Efeitos do thidiazuron e do ácido giberélico nas características dos cachos e
bagas de uvas 'niagara rosada' na região de Jundiaí-SP
INTRODUÇÃO
A viticultura paulista aparece em posição de destaque no cenário nacional. Com
produção anual de 201.630 toneladas, em 11.553 hectares, representa 21 % da
produção brasileira, sendo a maior parte do cultivo destinado à produção de
uvas de mesa (AGRIANUAL, 2001). Segundo Sousa (1996), entre as variedades
cultivadas no Estado de São Paulo, destacam-se as Niagaras Rosada e Branca, com
77,0% da produção total.
O ácido giberélico (AG3) é o fitorregulador mais utilizado em viticultura,
visando principalmente ao aumento do tamanho e fixação das bagas, à
descompactação dos cachos e à eliminação de sementes. Com o objetivo de
aumentar o tamanho das bagas, as respostas às aplicações ácido giberélico
variam em função da cultivar e das condições de cultivo (Pires et al., 1998).
No caso das variedades 'Niagara Rosada' e 'Niagara Branca', a maioria dos
estudos já realizados não apresentaram efeitos significativos de aplicações de
ácido giberélico nas dimensões dos frutos (Pereira et al.,1979; Maraschin et
al.,1986).
O thidiazuron (N-fenil-N-1,2,3-tidiazol-5-tiuréia) (TDZ) é um fitorregulador
que, no Brasil, é largamente utilizado na cultura do algodoeiro para provocar
desfolhamento. Esse produto também vem sendo usado na cultura de tecidos para
induzir brotação in vitro, visto que demonstra ter ação semelhante à das
citocininas (Petri et al., 1992).
Em fruticultura, há trabalhos que comprovaram a eficiência do thidiazuron na
quebra de dormência de gemas de macieira e pereira (Araújo et al., 1991;
Francisconi et al., 1992) e no aumento do tamanho e pegamento dos frutos de
maçãs, kiwis e caquis (Petri et al., 1992; Schuck & Petri, 1992; Itai et
al., 1995)
Nas variedades de videiras sem sementes Sovereign Coronation, Simone, Selection
495 e Selection 535, Reynolds et al. (1992) estudaram os efeitos de aplicações
de thidiazuron nas doses de 0; 4 e 8 mg.L-1, quando as bagas atingiram 5 mm de
diâmetro. Pelos resultados obtidos, verificaram que o thidiazuron aumentou
linearmente a massa dos cachos e bagas e reduziu o teor de sólidos solúveis
totais e o pH do mosto.
Por outro lado, Byun & Kim (1995) trataram cachos de videiras da cultivar
Kyoho, com AG3 a 20 mg.L-1 e thidiazuron a 5 ou 10 mg.L-1, 5 dias após o pleno
florescimento, e verificaram que AG3 aumentou o tamanho das bagas, enquanto o
thidiazuron aumentou o número de bagas. Tratamentos combinados de thidiazuron e
AG3aumentaram o tamanho e o número de bagas. Entretanto, thidiazuron reduziu a
coloração das bagas e o teor de sólidos solúveis totais. Resultados semelhantes
foram verificados por Schuck (1994), em uvas 'Vênus'.
Tendo em vista as possibilidades de utilização de fitorreguladores para a
melhoria da qualidade de uvas, este trabalho teve como objetivo estudar os
efeitos de aplicações de thidiazuron e ácido giberélico nas características dos
cachos e bagas de uvas da cultivar Niagara Rosada na região de Jundiaí-SP.
MATERIAL E MÉTODOS
Os experimentos foram conduzidos em vinhedo da cultivar Niagara Rosada,
localizado no município de Jundiaí-SP, com coordenadas geográficas de 23º06'S e
46º55'W, e 715 m de altitude. As videiras em 18º ano de produção estavam
enxertadas sobre porta-enxerto IAC-766 Campinas, espaçadas em 2,20x1,00 m, e
conduzidas no sistema de espaldeira.
No primeiro experimento, os tratamentos foram os seguintes:
T1 ' Testemunha;
T2- TDZ a 5mg.L-1;
T3 ' TDZ a 10mg.L-1;
T4 ' TDZ a 5mg.L-1 + AG3 a 100mg.L-1;
T5 'TDZ a 10mg.L-1 + AG3 a 100mg.L-1;
T6 ' AG3 a 100mg.L-1.
No segundo experimento, os tratamentos consistiram das seguintes doses de
thidiazuron: 0; 2,5; 5,0; 7,5; 10,0; 12,5 e 15,0mg.L-1.
Todas as práticas culturais no vinhedo, exceto a utilização de ácido
giberélico, foram idênticas ao sistema convencional da propriedade para toda a
área experimental.
