Reguladores vegetais na conservação pós-colheita de goiabas 'Paluma'
REGULADORES VEGETAIS NA CONSERVAÇÃO PÓS-COLHEITA DE GOIABAS 'PALUMA'1
INTRODUÇÃO
A goiaba tem pequena vida útil pós-colheita, ou seja, de apenas 3 dias, quando
mantida em ambiente a 25-30ºC (Durigan, 1997). Os principais fatores
depreciadores de sua qualidade na pós-colheita são a rápida perda da coloração
verde da casca, o amolecimento, a incidência de podridões , o murchamento e a
perda de brilho (Jacomino et al., 2001).
Siddiqui & Bangerth (1996) citam que o cálcio participa de forma importante
na estrutura e na resistência mecânica da parede celular, facilitando ligações
entre polímeros de pectina da lamela média, o que aumenta esta resistência
(Chitarra & Chitarra, 1990). Este elemento também controla o processo de
desintegração da mitocondria, do retículo endoplasmático e da membrana
citoplasmática, reduzindo a taxa respiratória. Sua aplicação exógena pode
contribuir para aumentar a vida pós-colheita de muitas frutas, segundo o
revisado por Durigan (1997).
Brady (1987) relata que o amolecimento faz parte do amadurecimento de quase
todos os frutos e tem uma enorme importância comercial, pois, quando acontece
muito rapidamente, limita a vida pós-colheita dos mesmos, facilitando o aumento
de injúrias mecânicas durante o manuseio e aumentando a suscetibilidade a
doenças. Normalmente, o amolecimento é acompanhado de aumento na concentração
de pectina solúvel. Vasquez-Ochoa & Colinas-Leon(1990) observaram, em
goiabas, que a resistência da textura diminui com o amadurecimento, evoluindo
de 25,0 N no fruto "de vez" para 5,0 N no "muito maduro".
Pathmanaban et al. (1995) observaram que frutos de goiaba, tratados por imersão
em solução de CaCl2 a 4%, por 1 hora, e embalados em sacos plásticos contendo
CaCl2 na estrutura, quando armazenados ao ambiente, apresentaram retardo no
amadurecimento, no desenvolvimento da coloração e na perda de firmeza.
O etileno e o ácido abscísico são tidos como promotores do amadurecimento em
frutos, enquanto as giberelinas, as auxinas, as citocininas e os íons cálcio
como inibidores (Chitarra & Chitarra, 1990).
A aplicação de auxina a frutos, na forma de 2,4D, por imersão ou infiltração a
vácuo, permitiu a Vendrell (1985) observar, em tomate e banana, que ocorreu um
aumento na produção de etileno, mas que também houve um retardo no
amadurecimento, e que este último efeito prevaleceu, dependendo da distribuição
e da concentração da auxina.
Teaotia et al. (1972) relatam que o ácido giberélico, quando aplicado em pós-
colheita, teve efeito retardador ao amadurecimento de goiabas, reduzindo-lhes a
taxa de respiração e as mudanças na coloração.
Este trabalho teve como objetivo avaliar a ação de reguladores do
amadurecimento (giberelinas, auxinas e citocininas) e do cálcio, na vida útil
de goiabas recém-colhidas, quando aplicados exogenamente.
MATERIAL E MÉTODOS
Utilizaram-se frutos "de vez", o que corresponde à coloração verde-
mate (Pereira, 1995), colhidos em outubro de 1999, pela manhã, em Vista Alegre
do Alto-SP, e imediatamente transportados ao Laboratório de Tecnologia dos
Produtos Agrícolas da UNESP ' Jaboticabal-SP. Os tratamentos aplicados foram
diferentes soluções de manitol a 300mM contendo os reguladores ácido
giberélico, ácido indol-3-acético (IAA), 6-benzilaminopurina (6-BAP) a 100
mg.L-1 ou 200 mg.L-1 e CaCl2 a 1% ou 2%.
Utilizaram-se 64 frutos por tratamento, divididos em 16 lotes, contendo 4
frutos cada. Os frutos foram tratados com as soluções, por 20 minutos, sob
condição de vácuo (500 mmHg), conforme o sugerido por Frenkel et al. (1969). A
solução para imersão dos frutos estava contida em dessecador, o qual tinha
acoplado em sua tampa uma bomba de vácuo.
Após receberem os tratamentos, os frutos foram armazenados ao ambiente (21,6ºC,
73,4% UR) e analisados periodicamente quanto às suas características físicas e
químicas. Os 16 lotes que integravam cada tratamento, foram assim distribuídos:
4 para avaliações físicas e denominados, controle, e 12 para serem amostrados a
cada 2 dias, com 2 repetições, e analisados física e quimicamente.
Os frutos do controle eram avaliados diariamente, quanto à perda de massa
fresca, aparência, presença de podridões e taxa respiratória. A aparência foi
avaliada, segundo uma escala de pontos, onde: 1=ótimo e 5=totalmente murcho,
tendo-se como limite para uso comercial a nota 3,0 (Lima, 1999). A presença de
podridões foi relatada pela porcentagem de frutos doentes em relação ao total
de frutos avaliados, através de observação visual e identificação dos patógenos
no Laboratório de Fitopatologia da UNESP ' Jaboticabal-SP, através de
observação das estruturas do agente em microscópio óptico comum e comparação
destas com o apresentado por Barnett & Hunter (1972). A taxa respiratória
dos frutos foi medida mantendo-se os frutos em recipiente hermeticamente
fechado, durante uma hora, do qual se tomaram alíquotas de 0,3 mL de ar, antes
e depois deste tempo, nas quais se determinou o conteúdo de CO2, utilizando-se
de Cromatógrafo Finnigan 9001.
