SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS
Crescimento e absorção de nutrientes por mudas de gravioleira1
Growth and nutrients uptake of soursop seedlings
Zenaíde BarbosaI; Ismail SoaresII; Lindbergue Araújo CrisóstomoIII
IDoutoranda em Agronomia, área de concentração em Fitotecnia, UFC/CCA/DPF, CP
12.168, 60.021-970, Fortaleza, CE. Bolsista CAPES
IIProf. Adjunto do Departamento de Ciências do Solo, UFC/CCA/DCS, CP 12.168,
60.021-970, Fortaleza, CE. ismail@ufc.br
IIIPesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, CP 3761, 60.511-110,
Fortaleza, CE. lindberg@cnpat.embrapa.br
INTRODUÇÃO
A gravioleira (Annona muricata L.) é uma frutífera da família Annonaceae, que
tem se destacado por apresentar ótimo potencial de comercialização no mercado
interno e com grandes perspectivas para exportação. Espécie bastante difundida
em países subtropicais e tropicais, encontra na região nordeste brasileira
condições edafoclimáticas compatíveis com suas exigências nutricional e
fisiológica (Castro et al., 1984; Pinto & Silva, 1994).
Provavelmente, por ser considerada uma espécie altamente rústica, seu cultivo
na região nordestina é, normalmente, destinado às áreas marginais. Nestas, os
solos geralmente são Neossolo Quartzarênico distrófico e Argissolo Vermelho-
Amarelo (Melo et al., 1983; Lopes, 1984), de baixa fertilidade natural e, a
incidência de pragas e doenças, contribuem com produção pouco expressiva (Pinto
& Silva, 1994; Manica, 1994).
A formação de mudas constitui-se numa etapa crucial do processo de produção e
pode possibilitar aos agricultores a obtenção, em viveiro, de plantas com
melhor performance para suportar as condições adversas de campo. Expressivos
aumentos no crescimento e qualidade de mudas podem ser alcançados através da
fertilização mineral, com reflexos no melhor desenvolvimento, na precocidade e
na maior sobrevivência em campo.
Pesquisas relacionadas aos aspectos nutricionais da gravioleira, na fase de
mudas, são poucas e contemplam estudos voltados à caracterização dos sintomas
visuais de deficiências minerais (Avilán, 1975; Silva et al., 1986a e b,
Cardoso et al., 1989), efeitos da adubação orgânica no desenvolvimento das
mudas (Rego, 1992) e, recentemente, influência da inoculação de fungos
micorrízicos arbusculares no crescimento e estado nutricional das mudas (Chu et
al., 2001). As recomendações de adubação de substratos para produção de mudas
de gravioleira baseiam-se em resultados obtidos com outras culturas, portanto,
não levando em consideração as características específicas de exigências
nutricionais da anonácea.
A produção de matéria seca de planta é utilizada para indicar a intensidade de
crescimento da mesma, por sua vez, o conhecimento dos padrões de acúmulo de
matéria seca de uma cultura possibilita melhor entendimento dos fatores
relacionados com a nutrição mineral, conseqüentemente, com a adubação, visto
que, a absorção de nutrientes é influenciada pela taxa de crescimento da planta
(Glass, 1989; Marschner, 1995).
A marcha de absorção de nutrientes é referência importante para o fornecimento
dos mesmos em doses adequadas ao bom desenvolvimento das plantas. Assim, o
estudo das quantidades dos nutrientes absorvidos durante os vários estádios de
desenvolvimento da planta pode auxiliar sobremaneira na determinação da
composição de substratos e adubações de cobertura durante a permanência da
mesma em viveiro.
O trabalho teve como objetivo estudar o crescimento e a absorção de nutrientes
por mudas de gravioleira, em diversos estádios de desenvolvimento em condições
de viveiro.
MATERIAL E MÉTODO
O experimento foi conduzido no viveiro de produção de mudas frutíferas da
Embrapa Agroindústria Tropical, em Pacajus - CE. Sementes de gravioleira, tipo
Morada, foram germinadas em bandejas de polietileno, contendo 6 dm3 da mistura
solo:areia na proporção de 1:1 (v:v). Nesta mistura foram adicionadas 3g de
calcário dolomítico, 6,7g de superfosfato triplo (moído) e 50mL de solução
coquetel de uréia e cloreto de potássio, contendo, em mmol L-1, 857 de N e 154
de K, e 50mL de solução coquetel de micronutrientes, contendo, em mmol L-1,
5,55 de B, 2,83 de Cu, 9,18 de Zn e 0,125 de Mo. Quarenta dias após a
germinação, procedeu-se adubação de cobertura com micronutrientes, na mesma
dose e concentração mencionada anteriormente.