Os tratamentos com fitorreguladores foram efetuados aos 14 dias após o pleno
florescimento, através de única imersão dos cachos na solução contida em
recipiente plástico, adicionada de espalhante adesivo Iharaguen-S® a 1%,
formulação comercial com 20% de polioxietileno alquilfenol éter. Para o preparo
das soluções com reguladores de crescimento, utilizaram-se os produtos
comerciais Dropp®, com 50% de thidiazuron e Pro-Gibb®, com 10% de ácido
giberélico.
Em todos os experimentos, o delineamento experimental foi em blocos
casualizados, com 6 repetições e 2 cachos por parcela. Videiras semelhantes em
vigor foram selecionadas para cada bloco, na mesma linha de plantio, e os
cachos foram sorteados dentro de cada um dos 6 blocos, para a realização dos
tratamentos.
A coleta dos cachos foi realizada no dia 22 de dezembro de 1999, quando o
tratamento-testemunha atingiu o ponto de colheita comercial, ou seja, com teor
de sólidos solúveis totais mínimo de 14,0ºBrix (CEAGESP, 2000). Posteriormente,
os cachos foram acondicionados em sacos de polietileno, devidamente
identificados, transportados em caixas plásticas para o Instituto Agronômico de
Campinas, onde foram mantidos em câmara frigorífica, à temperatura de 3ºC,
durante o período de avaliação.
Foram determinadas as seguintes variáveis:
1. Massa dos cachos, bagas e engaços, em balança de precisão. Após a medição da
massa dos cachos, as bagas foram separadas dos pedicelos, cortando-os com
tesoura, para posterior pesagem das bagas e dos engaços, separadamente.
2. Comprimento e largura dos cachos e bagas, com paquímetro digital. Para as
medições das dimensões das bagas, utilizou-se de uma amostra de 20 bagas por
cacho, calculando-se, posteriormente, a média de cada amostra.
3. Número de bagas por cacho.
4. Número de sementes por baga (subamostra de 20 bagas).
Para cada parcela, foram realizadas as seguintes análises do mosto de 100
bagas:
1.Teor de sólidos solúveis totais: com auxílio de refratômetro de mesa com
autocompensação de temperatura (Carvalho et al., 1990);
2. Acidez total titulável: por titulação em uma alíquota de 5 ml do mosto com
NaOH 0,1N, e expressa em g de ácido tartárico por 100 ml de mosto (Carvalho et
al., 1990).
No experimento 1, em que se estudaram os efeitos de aplicações de thidiazuron e
ácido giberélico, os resultados foram submetidos à análise de variância e
comparação de médias pelo teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade.
Para os dados do experimento 2, em que foram estudados os efeitos de doses
crescentes de thidiazuron, efetuou-se a análise de variância, estudando-se a
regressão através dos polinômios ortogonais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Experimento 1
Todos os tratamentos em que se aplicou thidiazuron, combinado ou não com ácido
giberélico, aumentaram a massa dos cachos e os engaços (Tabela_1), estando de
acordo com outros resultados de pesquisa ( Reynolds et al., 1992; Byun &
Kim, 1995 e Schuck, 1994). Tendências semelhantes foram verificados para os
dados de comprimento e largura dos cachos, embora não tenha havido aumentos
significativos para a maioria dos tratamentos com fitorreguladores (Tabela_1).
A massa, comprimento e largura das bagas foram igualmente influenciados pelas
aplicações de fitorreguladores, sendo que os maiores aumentos para estas
variaveis foram verificados quando se associaram thidiazuron e ácido giberélico
(Tabela_2). A maior massa das bagas foi observada para o tratamento com
thidiazuron a 10 mg.L-1, associado a ácido giberélico a 100 mg.L-1, conferindo
um aumento de 37,6% em relação à testemunha. Aplicações isoladas de ácido
giberélico foram pouco eficientes para promover o aumento do tamanho das bagas,
estando de acordo com os resultados de Pereira et al. (1979) e de Maraschin et
al. (1986).
O maior desenvolvimento das bagas e engaços promovido por aplicações de
thidiazuron pode ser explicado pela sua ação de citocinina em tecidos vegetais,
induzindo a divisão celular, em geral, por uma interação com auxinas (Mcgraw,
1988). Além disso, segundo Davies (1988), citocininas podem estimular o
crescimento celular e retardar a senescência de órgãos vegetais.
Aparentemente, aplicações de thidiazuron aumentaram o número de bagas, enquanto
o ácido giberélico apresentou efeito inverso, reduzindo o número de bagas por
cacho. Os cachos tratados com thidiazuron a 5 e 10 mg.L-1 apresentaram,
respectivamente, 32,7 e 23,8% mais bagas do que aqueles tratados com ácido
giberélico (Tabela_2). Para o tratamento-testemunha e aqueles em que foram
associados os dois fitorreguladores, os valores para esta variável foram
intermediários.
