Produção integrada de pêssegos: três anos de experiência na região de Pelotas -
RS
Produção integrada de pêssegos: três anos de experiência na região de Pelotas '
RS1
Integrated production of peaches: 3 years of experience in the area of Pelotas,
Rio Grande do Sul state, Brasil
José Carlos FachinelloI; Casiane Salete TibolaII; Moacir VicenziII; Evandro
ParisottoIII; Luciano PicolottoIII; Maria Laura Turino MattosIV
IProfessor da FAEM/UFPel, C. P. 354, 96010-900. Pelotas - RS. E mail:
jfachi@ufpel.tche.br
II Mestrandos em Fruticultura de Clima Temperado/UFPel
IIIAcadêmicos de Agronomia da FAEM/UFPel
IV Pesquisadora da Embrapa Clima Temperado ' Pelotas-RS
INTRODUÇÃO
O projeto de Produção Integrada de Pêssego (PIP) iniciou-se no ano de 1999, em
quatro áreas representativas da persicultura no Rio Grande do Sul (Pelotas,
Serra Gaúcha, Grande Porto Alegre e Região da Campanha), de forma
multinstitucional, envolvendo a Universidade Federal de Pelotas, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Embrapa Clima Temperado, Embrapa Uva e Vinho,
Universidade da Campanha e Associação da Cadeia Produtiva de Frutas e Conservas
do Rio Grande do Sul. No segundo semestre de 2001, foi incorporada uma nova
área de pesquisa no município de Lapa ' PR, junto com a Universidade Federal do
Paraná (Fachinello, 2001).
As regiões produtoras de pêssego no Sul do Brasil são caracterizadas pela alta
precipitação pluviométrica, acima de 1500 mm/ano, alta umidade relativa do ar e
ventos fortes durante a primavera e verão, o que favorece o aparecimento de
doenças e pragas, obrigando o produtor a intensificar o uso de insumos.
O mercado mundial, além da qualidade externa das frutas, passou a exigir
controle e registro sobre todo o sistema de produção, incluindo análises de
resíduos de agrotóxicos nas frutas e estudos sobre impacto ambiental da
atividade, ou seja, é necessário que se tenha rastreabilidade de toda a cadeia
produtiva (Sansavini, 1995 e 2002; Deckers, 2000), assegurando ao consumidor
transparência do sistema e do processo de produção.
Neste sentido, a Produção Integrada é apontada como uma alternativa para a
produção de frutas de qualidade, pois utiliza práticas de manejo do solo e da
planta de forma integrada, procurando equacionar os problemas através de uma
visão multidisciplinar e não na aplicação de práticas isoladas, como ocorre na
fruticultura convencional (Fachinello et al., 2001).
A produção integrada de pêssego tem como objetivos: reduzir o uso de
agroquímicos de síntese; minimizar as perdas pré e pós-colheita; utilizar
práticas de manejo do solo que reduzam o impacto ambiental e o gasto de
energia; oferecer à sociedade frutas de qualidade e manter a competitividade do
produtor com oferta de frutas certificadas e rastreadas.
Para o desenvolvimento e êxito do programa de fruticultura integrada, é de
fundamental importância o trabalho conjunto entre as instituições, na busca de
soluções técnicas e econômicas, garantindo o sucesso dos empreendimentos e
sustentabilidade do setor com a produção de frutas de qualidade (Fachinello et
al., 2000).
O trabalho foi realizado com o objetivo de avaliar agronomicamente o sistema de
produção convencional x produção integrada de um pomar de pêssegos para
indústria no município de Pelotas-RS, comparando dados de três anos de
avaliação.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi implantado em um pomar comercial de pessegueiro da cultivar
Diamante, com 10 anos de idade, com espaçamento 6m x 4m, na propriedade de
Américo Natali, Colônia Dias, município de Pelotas-RS.
No pomar, foram escolhidos dois talhões, um para o sistema de produção
convencional (PC) e outro para o sistema de produção integrada (PI), com
aproximadamente 200 plantas cada um, isolados por uma estrada. De cada talhão,
foram escolhidas ao acaso 17 plantas para serem as unidades experimentais, no
ano de 1999.
Os sistemas de produção envolvidos neste projeto foram assim caracterizados: a)
sistema convencional, onde são adotados o manejo e as práticas culturais
normalmente utilizados pelo produtor de acordo com sua opção de adoção, ou
seja, tratamentos fitossanitários a calendário fixo, manejo do solo com grades
na linha de plantas, sem a utilização de poda verde e sem o monitoramento de
pragas e doenças; b) sistema integrado, onde são adotadas as técnicas de manejo
definidas nas NORMAS (2001) geradas pelos técnicos/instituições envolvidos na
execução deste projeto. Neste sistema, são adotados o cultivo mínimo do solo
(roçadas na entrelinha e no máximo duas aplicações de herbicidas na linha) a
poda verde, o monitoramento de pragas e doenças, a recomendação de adubação
baseada na análise foliar e do solo, a cobertura verde na entrelinha, a
minimização do uso de agrotóxicos, a atualização do produtor nas tecnologias da
PIP e o registro de todas as atividades executadas no pomar, em caderneta de
campo.
