Efeito do déficit hídrico na transpiração e resistência estomática da mangueira
Efeito do déficit hídrico na transpiração e resistência estomática da
mangueira1
Effect of water deficit on the transpiration and stomatal resistance of mango
tree
Manoel Teixeira de Castro NetoI
IEngo Agro, Ph.D., Pesquisador da EMBRAPA Mandioca e Fruticultura, Caixa postal
007, Cruz das Almas-BA 44380-000, Fone: (075) 621-2120, castro@cnpmf.embrapa.br
INTRODUÇÃO
A cultura da manga (Mangifera indica L.) tem-se destacado na fruticultura da
região do Submédio São Francisco, onde, apesar de ser cultivada sob diferentes
sistemas de irrigação, ainda enfrenta déficit hídrico, o qual afeta seu
crescimento, desenvolvimento e produção. Nessa região, as condições
edafoclimáticas são muito favoráveis à exploração da cultura. A alta
disponibilidade de energia solar, água para a irrigação, temperaturas adequadas
ao crescimento dos frutos e baixa umidade relativa do ar são alguns dos fatores
que contribuem para o sucesso da cultura na região. Sob clima tropical, o
processo de indução floral depende da ativação de fatores fisiológicos que
reforçam o estímulo floral da mangueira. A indução floral da mangueira mediante
a utilização do déficit hídrico tem sido sugerida por alguns autores (Chacko,
1986; Schaffer et al., 1994; Bally et al., 2000). Entretanto, este método
apresenta muita controvérsia e é questionada por pesquisadores, como: Davenport
(1993), Núñez_Elisea and Davenport (1994). Em relação ao efeito do déficit
hídrico como promotor da indução floral, Castro Neto (1995) tem discutido que o
principal problema é que a aplicação do déficit hídrico não tem sido realizada
de maneira correta, ficando a planta com bastante água ainda disponível para o
crescimento vegetativo. O autor fundamenta sua sugestão no fato de que os
pomares situados sob as mesmas condições, mas tratados com déficit hídrico por
excesso de água, apresentam uma floração satisfatória. Recentemente,
Pongsomboon et al. (1997) demonstraram que a floração foi correlacionada com o
baixo potencial hídrico da folha da mangueira durante o período de repouso
fisiológico.
Outro ponto de discussão na literatura é a aplicação de nitrato de potássio
para a indução floral. Aplicações de nitrato de potássio na concentração de 3 a
6 % têm sido usadas para antecipar a floração. O nitrato não é um indutor
floral, mas age como um catalisador, antecipando a floração da mangueira
(Castro Neto, 1995).
O comportamento da mangueira sob condições subtropicais é relativamente bem
entendido (Chacko, 1986); entretanto, pouco se conhece como a mangueira se
comporta em climas tropicais. Sob altas temperaturas e disponibilidade de água
no solo, a mangueira tende a vegetar.
Schaffer et al. (1994) sugerem que a transpiração e a assimilação líquida de
CO2 podem ser usadas como parâmetros para o estudo das relações hídricas da
mangueira, haja vista que a transpiração é um bom indicador da disponibilidade
de água na planta. Em uma situação de boa disponibilidade de água, as plantas
cultivadas geralmente apresentam altas taxas de transpiração (Salisbury &
Ross, 1992). À medida que a água do solo se torna escassa, a planta começa a
reduzir sua taxa transpiratória para a diminuição da perda de água e economia
da água disponível no solo. A transpiração da mangueira tem sido correlacionada
à umidade relativa e à pressão de déficit de vapor (Schaffer et al., 1994).
Para entender-se melhor como a mangueira se comporta nas condições climáticas
do Submédio São Francisco, alguns parâmetros fisiológicos, como transpiração e
resistência estomática, foram medidos ao longo do ano, durante períodos
distintos do ciclo da planta.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi realizado na região do Submédio São Francisco, em um pomar de 23
ha de manga da variedade Tommy Atkins, com 8 anos de idade, plantada no
espaçamento convencional de 10x10 m e irrigada por aspersão. A região do
Submédio São Francisco possui uma precipitação média anual de 350 mm
concentrada nos meses de janeiro a abril, temperatura variando de 12 a 38ºC,
com média anual de 26 ºC, insolação média anual de 7,3 h/dia, com valor mínimo
de 5,9 h/dia, nos meses de maio a junho, e valor máximo de 9 h/dia no mês de
outubro. A evaporação potencial oscila entre 1800 e 2000 mm/ano, enquanto a
média anual de umidade relativa é de 60%, sendo o valor mínimo de 40% alcançado
no mês de outubro e valor máximo de 76% alcançado no mês de abril.