Aumento do número de bagas causado por aplicações de thidiazuron também foi
relatado por Byun & Kim (1995) em uvas da cultivar Kyoho. Segundo Hayata et
al. (2000), substâncias com ação de citocinina podem promover o pegamento de
frutos devido ao seu efeito em atrair nutrientes para os órgãos tratados,
aumentando a habilidade dos frutos jovens em competir por assimilados com o
resto da planta.
Por outro lado, aplicações de ácido giberélico poderiam ter levado à degrana
dos cachos. Pérez & Morales (1999) constataram que a atividade da
peroxidase solúvel dos pedicelos de uvas 'Sultana' aumentou significativamente
com o incremento das doses de ácido giberélico aplicado em pós-florescimento
nas videiras, sugerindo o possível envolvimento desta enzima na lignificação de
pedicelos e ráquis causados pela aplicação de AG3. Esta lignificação dos
pedicelos poderia, portanto, levar à perda de flexibilidade dos pedicelos e,
conseqüentemente, provocar a degrana dos cachos.
As aplicações de fitorreguladores não apresentaram efeito significativo para as
variáveis teor de sólidos solúveis totais e acidez total titulável do mosto e
número de sementes por baga (Tabela_3). Estes resultados não são condizentes
com os estudos de Reynolds et al. (1992), Schuck (1994) e Byun & Kim
(1995), que verificaram redução do teor de sólidos solúveis totais e pH, e
aumento da acidez total titulável do mosto de uvas tratadas com thidiazuron.
Possivelmente, esta diferença de resultados está relacionada a uma
característica varietal. De acordo com Pires et al. (1998), as respostas às
aplicações de fitorreguladores variam em função da cultivar e das condições de
cultivo.
Experimento 2
No segundo experimento, em que se estudou o efeito de doses crescentes de
thidiazuron, verificou-se que houve aumento linear para as variáveis massa de
cachos e engaços (Figura_1), e massa, comprimento e largura das bagas (Figura
2).
O aumento da massa e dimensões das bagas, e da massa dos engaços,
possivelmente, está diretamente relacionado à ação de citocinina do
thidiazuron, levando ao aumento da divisão e expansão celular (Mcgraw, 1988;
Davies, 19f88), estando de acordo com os resultados de Reynolds et al. (1992),
em 4 variedades de uvas sem sementes.
No entanto, a ausência de diferenças para as variáveis teor de sólidos solúveis
totais e acidez total titulável (Tabela_4), não foi condizente com os relatos
de Reynolds et al. (1992) e Byun & Kim (1995), que observaram atraso na
maturação dos frutos tratados com thidiazuron e conseqüente redução do teor de
sólidos solúveis totais e aumento da acidez do mosto de uvas. Características
climáticas, culturais e varietais podem ser algumas das possíveis causas para
as diferenças entre resultados.
O número de sementes por baga e o número de bagas por cacho também não foram
influenciados pelas aplicações de thidiazuron. Entretanto, verificou-se ligeira
tendência de aumento do comprimento e largura dos cachos tratados com
thidiazuron (Tabela_4).
Pelos resultados apresentados neste trabalho, ficou evidente a possibilidade de
utilização de thidiazuron para o aumento do tamanho das bagas de uvas 'Niagara
Rosada'. Para as condições deste experimento, como houve efeito linear para as
variáveis estudadas, a dose de 15 mg.L-1de thidiazuron seria a mais indicada
para a obtenção dos maiores aumentos do tamanho de bagas. A associação de ácido
giberélico a 100 mg.L-1 aumentou o efeito do thidiazuron no tamanho das bagas;
entretanto, ficou demonstrado seu efeito prejudicial na redução do número de
bagas por cacho.
O thidiazuron é um fitorregulador que ainda não está registrado para a cultura
da videira no Brasil, não podendo ser recomendado para o uso de viticultores,
porém já está registrado para diversas espécies frutíferas, incluindo a
videira, em países como Chile e México. Novas pesquisas, incluindo estudos
toxicológicos, deverão ser conduzidas para uma futura aplicação comercial desta
substância na fruticultura nacional.
CONCLUSÕES
1) Aplicações de thidiazuron na concentração de 15 mg.L-1, 14 dias após a
floração, aumentam a massa, o comprimento e a largura das bagas de uvas
'Niagara Rosada' na região de Jundiaí (SP).
2) A associação de ácido giberélico a 100 mg.L-1 potencializa o efeito do
thidiazuron nas dimensões das bagas de uvas 'Niagara Rosada'.
3) Não há efeito dos fitorreguladores estudados no teor de sólidos solúveis
totais e acidez total titulável.