Sessenta dias após a germinação, efetuou-se a repicagem das mudas, colocando-se
uma planta por sacola de polietileno, contendo como substrato 5 dm3 da mistura
solo superficial:solo organo mineral na proporção de 3:1 (v/v). O substrato foi
corrigido, adicionando-se por m3: 500g de calcário dolomítico, 40g de sulfato
de amônio, 56g de sulfato de potássio e 560g de superfosfato triplo moído e
passado em peneira com malha de 0,5mm de abertura. Após 60 dias de incubação,
com umidade do solo a 80% da capacidade de campo, o substrato apresentou as
seguintes características químicas: pH 5,8, 56 mg de P dm-3, e em cmolc dm-3,
0,29; 2,26; 0,74 e 3,36 de K+, Ca++, Mg++ e H+, respectivamente.
Após a repicagem das mudas, adicionou-se 50mL da solução coquetel de
micronutrientes por sacola, a qual foi repetida aos 98 dias. Aos 25, 60 e 140
dias após a repicagem, efetuaram-se adubações de cobertura, adicionando-se por
sacola, na forma de solução, o equivalente a 41,5mg de N (sulfato de amônio) e
115mg de K (cloreto de potássio), por aplicação.
O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado e os
tratamentos foram constituídos por treze épocas de avaliaçâo (15, 30, 45, 60,
75, 90, 105, 120, 135, 150, 165, 180 e 195 dias após a repicagem), com cinco
repetições.
Em cada época de avaliação, cinco plantas foram colhidas e mensuradas a altura
da planta e o diâmetro do caule. Posteriormente, as plantas foram separadas em
folhas, caule e raízes, e após secagem em estufa com circulação forçada de ar a
65-70oC, por 72 horas, determinou-se o peso da matéria seca de cada parte da
planta. O material vegetal foi moído e nele fez-se a determinação dos teores de
nutrientes, conforme metodologias descritas por Malavolta et al. (1997).
Os dados foram submetidos à análise da variância e determinaram-se equações de
regressão para as características de crescimento e quantidades de nutrientes
acumuladas na parte aérea, em função das épocas de amostragem. A escolha das
equações de regressão baseou-se na significância do coeficiente de determinação
(R2) das equações, pelo teste t.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A acumulação de matéria seca total (folhas, caule e raízes) pelas mudas de
gravioleira apresentou pequeno incremento, até aos 105 dias após a repicagem,
com taxa de crescimento quinzenal média de 0,35g até aos 105 e de l,62g dos 105
aos 195 dias (Figura_1), sendo que aos 105 dias, as mudas acumularam apenas 27%
da matéria seca total, enquanto os 73% restantes, foram acumulados até aos 195
dias de cultivo, com contribuição de biomassa pelas folhas, caule e raízes de
41%, 28% e 31%, respectivamente. Estes resultados são semelhantes aos obtidos
por Silveira et al. (1995) em eucalípto, por Corrêa et al. (1995) em gergelim e
por Veloso et al. (1995) em pimenta-do-reino; os quais, também verificaram,
além do lento incremento inicial no acúmulo de matéria seca, a maior
contribuição das folhas para a referida característica de crescimento das
plantas. Produção de matéria seca da parte aérea e das raízes de 5,07g e 1,80g,
respectivamente, aos 150 dias, foram inferiores às obtidas por Chu et al.
(2001), em mudas de gravioleira inoculadas com fungos micorrízicos
arbusculares, com o mesmo estádio de desenvolvimento.
O crescimento inicial das plantas também foi caracterizado por um pequeno
incremento em altura e diâmetro do caule, com taxas quinzenais médias de 3,3cm
e 0,51mm, respectivamente, ao longo do período estudado (Figura_2). A altura
média das plantas de 39,6cm, cultivadas até aos 150 dias, foi inferior à obtida
por Chu et al (2001), entretanto, com relação ao diâmetro do caule, de 0,73cm
obtido neste trabalho, foi semelhante ao observado pelos referidos autores.
Em geral, as mudas estão em condições de serem transplantadas para o campo
quando alcançam entre 30-40 cm de altura, em função do maior índice de
sobrevivência no campo devido à maior resistência às condições adversas do
meio, tais como veranicos, competição com plantas daninhas e ataque de pragas.
No presente estudo, as mudas de gravioleira somente atingiram a altura adequada
ao transplante para o campo, aproximadamente aos 145 dias.
Os teores de nutrientes nas folhas das mudas de gravioleira (Tabela_1), de modo
geral, encontram-se na faixa considerada normal por Avilán (1975), por Silva et
al. (1986a e b) e por Gazel Filho et al. (1997), exceto os teores de K e Zn, os
quais foram superiores aos relatados por estes autores. Aos 150 dias, os teores
de nutrientes encontrados nas folhas foram superiores aos encontrados por Chu
et al. (2001), em mudas de gravioleira com o mesmo estádio de desenvolvimento.
As variações nos teores de P e Fe no caule das mudas de gravioleira (Tabela_2),
com o desenvolvimento das mudas, apresentaram padrões diferentes das folhas
(Tabela_1), uma vez que, P aumentou no caule e reduziu nas folhas e, para o Fe,
os teores nas folhas apresentaram pequenas variações, enquanto no caule,
aumentaram. Comportamento semelhante também foi observado por Bastos et al.
