Quebra da dormência da maciera (Malus domestica Borkh) em São Joaquim-SC
QUEBRA DA DORMÊNCIA DA MACIERA (Malus domestica Borkh) EM SÃO JOAQUIM-SC1
INTRODUÇÃO
A macieira é uma fruteira de clima temperado que se caracteriza pela queda das
folhas no final do ciclo vegetativo e conseqüente entrada em dormência. Para
que ocorra brotação e floração, as gemas necessitam ser submetidas a um
determinado tempo às baixas temperaturas e, segundo a literatura, considera-se
a soma de frio abaixo de 7,2ºC. No entanto, temperaturas superiores a 7,2ºC
também podem ser efetivas na abertura de gemas, segundo Samish et al. (1967),
Erez e Lavee (1971). Além da temperatura, outros fatores, como a luz, têm
efeito negativo no acúmulo de frio, de acordo com Erez et al. (1968). Nas
regiões onde há falta de frio, assim como no Sul do Brasil, são observadas
anomalias fisiológicas, onde as plantas apresentam baixa porcentagem de
brotação de gemas laterais, no período prolongado de floração, e pouca formação
de gemas floríferas e baixa produtividade de frutos, segundo Iuchi et al.
(1987), Iuchi & Iuchi (1991), Iuchi & Iuchi (1987), Petri et al.
(1996). No Brasil, São Joaquim é o local que apresenta as melhores condições
climáticas para o cultivo da macieira, de acordo com Petri, (1986). Entretanto,
não é correto afirmar que apresenta horas de frio suficientes para satisfazer
as exigências das cultivares, pois poderá variar com os mesmos. O município
apresenta diferentes microclimas, em altitudes que vão de 900 a 1.500 metros.
Com a devastação das florestas para a retirada da madeira, houve uma mudança
nas condições climáticas, apresentando anos cujo número e unidade de horas de
frio fica abaixo das necessidades das cultivares Gala e Fuji. Outros fatores
que devem ser levados em conta são o vigor e a idade das plantas, exigindo
maior ou menor número de horas de frio, segundo Petri et al. (1986). Pomares
novos foram e estão sendo plantados, e o porta-enxerto mais utilizado é o
Marubakaido, de porte vigoroso, fazendo com que haja uma necessidade de frio
para a superação da dormência das gemas. A formação da planta, nos primeiros
anos, é de importância fundamental para o sucesso do empreendimento. Uma boa
brotação das gemas que permita selecionar ramos bem formados e melhor
distribuídos, favorece a penetração de luz, que é de primordial necessidade.
Uma melhor brotação das gemas laterais em plantas adultas vai permitir à planta
uma melhor formação de órgãos de frutificação. Métodos físicos (Iuchi &
Iuchi, 1991) e químicos podem ser utilizados para complementar o frio
necessário à superação de dormência das gemas, de acordo com Petri et al.
(1996), Iuchi et al. (1987), Pasqual & Petri (1979).
O óleo mineral (OM), a cianamida hidrogenada (CH) e principalmente a ação
conjunta desses dois produtos são, hoje, os mais eficientes e os únicos que se
encontram registrados para a superação de dormência da macieira (Nee, 1986).
O óleo mineral a 3% + CH 0,25% propiciam uma brotação de gemas laterais
equivalentes às doses de CH nas concentrações de 1 a 1,5%. A concentração de OM
poderá variar de 3 a 4% e da CH de 0,15 a 0,5%, dependendo da cultivar e das
condições de dormência das plantas (Petri et al., 1996). Segundo Petri et al.
(1996) e Iuchi et al. (1987, 1986), a produção por planta nem sempre aumenta
com a aplicação de OM + CH. O uso do raleio deve ser adequado, o que pode
interferir nos dados de produção. Outro problema que pode exercer influência na
produção, é a polinização deficiente devido à concentração de flores e o
aumento no número de cachos florais. Também é importante ressaltar que o efeito
benéfico do aumento da brotação de gemas laterais que, na maioria, são gemas
vegetativas, será observado principalmente após o segundo ano (Petri (1986),
Iuchi et al. 1986).