Os frutos amostrados eram avaliados quanto à coloração e firmeza, e depois de
triturados, embalados em sacos plásticos e estocados a -18°C, para posterior
determinação dos teores de ácido ascórbico e pectinas (total e solúvel).
A coloração foi determinada utilizando-se de um reflectômetro Minolta Croma
Meter CR-200b, o que permitiu relatá-la através do ângulo hue ou de cor. A
firmeza foi determinada, utilizando-se de penetrômetro Bishopâ FT 327 com
ponteira de 8 mm, através de leituras, nas laterais opostas dos frutos. Os
conteúdos de ácido ascórbico foram determinados segundo a metodologia da AOAC
(1997).
Os teores de pectina total e solúvel foram determinados em extrato obtido
conforme a metodologia de McCready & McComb (1952), segundo técnica
adaptada de Blumenkrantz & Asboe-Hansen (1973).
A evolução da massa fresca foi analisada estatisticamente, através de regressão
polinomial (Gomes, 1977), e as equações de 1º grau comparadas quanto ao
paralelismo através do teste t, conforme o proposto por Neter et al.(1978),
utilizando-se do programa RECOM. A análise dos demais dados foi feita,
utilizando-se de um delineamento inteiramente casualizado, com 2 repetições,
através de um esquema fatorial 10x5 (10 tratamentos e 5 datas de análise).
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A massa fresca dos frutos, durante o período de armazenamento, decresceu de
maneira constante e significativa em todos os tratamentos. Os frutos submetidos
ao tratamento com CaCl2a 2% apresentaram a menor perda, enquanto os submetidos
ao 6-BAP a 200mg.L-1 apresentaram as maiores (Tabelas_1 e 2).
A vida útil das goiabas submetidas aos tratamentos CaCl2 a 1% e a 2% foi de 7
dias (nota 3), enquanto para os submetidos aos demais tratamentos foi de 6
dias. Neste período, não se observou o aparecimento de doenças, que só surgiram
no 8º dia, nos frutos submetidos ao tratamento IAA 200 mg.L-1, e no 9º dia, nos
do GA 200 mg.L-1 (Tabela_3). Nestas datas, os frutos apresentavam-se
senescentes, e o aparecimento de doenças deve estar relacionado com o
amolecimento devido ao processo natural de envelhecimento. A análise dos frutos
doentes indicou que a doença incidente era a antracnose, causada pelo fungo
Colletotrichum sp.
A evolução externa dos frutos (Tabela_4) submetidos a todos os tratamentos
evoluiu de verde para amarelo. O ângulo hue diminuiu, em média, de 117,0
(verde) no 1º dia para 93,1 (amarelo) no 7º dia. Não se observaram diferenças
significativas entre os tratamentos durante o tempo de armazenamento. O efeito
retardador da giberelina e da citocinina na evolução da coloração, devido a
atraso na degradação da clorofila, conforme o relatado por Ludford (1995) e
Chitarra & Chitarra (1990), não foi observado.
A firmeza destes frutos diminuiu, em todos os tratamentos, como resultado do
amadurecimento, evoluindo de 97,3N, no 1º dia, para 19,6N, no 7º dia, sem ser
influenciada pelos tratamentos (Tabela_5). Não se observou o efeito retardador
do íon cálcio, preconizado por Siddiqui & Bangerth (1996) e Pathmanaban et
al. (1995).
O conteúdo de pectina total nos frutos, que no 1º dia era de 0,89 g de ácido
urônico.100g de polpa-1, reduziu-se para 0,53 ' 0,75 g, após 7 dias, como
resultado do processo de envelhecimento. O conteúdo de pectina solúvel, no
entanto, foi crescente ao longo do período de armazenamentoem todos os
tratamentos (Tabela_6). Pode-se observar que a evolução desta solubilização foi
mais lenta nos frutos submetidos aos tratamentos CaCl2 1% e GA 200 mg.L-1 até o
5º dia de armazenamento, enquanto nos demais tratamentos essa evolução foi
crescente e irregular. Não se observou relação entre a firmeza e este conteúdo
de pectina solúvel.
O conteúdo de ácido ascórbico, Tabela_7, que era de 78,5 mg.100g de polpa-1 no
1º dia, diminuiu durante o armazenamento, o que também foi observado por Lima
& Durigan (2000). Os frutos submetidos aos tratamentos com ácido indol-3-
acético (IAA 100 e 200 mg.L-1) apresentaram a melhor preservação do conteúdo de
ácido ascórbico.
O comportamento respiratório das goiabas não foi afetado pelos tratamentos, e a
respiração, medida em mgCO2.kg-1.h-1, mostrou-se intensa e com aumentos
sucessivos a partir de 110,83, no 1º dia, atingindo 128,47, no 7º dia (Tabela
8). Não se observou um comportamento que o caracterizasse como climatérico, o
que é concordante com o observado por Mattiuz et al. (2000), que também
trabalhou com goiabas-'Paluma'.
CONCLUSÕES
Os tratamentos com cloreto de cálcio a 1% propiciaram vida útil de 7 dias às
goiabas-'Paluma', com manutenção da aparência e menor perda de massa fresca. Os
tratamentos utilizados não influenciaram na evolução da coloração e da firmeza.