AVALIAÇÃO DO POTENCAL DE PRODUÇÃO DO "PEQUIZEIRO-ANÃO" SOB CONDIÇÕES NATURAIS
NA REGIÃO SUL DO ESTADO DE MINAS GERAIS
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
O pequizeiro (Caryocar spp. - Caryocaraceae) é uma planta nativa do Cerrado e
da Amazônia, cujo fruto é muito rico em óleo e proteína, e bastante apreciado
pelos povos que vivem nestes ecossistemas. Ferreira et al. (1988) encontraram
teores de óleo de 61,79% e 42,2% e teores de proteína de 6,71% e 24,6%,
respectivamente, na polpa e na amêndoa de frutos provenientes da região de
Cerrado, destacando, ainda, a riqueza destes frutos em relação a vários
elementos minerais, quando comparados com diversas frutas economicamente
cultivadas. Silva et al. (1994) encontraram 20000 mcg de vitamina A e 463 mcg
de vitamina B2 na polpa de frutos de pequi do Cerrado. Além do uso alimentar em
pratos típicos da região, o óleo da polpa dos frutos possui propriedades
medicinais (Salles et. al., 1997).
Segundo Prance e Silva (1973), quinze espécies e cinco subespécies de
pequizeiro foram descritas até 1973. Distribuídas na faixa tropical do
continente americano, apenas quatro dessas espécies não ocorrem no Brasil. A
espécie de maior presença na região do Cerrado é C. brasiliense Camb., dividida
em duas subespécies: C. brasiliense subsp. brasiliense de porte arbóreo com
ampla distribuição e C. brasiliense subsp. intermedium, de porte arbustivo com
ocorrência restrita a algumas partes deste ecossistema. O "pequizeiro-
anão", representado por C. brasiliense subsp. intermedium, também
denominado pequi-rasteiro ou pequi-de-moita, possui folhas planas, não rugosas,
com pedicelos e pedúnculos glabros ou pouco pubescentes. A face superior da
folha é geralmente glabra, podendo, no entanto, apresentar pêlos longos, duros
e grossos, esparsamente distribuídos em sua superfície, à semelhança do que
ocorre na face inferior. As plantas apresentam hábito de crescimento arbustivo
do tipo sufrutecente com caule aparente ou não.
A incorporação recente das áreas de cerrado à agricultura brasileira e a forma
extrativista como o pequi tem sido explorado representam uma grande ameaça à
sobrevivência dessas espécies, principalmente para o pequizeiro-anão, devido a
sua baixa freqüência e distribuição restrita. Assim, num futuro próximo, poderá
haver uma redução considerável na oferta deste fruto e conseqüente elevação de
preço.
O objetivo deste trabalho foi avaliar o potencial de produção do
"pequizeiro-anão", em seu habtat, a percentagem de germinação de suas
sementes e o comportamento ex situ da planta.
Foram realizadas duas prospecções botânicas à região Sul do Estado de Minas
Gerais, em 1997 e 1998, em áreas de vegetação de Cerrado do tipo Campo sujo,
nas proximidades do município de Ingaí-MG, localizado a 21o 24´ 4´´ de latitude
Sul e 44o 55´ 2´´de longitude Oeste, com 951 metros de altitude (IBGE, 1990),
clima do tipo temperado propriamente dito, mesotérmico de inverno seco (Cwb),
segundo a classificação de Köppen (Brasil, 1969), onde se observou a ocorrência
de uma população de pequizeiros de porte baixo.
Avaliaram-se a altura da planta, diâmetro da copa, número de hastes por planta,
número de frutos por planta, número de sementes/endocarpo por fruto, peso das
sementes/endocarpo, época de florescimento e frutificação, cor do fruto e da
polpa e a densidade de plantas de "pequizeiro-anão" em seu habitat.
Para isso, foi delimitada uma área de um hectare, onde supostamente havia maior
densidade de plantas de porte baixo. Foram coletadas sementes para avaliação do
poder germinativo, e 200 mudas provenientes destas sementes foram plantadas no
Distrito Federal.