Com o objetivo de observar a necessidade de uso de agentes químicos sobre a
brotação de gemas nas plantas de macieira das cultivares Gala e Fuji, plantas
jovens e adultas, em diferentes altitudes do município de São Joaquim,
realizou-se este ensaio.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foram conduzidos no município de São Joaquim, nos anos de 1998 e 1999, no total
de dezessete experimentos, sendo as cultivares a Gala e Fuji com plantas
jovens, que vão de 1 até 4 anos e plantas adultas, acima de 8 anos, ou com a
produção estabilizada. Os experimentos variaram em função da idade de plantas
jovens e adultas, da localidade, altitude e das cultivares. O delineamento
experimental adotado foi o inteiramente casualizado, com 1 planta por parcela.
O número de repetições foi variável de acordo com a localidade, ano e cultivar.
Os produtos comerciais utilizados foram: Dormex® (49% de cianamida
hidrogenada), Assist® (75,6% de óleo mineral) e Break Thru® (espalhante adesivo
não iônico/penetrante do grupo químico dos silicones).
Os tratamentos, em todos os experimentos, foram aplicados no estádio fenológico
de gema dormente, uma única vez, conforme recomendação de Petri et al. (1996).
Em cada parcela, foram demarcados 4 ramos do ano para plantas adultas e 3 ramos
para plantas novas. As avaliações do número total de gemas do ramo e das gemas
brotadas foram feitas 45 dias após a aplicação dos tratamentos.
A produção (kg.pl-1) foi estimada através da contagem do número de frutos por
planta e da estimativa do peso médio dos frutos.
As localidades e suas respectivas altitude estudadas no ano 1998 foram:
Bentinho 950 m (baixo), Postinho 1.400 m (alto), Estação Experimental de São
Joaquim 1.415 m (alto) e Campo de Aviação 1.360 m (alto).
Tratamentos utilizados no 1º ano, com plantas novas, foram: 0; 0,50; 0,70 e
0,90% de cianamida hidrogenada + 4% de óleo mineral, e com plantas adultas; 0;
0,30; 0,50; 0,70% de cianmida hidrogenada + 3% de óleo mineral.
Em 1999, as localidades e suas respectivas altitudes estudas foram: Corujas
1.360 m (alto); Luizinho 1.080 m (baixo) e Várzea 930 m (baixo).
No ano de 1999, os tratamentos utilizados foram: 0; 0,125; 0,25 e 0,375% de
cianamida hidrogenada + 3% de óleo mineral e 0,25% de cianamida hidrogenada +
0,03% de Break Thru® + 3% de óleo mineral, para plantas adultas. Para plantas
novas, os tratamentos foram os mesmos, apenas com 2% de óleo mineral.
Os dados foram submetidos à análise de variância e de regressão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No ano de 1998, registraram-se 772 horas de frio, que corresponderam a 2660
unidades de frio, enquanto o ano 99 acumulou 1005 horas de frio, que computaram
2377 unidades de frio ajustado ao Norte Carolina modificado.
Ano de 1998:
As plantas jovens da cultivar Fuji, na localidade de Bentinho (950m),
responderam aos acréscimos nas doses de cianamida hidrogenada + óleo mineral ao
nível de 5% de probabilidade, revelando efeito quadrático (Tabela_1) que
estimou o ponto máximo a 0,5664% de cianamida hidrogenada + 3% de óleo mineral,
com 74,63% de gemas laterais brotadas. A função quadrática estimada foi: Yi =
56,79078455 + 63,018343 Xi ¾ 55,622038Xi2(Fig.1). Este resultado está de acordo
com o de outros autores que encontraram resposta aos agentes químicos de quebra
de dormência quando a quantidade de horas de frio foi insuficiente (Iuchi &
Iuchi (1991), Iuchi et al. (1987), Iuchi & Iuchi (1986), Petri et al.
(1996), Pasqual et al. (1978) Petri et al. (1976). Nesta região mais baixa de
São Joaquim, o acúmulo de frio não é suficiente para brotação de gemas
laterais.
As plantas jovens da cultivar Fuji, na localidade Campo de Aviação (1300 m),
uma região alta, revelou efeito linear, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela
1). Para cada aumento de 0,10% de cianamida hidrogenada + óleo mineral, a
porcentagem de brotação aumentou em 1,54%. A equação estimada foi
Yi=58,08271997 + 15,418331 Xi (Fig.2).Este resultado concorda que, em plantas
novas, há maior necessidade de frio para que ocorra brotação normal (Petri et
al. 1996).