(1995) e por Carvalho et al. (1995) em mudas de urucum. Os teores de Cu e Zn no
caule, em ordem de grandeza, foram aproximadamente, 2,2 e 1,6 vezes superiores,
respectivamente, aos observados nas folhas, este fato pode ser atribuído ao
envolvimento desses nutrientes no metabolismo das plantas na síntese de lignina
nos tecidos (Marschner, 1995).
Os teores de macronutrientes nas folhas e no caule (Tabelas_1 e 2) seguem a
seguinte ordem decrescente: K, N, Ca, Mg e P. Estes resultados estão de acordo
com os encontrados por Avilán (1975) e por Silva & Silva (1986), e diferem
dos encontrados por Gazel Filho et al. (1997) e por Chu et al. (2001), os quais
encontraram que o teor de N, em folhas de gravioleira, foi superior ao de K.
Entre os micronutrientes, foi observado a seguinte ordem decrescente: Fe, Mn,
Zn, e Cu, estando, portanto, em concordância com os encontrados por Gazel Filho
et al. (1997) e por Chu et al. (2001), entretanto, diferem dos resultados
encontrados por Silva & Silva (1986), os quais observaram que o teor de Mn
foi superior ao de Fe. É possível que as diferenças nas seqüências dos teores
de nutrientes deva-se ao tipo de solo, ao clima, ao genótipo e ao estádio de
desenvolvimento das plantas utilizadas nos estudos.
As equações de regressão (Tabela_3) caracterizam o padrão de acumulação de
nutrientes na parte aérea, em função dos estádios de desenvolvimento das mudas
de gravioleira, evidenciam que a absorção de K, Ca, Mg, Cu, Fe e Zn foi
proporcional à acumulação de matéria seca das plantas, enquanto, para N e Mn,
não foi observada a mesma proporcionalidade. Este comportamento pode ser
comprovado pelos teores destes nutrientes nas folhas e no caule (Tabelas_1 e
2), uma vez que, os de N e Mn reduziram com o desenvolvimento das mudas.
As mudas de gravioleira apresentaram períodos diferentes de intensidade de
absorção de nutrientes, com baixa taxa para P, K, Ca, Mg, Cu, Fe e Zn, alta
para Mn e constante para N até aos 150 dias, em relação a quantidade total
absorvida até aos 195 dias (Tabela_3). A taxa de absorção de nutrientes pelas
plantas é controlada por diversos fatores (Marschner, 1995). Entre eles, a taxa
de crescimento da planta e o teor de nutrientes na planta e no solo. A baixa
taxa de absorção dos nutrientes observada até aos 105 dias, pode ser explicada
pela pequena produção de matéria seca das plantas nesse período (Figura_1), e a
absorção linear de N, pode ser atribuída às adubações nitrogenadas de
cobertura, que pode ter mantido o teor de N constante no substrato, enquanto, a
alta absorção de Mn na fase inicial, pode ser atribuída, provavelmente, ao alto
teor deste nutriente no substrato e, a baixa absorção na fase subseqüente, ao
mecanismo de controle de absorção, em função de altos teores de Mn na parte
aérea na fase inicial de desenvolvimento das mudas (Tabela_1 e 2).
As acumulações de N, P e Mg na parte aérea, aos 150 dias, estimadas pelas
equações de regressão (Tabela_3), foram similares às encontradas por Chu et al.
(2001), em mudas de gravioleira, com o mesmo estádio de desenvolvimento,
enquanto, as acumulações de K e Ca foram, em ordem de grandeza, 4,7 e 2,0 vezes
superiores, respectivamente, às encontradas pelos referidos autores. Para os
micronutrientes, as acumulações na parte aérea obtidas neste estudo foram
inferiores às encontradas por Chu et al. (2001). No final do período estudado a
quantidade de nutrientes absorvidas pelas mudas de gravioleira foi de, em mg
planta-1, 177,35 de N, 8,21 de P, 327,12 de K, 159,74 de Ca, 22,42 de Mg, 0,068
de Cu, 1,31 de Fe, 0,23 de Mn e 0,51 de Zn.
A quantidade de nutrientes absorvida pelas plantas é função das condições
edafoclimáticas e das características genéticas da planta. Dentre os fatores
edafoclimáticos, a disponibilidade de nutrientes e a umidade do solo têm sido
considerados como os principais responsáveis por alterações nos padrões de
absorção de nutrientes. Por outro lado, as influências genéticas, na absorção
de nutrientes, estão relacionadas com as características morfológicas e
fisiológicas da planta, que, por sua vez, influenciam os parâmetros cinéticos
de absorção (Glass, 1989; Marschner, 1995).
CONCLUSÕES
1) As mudas de gravioleira apresentaram baixa taxa de crescimento até aos 105
dias após a repicagem, a partir deste período o crescimento aumentou
significativamente;
2) Um terço dos nutrientes foi absorvido até aos 105 dias após a repicagem, e
os dois terços restantes dos 105 aos 195 dias;
3) A absorção de nutrientes apresentou a seguinte ordem descrescente para os
macronutrientes: K, N, Ca, Mg e P e para os micronutrientes: Fe, Zn, Mn e Cu.