As avaliações compreenderam: a classificação das frutas por categoria, sendo
tipo I frutas com diâmetro ³ 57mm; II de 47 a menos de 57mm, e III de 44 a
menos de 47mm; a ocorrência de danos nas frutas; análises físico-químicas pós-
colheita; produção total das plantas e resíduos de agrotóxicos nas frutas.
O delineamento experimental foi completamente casualizado, com 17 repetições,
sendo que as médias foram comparadas pelo teste de Duncan.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise conjunta dos resultados de produção de pêssegos por planta (Figura_1)
e número de frutas produzidas por planta (Figura_2) possibilita verificar que
não houve diferença significativa nas safras de 1999 e 2000 e que, em 2001, a
produção e o número de frutas foram superiores na PI, evidenciando que todas as
práticas de manejo do solo e da planta apresentaram efeito benéfico sobre a
produção de frutas, sem prejuízos na qualidade e na quantidade. Na produção de
2001, as plantas tiveram uma produção superior a 66 % em relação àquelas
produzidas no sistema convencional. Esse aumento foi atribuído ao maior
desenvolvimento das plantas e aos resultados de todas as práticas de manejo do
solo e planta em conjunto.
A avaliação da qualidade das frutas, baseada nos índices oficiais de
classificação para pêssegos de indústria, possibilitou verificar que, nas três
safras, houve aumento no número de frutas na categoria I (Figura_3), no sistema
de produção integrada, destacando que estas frutas são as mais valorizadas no
mercado. Por observação, é possível comprovar que a prática do raleio de
frutas, a poda verde e o manejo do solo proporcionaram resultados positivos na
qualidade das frutas para o mercado.
As perdas durante a colheita de pêssegos são variáveis em cada ano agrícola,
podendo atingir, em média, 20% da produção (Fachinello et al., 2000) e são
devidas ao ataque de insetos, doenças, pássaros e, muitas vezes, pela interação
destes. Na safra 2001, entre os danos avaliados, aqueles provocados pela
podridão-parda (Monilinia fructicola) foram mais importantes, chegando a 80% em
PC, seguidos pelo gorgulho-do-milho (Sitophilus zeamais) e bacteriose
(Xanthomonas arborícola pv. Pruni), (Figura_4). Os danos causados pela
podridão-parda são comuns e acentuam-se quando as condições de alta umidade e
calor ocorrem ao mesmo tempo.
A incidência de bacteriose foi maior nas áreas de pomar onde não havia proteção
contra o vento; as lesões provocadas nos frutos predispõem à ocorrência de
podridão-parda.
O gorgulho-do-milho migra dos galpões de armazenamento para os pomares e
provoca danos nas frutas junto ao pedúnculo. Estes danos favoreceram o ataque
de podridão-parda e a queda das frutas.
Nos resultados da análise de agrotóxicos na polpa das frutas, na safra 2000-
2001, não foi detectada a presença destes, considerando os limites máximos
estabelecidos pela legislação vigente. Isto demonstra que, se os tratamentos
forem realizados adequadamente, respeitando-se o período de carência e dosagens
indicadas, não serão encontrados resíduos acima dos limites nas frutas.
As pulverizações no sistema PC passaram de 11 para 9 na média do período de
1999-2000 e, no sistema PI, o número de tratamentos manteve-se em 8 nos anos
1999-2000, aumentando para 9 tratamentos no ano de 2001. Nota-se que houve uma
redução de 37,5% no número de aplicações de agroquímicos. Além disso, verifica-
se que, com o passar do tempo, os sistemas se nivelam, pois o produtor acaba
transferindo para a área PC as práticas de manejo que resultam em ganhos
econômicos. A redução no número de pulverizações foi possível basicamente pelo
uso sistemático de armadilhas para monitoramento da mosca-das-frutas
(Anastrepha fraterculus) e grafolita (Grapholita molesta).
O número de espécies vegetais de gramíneas e leguminosas nativas identificadas
foi de 27 em PI e 17 em PC, na linha e na entrelinha, mostrando que há maior
biodiversidade no sistema mantido com cobertura vegetal nativa quando comparado
com o PC.
As frutas produzidas no sistema PI apresentaram, na colheita, maior firmeza da
polpa e acidez, porém menor nível de sólidos solúveis; isto foi atribuído ao
sistema de manejo do solo com aveia, que retardou o processo de desenvolvimento
das frutas, sem comprometer a qualidade, conforme demonstram os resultados
obtidos por Fachinello et al., 2000.
CONCLUSÕES
A avaliação agronômica do sistema de produção integrada (PI) em relação ao
sistema convencional (PC), na cultivar de pêssego de conserva Diamante, nas
safras 1999, 2000 e 2001, permite concluir que é possível conduzir o pomar de
pessegueiro com cultivo mínimo do solo, reduzir o uso de agroquímicos e
melhorar a qualidade das frutas, garantindo segurança alimentar aos
consumidores.