O monitoramento correspondeu à medição de alguns parâmetros fisiológicos, como
a transpiração, resistência estomática e potencial hídrico. As medições foram
realizadas semanalmente ou com intervalos de 15 dias, durante o período de
déficit hídrico (abril a maio) e durante o período de irrigação, onde as
observações foram feitas antes e 24 horas após cada irrigação. As medições de
transpiração e resistência estomática, bem como temperatura da folha, foram
feitas com um porômetro portátil (LI-1600, LI-Cor Nebraska, USA).
As medições foram realizadas para folhas expostas diretamente ao sol e para
folhas do lado que se encontravam à sombra. A folha amostrada foi a primeira
folha madura a partir do ápice do ramo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos para o comportamento da resistência estomática
apresentado na Figura_1 mostram uma grande flutuação nas medições feitas à
sombra, independentemente do período amostrado. Esta variação nas medições foi
maior para as folhas situadas à sombra durante a realização das medições. Este
comportamento para a resistência estomática pode ser explicado devido à
resposta dos estomatos à variação da condição luminosa que, certamente, não se
apresenta homogênea para todas as folhas apesar do empenho em manter as mesmas
condições para as amostragens realizadas. Para as amostragens sob pleno sol,
houve menor variação.
A resistência estomática das folhas sob sombreamento e expostas ao sol é
diferente, sugerindo que, para plantas de porte alto, como é o caso da
mangueira, deve-se considerar o que está ocorrendo em ambos os lados da copa da
planta. Considerando o comportamento da resistência estomática durante o
período de déficit hídrico, ou repouso fisiológico (abril a final de maio, Fig
1), e o período de irrigação (final de maio a final de agosto, Fig._1), nota-se
que a resistência das folhas expostas ao sol foi maior para o período de
irrigação. Inicialmente, a resistência foi maior para o período de irrigação,
sugerindo que, ao sair do déficit hídrico, a planta começa com uma economia de
água. Com a continuação da irrigação, a resistência decresce, embora permaneça
superior ao período anterior (Figura_1).
As observações da resistência estomática após as irrigações mostram que estas
não foram reduzidas com o irrigação. Estes dados sugerem ineficiência da
irrigação em promover diminuição da resistência estomática da mangueira.
Análise dos dados de transpiração (Figura_2) confirmam os resultados obtidos
para a resistência estomática. A transpiração foi menor para o período de
irrigação (final de maio a agosto) que para o período de déficit hídrico (abril
a final de maio). Como a transpiração em ambos lados da copa, tanto exposta ao
sol como exposta à sombra, apresentara a mesma tendência (Figura_2), o efeito
causando redução na transpiração independe das condições de luminosidade em
ambos os lados da copa da planta. Com relação a esse fato, a redução da
transpiração pode estar sendo provocada por um fator afetando a disponibilidade
de água para a planta. Neste sentido, sugere-se que as irrigações, causando uma
injúria para a mangueira por excesso de água, promovem a redução do oxigênio do
solo utilizado na respiração radicular.
Adicionalmente, os dados na Figura_2 indicam altas taxas transpiratórias,
sugerindo que a mangueira se encontrava em condição de déficit hídrico com a
suspensão da irrigação durante aquele período. Isto sugere que a prática do uso
do déficit hídrico como indutor floral está sendo mal utilizada.
A suposição de que as baixas temperaturas que geralmente ocorrem durante o
período de junho a agosto, poderiam estar causando a diminuição da
transpiração, é descartada, uma vez que a temperatura da folha para ambos os
períodos permaneceram aproximadamente iguais (Figura_3).
Observação da resistência estomática e da transpiração ao longo do dia, para
dois dias característicos da época de déficit hídrico e da época irrigada
(Figura_4), demonstra muito pouca diferença entre as variáveis para os dois
períodos estudados. Mais uma vez, os dados sugerem que as irrigações aplicadas
para disponibilizar água para a planta não têm sido eficientes.
CONCLUSÕES
O processo transpiratório claramente reflete a disponibilidade de água para a
planta. Sendo assim, os resultados apresentados neste trabalho demonstram que o
déficit hídrico usado para a indução floral da mangueira é feito de maneira
incorreta. O presente trabalho sugere que o estresse por suspensão da irrigação
seja aplicado da maneira mais rápida possível. Para isto, o solo deve
apresentar boa drenagem ou um dreno-trincheira eficiente para a remoção da água
de irrigação da área radicular da mangueira. Deve-se evitar o excesso de água
na irrigação para não provocar um efeito contrário para a mangueira.