As plantas jovens da cultivar Fuji (nova), para a Estação Experimental de São
Joaquim(1415m), apresentaram efeito linear, ao nível de 5% de probabilidade
(Tabela1).Para cada aumento de 0,10% de cianamida hidrogenada + óleo mineral, a
% de brotação aumentou em 2,45%. A função estimada foi Yi = 63,51783520 +
2451543296 Xi (Fig.3).O efeito linear obtido no presente experimento revela
que, para este local, doses mais altas de C.H. não atingiram o nível fitótoxico
para inibir a brotação de gemas laterais.
As plantas adultas da cultivar Fuji, na localidade de Bentinho (950 m), acusou
efeito quadrático, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela_2). A função
quadrática estimada foi Yi = 57,66503 + 100,955056 Xi ¾ 117, 878279 Xi2(Fig.4),
com 0,4282% de cianamida hidrogenada + 2% de óleo mineral, acusando 79,28% de
gemas brotadas. Mesmo em locais mais baixos, o aumento de doses de CH atingiu
nível fitotóxico, o que concorda com o resultado de Iuchi et al. (1987).
A cultivar Gala, em plantas jovens, na Estação Experimental de São Joaquim
(1415 m), revelou efeito quadrático, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela
1). A função estimada foi Yi = 50,795745 + 87,321123 Xi ¾ 48,972479 Xi2(Fig.5),
com o ponto máximo estimado a 0,8915% de cianamida hidrogenada + 3% de óleo
mineral e 89,72% de gemas brotadas. O efeito quadrático apresentado por este
experimento revela que as doses mais altas de CH inibiram a brotação de gemas,
e resultados similares foram obtidos por Iuchi et al. (1987) e Petri et al.
(1996).
Para a cultivar Fuji, em plantas adultas, na localidade Postinho (1400m), não
houve resposta significativa, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela_2).Isto
revela que a necessidade de frio foi satisfeita, pois as plantas mais velhas
apresentam menor necessidade de frio para que ocorra brotação (Petri et al.
1996).
A cultivar Gala, adulta, no Bentinho (950 m), acusou efeito linear, ao nível de
5% de probabilidade (Tabela_2). Para cada aumento de 0,10% de cianamida
hidrogenada + óleo mineral, a porcentagem de brotação aumentou em 2,378%. A
função estimada foi Yi = 68,039906 + 23,786915 Xi (Fig.6).Este local, por ser
uma região com menor altitude e conseqüentemente com deficiência de frio, os
aumentos de doses de CH promoveram aumentos na brotação; resultados similares
utilizando outros sais de dinitro fenóis foram obtidos por Iuchi & Iuchi
(1991), Iuchi et al. (1990),Iuchi & Iuchi (1986), Iuchi et al. (1985); no
entanto, as doses usadas no presente experimento não atingiram níveis
fitotóxicos, o que deve estar associado ao alto vigor de plantas.
Para a cultivar Fuji, plantas novas e adultas, respectivamente, aumentos médios
de gemas brotadas para doses acima de 0,5 e 0,3% de cianamida hidrogenada +
óleo mineral a 3 e 2%, respectivamente, para as diferentes altitudes
representadas pelos locais, são tão pequenos ou mesmo decrescentes que,
provavelmente, não são economicamente viáveis.
Para a cultivar Gala, plantas novas e adultas, nas diferentes altitudes
representadas pelos diferentes locais, dosagens acima de 0,5% de cianamida
hidrogenada não são viáveis economicamente.
Como este trabalho foi conduzido em um ano com número razoável de unidades de
frio, bem acima da média, pode-se observar que plantas adultas da cv. Fuji, na
maior altitude estudada, não responderam aos tratamentos; porém, em menores
altitudes, foram receptivas. Plantas jovens, desta mesma cultivar, em altitudes
maiores e menores, responderam bem aos tratamentos. Para a cultivar Gala, não
foi possível comparar plantas jovens e adultas em locais mais altos e mais
baixos, mas, nas idades e locais estudados, houve resposta. Isto concorda com
dados de Petri (1996), que níveis de cianamida hidrogenada associada ao óleo
mineral variaram de 0,15 a 0,5%.
Ano de 1999:
Nas plantas jovens da cultivar Fuji, na localidade de Corujas (1360 m) houve
efeito linear dos tratamentos, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela_3). A
equação estimada foi Yi = 63,277884 + 20,808076 Xi (Fig.7). Para cada aumento
de 0,10% de cianamida hidrogenada, houve um aumento de 2,08% de gemas brotadas.