De acordo com a chave de identificação de subespécies de C. brasiliense (Prance
e Silva, 1973), foram identificadas 114 plantas de C. brasiliense subsp.
Intermedium, na área delimitada. Devido às variações fenotípicas observadas, as
plantas foram estratificadas em função do tipo agronômico (Tabela_1). Assim,
das 114 plantas encontradas na área de um hectare, 95 apresentaram porte
arbustivo em forma de moitas, com duas a oito hastes, oriundas de um tipo de
"tronco subterrâneo" e altura de 0,3 a 0,7 m (Figura_1), e 19 plantas
apresentaram pequeno porte (Figura_2), com tronco lenhoso e grosso na base, com
circunferência de 0,2 a 0,5 m, altura de 0,6 a 1,5 m, e diâmetro de copa de 0,8
a 1,7 m.
Não houve alteração na densidade de plantas/ha, altura da planta, diâmetro da
copa, número de hastes por planta, número de sementes por fruto e peso do
endocarpo/semente no período do estudo. Em 1998, houve redução no número de
frutos/planta. O florescimento ocorreu no período de setembro a outubro e a
maturação dos frutos de fevereiro e março. Observou-se que os frutos apresentam
deiscência e que há grande heterogeneidade em relação ao número de frutos/
planta, mas o peso do endocarpo foi semelhante aos valores encontrados por
Ferreira et al. (1988) e Silva et al., (1994), em pequizeiros comuns da região
do Cerrado, C. brasiliense Camb. Em plantas de porte arbustivo sem tronco,
foram observados até 16 frutos por planta e, em plantas com tronco, com um
metro de altura e 1,5 m de diâmetro de copa, até 86 frutos. O fruto possui cor
da casca esverdeada e cor da polpa amarelo-alaranjada semelhantes ao do
pequizeiro comum, relatado por Ferreira et al. (1988) e Silva et al. (1994). As
sementes de "pequizeiro-anão", sem tratamentos para quebra de
dormência, apresentaram 30% de germinação no período de um ano, em sementeira
de areia. Resultados semelhantes foram obtidos por Dombroski (1997), para
sementes de pequizeiros comuns coletadas na região Sul de Minas Gerais, próximo
ao município de Ingaí-MG. Nos plantios realizados no Distrito Federal, foi
observado que as plantas de "pequizeiro-anão", oriundas de sementes,
iniciaram a frutificação com altura de 60 cm, à semelhança do que ocorre em seu
habitat, aos 18 a 24 meses após o plantio, evidenciando que, além do porte
baixo, são também precoces, pois o pequizeiro comum da região do Cerrado inicia
a frutificação aos cinco anos após o plantio.
O porte baixo das plantas do "pequizeiro-anão" é uma característica
desejável, que favorece a colheita, tratos fitossanitários e culturais, e
permite o plantio de uma maior densidade de plantas por área, enquanto a sua
precocidade permitirá um retorno mais rápido de investimentos para os
agricultores.
Baseados nesta avaliação, podemos concluir que o "pequizeiro-anão"
apresenta um grande potencial a ser explorado em cultivos comerciais e em
programas de melhoramento genético. Por isso, as atividades de coleta,
caracterização, in situ e ex situ, e a seleção de matrizes potenciais de
"pequizeiro-anão" devem receber prioridade dos órgãos de pesquisa,
preservação ambiental e extensão rural e de técnicos, ecologistas e
agricultores.
Futuramente, o "pequizeiro-anão" poderá ser utilizado em programas de
melhoramento visando à redução do porte do pequizeiro comum, por meio do
cruzamento ou, simplesmente, como porta-enxerto com características
ananicantes. Entretanto, é importante ressaltar que muito pouco se conhece
sobre o pequizeiro-comum e o "pequizeiro-anão", podendo haver
dificuldades num programa de melhoramento.