Isto está associado ao alto vigor de plantas, pois quanto mais nova a planta,
maior será o vigor, e quanto mais vigorosa, maior a necessidade de frio (Petri
et al. 1996). Já para a cv. Fuji, plantas adultas, não houve efeito (Tabela_4).
Este resultado está de acordo que as plantas de ramos de alto vigor exigem
maior quantidade de horas de frio para promover a brotação (Petri et al.,
1996). A Gala, plantas novas, neste mesmo local, apresentou um efeito
quadrático, ao nível de 5% de probabilidade (Tabela_3) (Yi = 50,449072 +
166,183709 Xi ¾ 379,312258 Xi2) (Fig.8). O efeito quadrático apresentado pelo
aumento de doses de C.H. revela que a cultivar Gala necessita de menos frio,
pois já atingiu níveis tóxicos, provocando diminuição. Já na Gala, plantas
adultas, não houve efeito dos tratamentos neste mesmo nível (Tabela_4). O ponto
máximo, estimado, foi 0,2198% de cianamida hidrogenada + 2% de óleo mineral com
6,87% de gemas brotadas.
A cultivar Fuji, plantas adultas, neste mesmo ano, na altitude Luizinho (1080
m), apresentou efeito linear aos tratamentos Yi = 62,398833 + 24,704 XI
(Fig.9), ao nível de 5% de probabilidade (Tabela_4), revelando falta de frio.
Este resultado está de acordo com Petri et al. (1996) e Iuchi et al. (1990),
enquanto, na cultivar Gala, plantas adultas, não houve efeito ao mesmo nível de
probabilidade (Tabela_4), revelando que a necessidade de frio foi satisfeita
nesta condição.
A Fuji é uma cultivar de maior vigor e, portanto, era de se esperar que sua
exigência em frio para quebra de dormência das gemas laterais fosse maior que a
Gala.
A cultivar Fuji, adulta, na localidade de Corujas, a 1.360 m de altitude, não
apresentou efeito aos tratamentos (Tabela_4), revelando que o frio foi
satisfeito, enquanto esta mesma cultivar, a 1080 m de altitude, respondeu aos
tratamentos, revelando falta de frio. Em maiores altitudes, era de se esperar
que, num ano com 2.377 unidades de frio, o fato ocorresse (Empasc, 1986).
A cultivar Gala, plantas adultas, na localidade da Várzea, a 930 m de altitude,
apresentou efeito linear Yi = 75,89875 + 26,945 Xi (Fig.10), a 5% de
probabilidade, enquanto esta mesma cultivar, nas Corujas, a 1360 m, não
apresentou efeito significativo neste mesmo nível de probabilidade (Tabela_4).
A diferença para a cultivar Gala, adulta, a 930 m, com resposta linear a 1080
m, que não apresentou resposta aos tratamentos, pode ser devida ao maior vigor
das plantas na Várzea a 930m (Petri et al., 1996).
Observa-se, claramente, que tanto a cultivar quanto a altitude interferem na
reação das plantas aos tratamentos e que a interferência dos anos se deve,
principalmente, ao número de unidades de frio correspondentes.
Não houve efeito dos tratamentos sobre a produção em nenhum dos locais
estudados (Tabelas_3 e 4). Este resultado vem confirmar observações de Petri et
al. (1996), que outros fatores interferem sobre este parâmetro. Ressalta-se
também que os locais estudados no segundo ano são diferentes dos do primeiro
ano e que os efeitos na produção só são observados a partir do 2º ano (Petri et
al. (1996), Petri (1986), Iuchi ,(1987, 1986)).
CONCLUSÕES
1. Para plantas jovens, de Gala ou Fuji, mesmo em regiões mais altas (acima de
1360 m) de São Joaquim, onde existe bastante frio, há necessidade de produtos
químicos para a superação da dormência, para aumentar a brotação.
2. Para plantas adultas, nas regiões mais altas (acima de 1360 m), não há
necessidade de aplicação de produtos químicos para a superação de dormência; já
em regiões mais baixas, há necessidade de utilização de produtos para a
superação de dormência.
3. Em plantas adultas de Gala, nos locais baixos (menos de 1080 m), em plantas
de alto vigor, há necessidade de produtos para a superação de dormência; no
entanto, em plantas de baixo vigor, não há necessidade de produtos químicos
para a superação de dormência.
4. O espalhante adesivo Break Thru não melhora o efeito do óleo mineral +
dormex.